29 junho 2005

Estrada de luz

ESTRADA DE LUZ


É o pôr-do-sol.
Sentada num rochedo deixo o olhar embeber-se das cores do fim do dia, deixo a luminosidade residual, mas ainda forte, entrar-me pelos olhos iluminando-me por dentro.
Mergulho o olhar na estrada de luz que os últimos raios de sol abriram nas águas.


Lentamente desço do rochedo e coloco um pé naquela cintilante estrada.
Estranhamente, ou não, (para mim não) não o sinto molhado, tão só fresco, com um frescor líquido e suave. Tão pouco se afunda nas águas.

Sempre disso tive a percepção. De que se à hora certa e mágica do pôr-do-sol, nos lançássemos aquela estrada de luz a poderíamos percorrer sem nos afundarmos...
Mais afoitamente – às vezes acreditar não basta para erradicar todas as incertezas quando todas as vozes, em uníssono, nos dizem: Vais afundar-te! – lanço-me à estrada e entro pelo mar dentro, como que flutuando por sobre uma poalha dourada....

26 junho 2005

Este lento vaguear por vossas casas(...)

Este lento vaguear por vossas casas
(...) entrou na minha rotina e tenho saudades de vos visitar e ler.
Visitas umas vezes com tempo, ficando, degustando...Outras vezes mais rápidas só quase um: "olá! está tudo bem".
Continuo sem acesso à internet.
De momento estou em alheia casa e só por uns minutos para deixar um post e saudações.
Neste domingo ofereço-vos um belo poema de amor.

SONETO DO AMOR TOTAL

(Vinicius de Morais)

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


22 junho 2005

Estava....




ESTAVA....

Estava no alto das escadas, ia para mais de meia-hora, recebendo o sol da manhã, de frente e em pleno, por todo o corpo e semblante.
Os olhos semicerrados num deleite - alongado como as sombras - que se espelhava em todos os movimentos, gestos e atitudes.
Cá em baixo, na esplanada, lia, quando o descobri.

A sua forma de estar, todo o ar de puro contentamento que emanava, atraiu e fixaram a minha atenção quedando-se o livro relegado para o campo do esquecimento.

De vez em quando entreabria os olhos, mas não para olhar à sua volta. Tão só para os fixar no sol voltando a fechá-los, muito devagar e nunca na totalidade, como que saboreando invisíveis e deliciosas imagens.

Olhei, observando as pessoas nas restantes mesas.
Na esplanada só eu parecia atentar naquele ser em êxtase solar.
Eu, transformada em vouyeur, roubava, abusivamente, um pouco daquele gozo solar, do bem-estar que irradiava, e sentia-o espalhar-se-me pelo corpo ficando este também lasso e distendido como o do observado.
Ficando calma, duma serenidade total, como se o mundo e a vida não tivessem tempo, tempos, horários, problemas aguardando resolução....



20 junho 2005

Composição de português

Para quem goste de gramática da língua portuguesa...
Esta é uma redacção feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE
Universidade Federal de Pernambuco - Recife) e que obteve vitória num
concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática
Portuguesa.


"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam
no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns
anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido,
feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado
nominal.

Era ingénua, silábica, um pouco á tona, até ao contrário dele:
um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras
e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem
ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a insinuar-se,
a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado,
e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: óptimo, pensou o
substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador
recomeça a movimentar-se: só que em vez de descer, sobe e pára justamente
no andar do substantivo.


Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma
fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para
ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num
vocativo, quando ele começou outra vez a insinuar-se. Ela foi deixando, ele
foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um
imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo
directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário, e ele
sentindo seu ditongo crescente.Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula,
que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não
perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.
É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente
oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois géneros. Ela
totalmente voz passiva, ele voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e
substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa
próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objecto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular: ela era um
perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu
grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu
repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício.Ele tinha percebido tudo,
e entrou dando conjunções e adjectivos nos dois, que se encolheram
gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao
ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o
verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na
história.

Os dois olharam-se, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por
todo o edifício. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo:
era um superlativo absoluto.
Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele
predicativo do sujeito apontado para seus objectos. Foi chegando cada vez
mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo
claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as condições eram estas: enquanto
abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e
culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido
depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final
na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela
janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o
artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."

Post-scriptum: a todas e todos que me visitam e cujas casa visito, as minhas desculpas pela ausência mas estive 4 dias sem poder aceder à internet.Espero que a situação fique normalizada a partir de hoje .
Boa semana:)

17 junho 2005

O sorriso e O Sal da Língua

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O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu breve lume.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade




16 junho 2005

Ficou para trás


Ficou para trás,
a casa,
parte da vida.

A janela debruçada
na duna alta
espreitando o mar
em busca de um
amanhã mais largo.

O horizonte que se curva
Caindo, a pique,
Em pingos de cristal.


Ficou para trás,
a casa.
Passado sem retorno,
sem saudade.
Pela frente, sempre,
Nova caminhada.

Ficou para trás.
A casa.
A janela.
O mar.
A duna.
O vento.
A maresia.
As brumas....

Ficaram para trás.

Em si, consigo,
levou tudo
o que ficara. Para trás.


(Por:TMara)

14 junho 2005

Cunhal e Eugénio embelezam-nos o dia!

Cunhal e Eugénio embelezam-nos o dia!

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Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

13 junho 2005

De repente, acorda-se,

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De repente, acorda-se,
No meio da noite,
Com uma urgência
de coisas por dizer,
de coisas por fazer,
de pessoas por amar,
de estimar o amor
da vida, das coisas e das gentes.

Acordamos, de súbito,
no meio da noite.
Em sobressalto
porque despertamos
do pasmo com que,
em qualquer casa, um submerso
olho, de vidro, nos olha
com aquático e parado olhar.

Acorda-se, súbito,
no meio da noite,
dominados por um silêncio
tecido de milhares de ruídos
subterrâneos,
iluminados por um fio de luz
do candeeiro,
talvez
para nos encontrarmos,
a sós, connosco.


(Por TMara)

e hoje o país ficou + pobre!
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com o desaparecimento de duas incontornáveis vozes portuguesas, cada uma na sua área.
Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade resolveram partir na mesma madrugada de Junho.
Façamos silêncio para os continuarmos a ouvir.
Talvez conversem agora sentados numa estrela.

11 junho 2005

Celestino Fradique Brocks - um cidadão exemplar!

CELESTINO FRADIQUE BROCKS, um cidadão exemplar!

Toda a minha vida está bem organizada.
Como engrenagem bem oleada, o dia a dia flúi. Nada é deixado ao acaso.
Sou dono dos meus dias e de minha vida em cada momento. Nunca qualquer aspecto desta me surpreende, me deixa expectante ou frustrado. Até de minhas emoções estou no comando.
Sou senhor absoluto do meu tempo e da vida.
Chamo-me Celestino Fradique Brocks, tenho quarenta e dois anos e sou economista de profissão.
Solteiro militante. As mulheres entram e saem de minha vida quando necessário, quando determino. Sem lhes dar tempo a que se tornem fastidiosas e dominadoras como é de natureza nos seres frágeis e inseguros.
Tenho familiares mas vivemos de forma muito autónoma.
Como não admito ingerências as nossas relações atém-se ao socialmente correcto entre pessoas com vínculos semelhantes aos nossos.

Sempre soube interpretar bem os usos e costumes, o socialmente correcto, e viver dentro destas normas, até porque o seu uso e manutenção acaba por proteger o meu estilo e modo de vida, dando-me a quietude que desejo.

No emprego dou-me com todos os colegas, mas evito o contacto estrito e pessoal fora deste espaço.
Participo em todos os jantares e festividades da empresa, sempre entro na recolha de fundos para aquisição de prendinhas: quando nasce uma criança, alguém se reforma ou muda de emprego e até nas situações de morte sou correcto mesmo que nada de particular me ligasse aos finados. A minha coroa de flores, acompanhada de um bom cartão, nunca falta.

Nos convívios tenho sempre um stock novo de uma dúzia de anedotas e assim surjo como um dos grandes animadores; preparo-me, é óbvio, para tais eventos, chegando ao extremo (para alguns) de memorizar umas quantas citações de gente ilustre adaptadas a cada uma das ocasiões.
Tenho assim fama de sociável e bom companheiro, bem disposto e inteligente.

Os meus dias, a minha vida, obedece a rotinas pré-definidas, em função dos objectivos que procuro alcançar. Guio-me sempre pelo princípio organizativo de “trabalhar por objectivos”.

Por TMara

10 junho 2005

No início o silêncio

Hoje quero partilhar com todos os que por aqui passarem, não só com os que abriram os comentários do passado dia 08, um belo texto que Batista Filho teve a gentileza de nos ofertar.
Agradece-me ele o post desse dia desta magnífica forma:

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«(...)tocaste num assunto, que desde há muito me intriga e fascina.
Continua lá, no Evangelho de João: “No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”.
Quando dizes que ficavas/ficas encantada com essa
primeira frase, que te parecia/parece “... uma fórmula ritual mágica”,
lembro de uma tentativa de externar o que me vem do mais íntimo,
sobre tal assunto:

No início, o silêncio,
um imenso vazio, sem poesia.

Sentia falta... só não sabia do quê, ou de quem.
Como menino perdido, sem pai nem mãe, gritou sua solidão.

O som da própria voz o deixou confuso, pois o eco não o satisfez.
Na sua oficina tratou de modelar o mundo: céu e terra, inda um grande vazio.

Em meio à escuridão, chorou... e suas lágrimas inundaram a terra.
Cego de dor, implorou a si mesmo: – luz! por favor, preciso de luz.

Nesse instante de êxtase, pura magia, nasceu a primeira alvorada,
da primeira manhã, do primeiro dia, após a noite, que parecia não ter fim.

E no silêncio da manhã recém-nascida nasceu o primeiro verso do poema, que perdura até os dias de hoje. (...)»


Sou eu quem, hoje, assim lhe agradece.

09 junho 2005

A mudança de mentalidades: devagar vai" esperamos é que...desta vá!

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A MUDANÇA DE MENTALIDADES: devagar vai! Esperamos é que...desta, vá!

De acordo com o D.N de 8 de Junho de 2005 (20) são os seguintes os números referentes à violência doméstica (fenómeno social transversal a toda a sociedade portuguesa):
• + 85% das vítimas são mulheres, maioritariamente entre os [18-36] ;
• em + de 90% dos casos o agressor é do género masculino – marido; companheiro; ex-companheiro (lembremo-nos que sempre que este tipo de violência é exercida sobre as mulheres, as crianças desses agregados são, de forma directa ou indirecta, vítimas da mesma);
• nº de óbitos (mulheres) por violência doméstica, entre Janeiro e Novembro de 2004 – 47;
• é de 20 MIL o nº de queixas e pedidos de ajuda, às diferentes ONG’s, na sequência de surtos de violência doméstica;
• 64% do total das queixas reportam à violência psíquica e 31% aos maus-tratos físicos;
• a violência doméstica exercida sobre os homens e idosos têm vindo, a tomar visibilidade.


Estes dados foram divulgados na sequência do Seminário sobre o Tráfico de Mulheres e a Prostituição, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, promovido pela Embaixada da Suécia, Instituto Sueco de Estocolmo e CIDM.
De destacar que a legislação sueca define, desde 1999, a prostituição: “como uma forma de violência masculina contra mulheres e crianças” punindo tanto o proxeneta como o cliente.

Os números das Nações Unidas, sobre tráfico de pessoas e prostituição, apontam para números como 4 milhões/ano de pessoas do sexo feminino, vítimas de tráfico.
A organização Internacional para as Migrações prevê que, pelo menos, 500 Mil mulheres sejam vendidas/ano nos mercados de prostituição da Europa (Portugal incluído).

A Assembleia da República – Comissão Parlamentar da Saúde -avança com estudo sobre a realidade do Aborto em Portugal.


Um conjunto de “SES”:
Realizado este estudo, amplamente divulgados os seus resultados, cruzando-se estes com os números referentes à violência doméstica exercida sobre as mulheres, o país terá dados para um debate sério e ponderada reflexão que evitem mais uma vez o “enterrar da cabeça na areia” quando chegar a hora do debate e votação referendária sobre o aborto.

08 junho 2005

Esta é a minha fala

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(Por: Layachi Hamidouche)

ESTA É A MINHA FALA

Esta é a minha fala, sou eu que falo, esta é a voz que ouço e que me diz de mim. Quem sou, do que gosto, o que sonho, o que me magoa. Esta é a voz que me fala da que sou, para além da visão que os outros de mim têm.

A voz que me fala de um secreto eu, meu e simultaneamente eu, somente por mim conhecido porque a voz me fala, e falando me constrói.
Lembro-me de a minha mãe ler, num livro bonito e ao mesmo tempo assustador, por todos os espantos que narrava: “
No princípio era o Verbo.”

E, como esta frase sempre me encantou, parecendo-me uma fórmula ritual e mágica, um dia perguntei: “Mãe, o que quer dizer: “no início era o Verbo?””

Respondeu-me ela que se referia ao começo do mundo e da vida e que nesse começo verbo queria dizer a palavra, que era o que então tinha o poder de fazer as coisas acontecerem (como o mágico fazia no circo, pensei eu, e guardei esta ideia de belo e mágico através do poder da palavra e foi por isso que quando comecei a ouvir a voz, na minha cabeça, a ter longas conversas comigo não o disse a ninguém, guardei o segredo e a voz só para mim com medo de que o encantamento, sendo revelado, se quebrasse e eu deixasse de ser real.
Teria eu os meus nove anos quando a voz me falou e nunca mais deixou de o fazer).

Duvidam?
A minha avó Deolinda, mãe da minha mãe, contava-me muitas histórias do tempo das princesas, em que as fadas e as bruxas faziam acontecer coisas estranhas. Bem mais estranhas do que eu desaparecer se contasse aos outros a existência da voz e de a minha vida depender de continuar ela a falar comigo assim me dando consistência, existência.
(excerto de conto, por TMara)

07 junho 2005

Há tubarões em todos os paraísos.

HÁ TUBARÕES EM TODOS OS PARAÍSOS!

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Se os tubarões fossem homens (por Bertold Brecht)

«Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens,construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que asgaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas.

Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabordo que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua saúde assegurando se estudassem docilmente.

Acima de tudo, os peixinhosdeveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos,proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si.

Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles,naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões.

E amúsica seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos,como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer.

E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias,construtores de gaiolas, etc.Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.»

05 junho 2005

E...a W nada de novo!

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(foto de Misha Gordin)
{Em minha opinião retrato do cidadão português!}


E...a W nada de novo!

Não vou dizer nada de... novo.
Já leram sobre esta matérias nos meios de comunicação, mas sinto necessidade de falar sobre os assuntos.

1. A Eurostat divulgou novos dados sobre o desenvolvimento dos países:
Ficámos com a confirmação do que o cidadão comum já há muito sabia (e sentia) do poder de compra, bem como sobre a lógica empresarial da maioria dos nossos empresários... entre outras coisas.
Portugal só perdeu o último lugar de país mais pobre porque com o alargamento da União Europeia vários países da antiga união soviética entraram na corrida (lá nos falhou o podium mais uma vez!).
Ficámos em 17º lugar na classificação de riqueza por habitante/2004, ultrapassados por Chipre e pela Eslovénia.

2. Ainda assim o senhor ministro da economia, Dr. Manuel Pinho, apela às famílias para que “contenham o consumo”!

Penso que, como o burro do inglês só temos um caminho: aprender a viver sem comer.
Vejamos o que NÃO podemos dispensar: temos que no vestir e calçar senão prendem-nos; temos que usar meios de transporte para ir trabalhar; temos que ir aos médicos e comprar medicação para podermos ir trabalhar (se adoecemos lá se vão dias de férias e otras cositas mas...); temos que educar os filhos para que possam, mais tarde, ir trabalhar e fazer rico este pobre país que tanto se tem esforçado por nós e por eles!
Ah, e para que nos possam pagar as reformasitas. Já agora..!
Temos que pagar as casas, água e luz, para podermos continuar na união europeia – onde se viu um país de sem-abrigo integrar tão prestigiada e desenvolvida comunidade?


Há quem afirme não comer há décadas, alimentando-se do sol, só temos que aprender. Por acréscimo ainda poupamos nas contas do detergente e da água, da louça inclusive.

Creio que não vale a pena continuar! A amostra é elucidativa.

3. Instala-se a confusão a propósito da Constituição europeia e dos 2 “não” e do referendo, nas hostes portuguesas.

Debates? não houve! Haverá?
Associa-se o elevado custo de vida ao euro. Os políticos estão mais descrebilizados do que... (o que é que não tem crédito nenhum????)! A tendência é para dizer não ao desconhecido, para mais quando associado a dificuldades de vida cada vez maiores.

Por razões que nada têm a ver com estas, nem com o interesse dos portugueses e o exercício da sua cidadania, vemos políticos como Cavaco Silva (candidato às presidenciais), contra o referendo. Não admira! Sempre defendeu a ractificação parlamentar!

Sabem, tenho saudades da voz e das análises sensatas e humanistas de Maria de Lourdes Pintassilgo!

04 junho 2005

O bater das pálpebras dos amantes


O BATER DAS PÁLPEBRAS DOS AMANTES


Hoje amanheci leve. Mais leve do que o costume.
Um ar fresco corre a madrugada abrindo as portas ao dia e à vida.

Para além da idade o que me habita é uma alegria solta que quase me levita.
Quereria ir para os balouços e balouçar até não o desejar mais.
Infelizmente tal está-me vedado. Não há balouços para adultos! Onde já se viu?!

Balouçar até tocar as copas das árvores com as pontas dos pés, até sentir os ramos mais longos acariciarem-me o rosto.
Balouçar cada vez mais alto aproveitando todo o braço do balouço, acreditando que um dia tocarei uma nuvem...


Sentir a brisa perfumada do jardim entrar-me pelas narinas e correr solta pelo corpo, perfumando-o de flores e seiva, com a vitalidade de um leve odor marinho.



Esta brisa mansa. Fresca. Docemente perfumada.
Esta brisa que apareceu um dia no mundo desencadeada pela doce batida das pálpebras dos amantes ao despertarem.


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Esta brisa que nos traz preciosas vagas de bem-estar, alegria e contentamento sem explicação.
Porque nenhum destes estados de espírito: alegria ou contentamento alguma vez necessitou explicação. Chega, instala-se e é sempre bem-vindo.

(Por TMara)

02 junho 2005

Umas gotas de sangue por uma vida!


UMAS GOTAS DE SANGUE POR UMA VIDA!
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(Foto:Rui Evaristo)
Sangue [B Rh -] (precisa-se urgente)
"Por motivo de doença grave, um amigo está hospitalizado à espera de ser operado.
Ainda não o foi porque tem um sangue raro (B Rh -).
Pede-se a quem tenha este tipo de sangue que contacte com urgência: Luís de Carvalho - 931085403, ou Pedro Leal Ribeiro - 222041893 - Fax: 222059125.
Se não puderes doar, por favor, divulga".
Obrigada.
Mais informações
: emiranda@mail.telepac.pt

Este pedido chegou via Eduardo do
BLOGUICES
pode ainda encontrar-se em: http://solidariedadeblog.blogspot.com/
e
XXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
AVISO AOS AMANTES DA LEITURA

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(Foto: António Manuel Pinto Silva)
Ãmanha, sábado 04, pelas 16H00, o escritor António Rebordão Navarro estará na Feira do Livro do Porto, no stand da Editora Campo das Letras.
Até lá.....

Porquê?

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PORQUÊ?



Sentia a alma amarrotada. Como frágil coisa quebrada, papel tantas vezes dobrado e desdobrado, encarquilhado em tensas mãos e novamente alisado só para voltar a sofrer a pressão imensa da mão potente que o reduzia a nada para, com carinho e avidez, o desdobrar, o alisar de novo e voltar a amarfanhar entre os potentes dedos.

Assim sentia a alma.
Cheia de dobras e pregas. De marcas quase atingindo a ruptura, fragilizadas por estas tensões de loucura, estas forças que o dilaceravam, joguete de si próprio e dos outros.
Sabia que só dele dependia mudar o que sentia, mudar esta dor, esta forma de viver sempre no limiar da destruição. Da auto-destruição, disse de si para si.

Tempo houve em que pensou depender a sua vida dos outros. Porquê continuar a iludir-se? Porquê pensar, falar, de forma abstracta, dizer
“outros”, se em verdade era a Maria Lúcia que se referia. Aliás que tudo nele se referia. Pensava, sentia, respirava, ansiava por ela.

Maria Lúcia!

Disse o nome devagar enrolando as sílabas com a língua, saboreando-as, como que sentindo o fresco perfume da carne dela na sua boca. E se o prazer o invadiu por breves segundos a dor foi lancinante e continuada sentindo a alma rasgar-se num crepitar de frágil papel queimado.

Qual o sentido, o objectivo de assim se martirizar?
Maria Lúcia partira. Dera novo rumo à vida e nunca, mas nunca fora desleal com ele. De onde lhe vinha esta angústia, esta dependência total que o anulava, o desfazia vezes sem conta, deixando-o, a cada dia, mais desligado do mundo, das pessoas, da vida, porque alienado na sua obsessão?

Por vezes, um assomo de lucidez apanhava-o desprevenido e ouvia dentro de si uma voz (a sua) que lhe dizia:
“Vá lá, foi bom enquanto durou! Acabou! Há anos que acabou, que ela partiu, que a não vês..., o que pretendes fazer a ti mesmo?”
Mas estes momentos eram fugazes pois logo lhes impunha a sua obsessão por Maria Lúcia como se não pudesse respirar sem ela – o que era mentira, pois há vinte e dois anos que partira e se ele deixasse de respirar teia morrido na hora – o que não era o caso pois bem sentia a caixa torácica subir e descer, enchendo-se de ar e expelindo-o. Nem deixara de dormir, fora algumas insónias, mas estas sempre o acompanharam desde a adolescência.

Parecia comprazer-se no auto-sofrimento infligido.
Questionava-se: “
porquê”, mas logo cortava este fio de raciocínio para voltar ao sofrimento.

Encontrara a sua forma de felicidade miserável e nela se comprazia destruindo-se.



(Por TMara)

01 junho 2005

As crianças

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA....
Uma criança feliz! A minha neta Inês.

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Sorrisos do mundo

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Todas as crianças nascem livres e despreocupadas. Desconhecem o mal do mundo.
Em tudo dependem dos adultos, normalmente os progenitores, para os cuidarem e proteger de todos os males, perigos e riscos.
Por natureza todas as crianças deviam ser felizes (a leveza e a alegria pura são natureza da infância, tal como a entendemos e....desejamos ).
Quem age contra ela comete um dos piores crimes à face da humanidade!

A criança, mais do que qualquer outro ser, vive a dor em solidão e desepero!
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Em 20 de Novembro de 1989, a assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a
a qual, no ano seguinte, foi oficializada como lei internacional.

O fosso entre as intenções e as práticas, mesmo nos países mais ricos e que se reclamam avançados, continua assustador como tem vindo a lume com frequência cada vez maior.

URGE

que olhemos pelas nossas crianças, o que quer dizer pelas crianças em todo o mundo.

De cada um de nós espera-se uma maior atenção e vigilância ao que se passa ao nosso redor no que concerne ao tratamento dado às crianças, à protecção parental, escolar e estatal (nos diversos níveis) e um maior rigor e capacidade de exigência nos mecanismos de protecção à infância, apoio institucional de qualidade substitutivo dos pais nos horários de trabalho; melhoria de todos os equipamentos e políticas de protecção social (quer as directamente vocacionadas para a infância quer as de suporte aos pais - saúde; trabalho; cargas laborais; etc) ,escolaridade desde a pré-primária, leis de protecção das crianças em risco e mecanismos institucionais que funcionem, o mesmo se aplicando aos tribunais de menores,etc.

A UNICEF merece o nosso apoio pelo excelente trabalho que vem desenvolvendo. Apoiemo-la também!

Para além das aqui referidas outras instituições há com meritorio trabalho. Se queres ser solidário/a com futuras mães e seus bebés vê em

Ser Humano

o post sobre

My Baby



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Mas não esqueçamos que são aos milhões as crianças que, diariamente, sofrem em todo o mundo e não contam um único dia bom nas suas curtas vidas.

Ergamos as nossas vozes exigindo mudanças - fim das guerras, entre outras coisas - e sejamos atentos, cooperantes e solidários, como se cada criança fosse a NOSSA! Porque moralmente o é!