25 janeiro 2005

O país ficou ontem mais pobre!

Ontem partiu! Para outras dimensões, mundos outros, um bardo do meu país.
Não era muito conhecido do chamado "grande público".
Trabalhava como a formiga e, como a cigarra, cantava a língua portuguesa no sossego da sua casa. Chama(va)-se Orlando Neves, o amigo que partiu.
Jornalista, homem de letras (poesia, prosa, crónica) engajado com o teatro, a cidadania e a política. Cansou-se, ou desencantou-se! Vivia como um eremita admitindo poucos no recesso do lar.
É hoje largamente desconhecido, por esquecimento de quem de direito, mas, verdade se diga, também por opção sua, dado que o país tem a tendência a esquecer os que não aparecem, confundindo a escrita/a obra com o homem e a sua vida.
Trabalhava a palavra como quem respira, Um exercício diário.
De um pequeno livro: "MORTE MINUCIOSA", de 1996, deixo-vos um poema :

1994

Os retratos que olho.
Eis a serenidade
da dor, semelhante
ao sono. Que longe estou
dessas fontes donde
vinham o medo e o riso.
Deles é o tempo,
apenas o tempo,
que me olha.
Verdadeiramente vivos,
com a ciência certa
que lhes vem
da falsa imobilidade.
Aqui estou eu,
esperando
que a luz vos dissipe,
para me conter na memória
e entrar, cauteloso,
na vossa enigmática
pacificação.
Prometo-vos o silêncio,
o sangue do coração,
como um doce estremecimento.
Porque merecemos a morte.
Sem o freio do sonho.

(63:64)

24 comentários:

lobices disse...

...em primeiro, agradecer e retribuir a tua amável visita, também com um :)...em segundo, dizer que também recordo o Orlando Neves...

peciscas disse...

Pois é : quem faz falta é que vai embora.
Em compensação, há por aí tantos que bem poderiam ir andando...

contadordehistorias disse...

desconhecia, é uma pena.
Já agora quando vieres cá para o sul, diz qualquer coisa. beijos

lc707@mail.pt

TMara disse...

lobices - não tens nada a agradecer. Não por isso. Qnt ao Orlando, ainda agora partiu e já lhe sinto a falta.O país ficou + pobre.Fica a obra dele e a memória no coração dos k o conheceram e amaram.

TMara disse...

ajcm -:( infelizmente é verdade o k dizes.Os melhores partem. Deixam-nos, no entanto, + ricos.Bjs e ;)

TMara disse...

contador de histórias :) e coneces alguns dos trabalhos dele? Qnt ao aparecer qnd por aí for, farei o possível. Normalmente vou para estar com a tia, k já tem uma idade avançada e fico mtº com ela. Mas será um prazer reorganizar o calendário da deslocação.Bjs e :)

Blue C. disse...

TMara, bom dia!! tens uma resposta ao teu último comentário lá no meu Mar. Beijoca

TMara disse...

Blue C. _ és sempre bem vinda. Vou lá espreitar, mas sem ser pelo buraco da fechadura...Bjs e :)

jorgebond disse...

Encantador o poema ! :) Novidades também no sapo, ;) beijokas

TMara disse...

Jorge, pera aí! devagar c'o andor k não percebo. <<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<"novidades no sapo"? Onde, quais? Ilumina-me lá. Bjs e ;))

Mitsou disse...

O valor, o verdadeiro, não precisa de grandes holofotes. Impõe-se por si só e reconhece-se pelas homenagens amigas e sentidas como a que tu lhe fizeste, aqui.
um grande beijinho

jorgebond disse...

Querida amiga, :) era só para dizer que tinha lá um novo texto, ;) Mas também podes ver aqui no blogspot, :) beijokas

TMara disse...

Mitsou, tens razão, ele sabia-o, nós também. A perda é k, ao não serem divulados bons valores, ficam desconhecidos da maiora (menos atenta) e é toda essa gente k fica a perder.O k quer dizer a maioria do pa´si fica, de facto mais pobre. Bjs e :)

TMara disse...

Jorge ;) Ah, o "Ensaio para uma despedida", j´tinha lido. Pensei k fosse ainda outra coisa. Bjs ;)

eduardo disse...

"Não fui nem o nome do voo.
Valha-me ainda a dor da palavra
em cada manhã
na sombra do vazio
fluída tranquilidade.
Ah, o fundo silêncio das águas serenas,
o sopro dos mortos em sucessão.
Fui quem sou,
respiração de máscara,
pedra selada
ao muro do mar."

Orlando Neves - 1989

Gostei de o rever pela tua mão.

BlueShell disse...

Sim, vou andar por aqui. Penso que o meu pai gostaria. BS

TMara disse...

Eduardo - k bom teres vindo e tão bem acompanhado.Obrigada.Bjs marinhos k marinho é meu ser.

TMara disse...

BlueShell - obrigada por tudo. Continua porque todos continuamos. Num plano ou noutro, ainda k o sabermos (e acreditarmos) nem sempre alivie a dor. Bjs, molhinos deles, de flores do meu Alentejo, para enfeitares a tua alma :)

Anónimo disse...

Parabéns!! Pelo Blog e pelo poema desse grande Homem.

http://cem-ideias.blogspot.com

nuno

SalsolaKali disse...

Lamento.
Perdurará a palavra, essência do Homem de ontem e de amanhã, pela mão dos amigos e dos livros, nas estantes por esse pais fora.

TMara disse...

Nuno, obrigada pelas palavras e ela solidariedade. bem hajas. Bjs e ;)

TMara disse...

SalsolaKali - tens razão, perdurará,mas também dependerá de nós trazê-lo à luz, nm país onde a memória é curta e em k quem n/ pertence a grupos é atirado p/ o olvido. Bjs e :)

Menina_marota disse...

"...do amor, o imenso absoluto das palavras,
o transe lógico do sonho. Mas, bendita
será a tua boca no amainar das brisas,
na morte dos crepúsculos. Que jamais teu nome
em vão seja usado e que no teu novo canto
se antecipe o exercício das águas!
..." (Extracto do Poema "Regresso de Orfeu" de Orlando Neves.)

Lamentei e lamento a perda de um Homem que amava as palavras. Ainda não tinha lido nada sobre ele nos blogues por onde passo. Gostei muito de o ver referido aqui. Um abraço de amizade
http://eternamentemenina.blogs.sapo.pt/

TMara disse...

Menina MArota ;9 a deshoras, mas afinal a horas. K bom ters vindo. O Orlando iria gostar. Bjs e ;)