14 maio 2005

O saloio em Lisboa

Este texto foi-me oferecido por um amigo.
Fazia parte de uma revista nos idos de 40...
Bom fim-de-semana, com um belo sorriso :)



O SALOIO EM LISBOA


Ena! O que aqui vai de gente!
Z’oira viva a sociedade!
S’o meu olho num me mente
Isto aqui tudo é decente...
...Inté qu’estou à vontade.

(Senta-se, mas levanta-se logo)

Saibam antão Vossorias
Qu’há três dias que m’acho cá na cidade
--na Lisboa...
Tenho palavras singelas
--Quer dezer: ê cá num sê mintir.
A cedade tem “àquelas”
Qu’ê nen as sê construir!

Em certas ruas estrêtas
Volta e meia –é p’ra cismar...
Num vejo sanan sujêtas
Sempre a rir, munto instifêtas...
Todas por mim a chamar! (Bairro Alto)

Indas há pouco chiguê
--Transdantonte—está sabido.
E palavra, nam cuidê
Qu’ era cá tam conhecido !!

Onte fui vê-lo Caimões.
Bem pracido nas fêções
Qu’ê já vi o sê retrato.
Só tem um defêto intêro:
O Caimões era triguêro
Ma nanja assim tan mulato!

Em baixo no Cais Sidré
Vi outra estátula im pé
C’um botas de embarcadiço.
E indas oitra cum bandêra
Tamem da cor da primêra
San negras como um chamiço!
Num percebo estes precêtos,
Num percebo estas históiras
Fazer tanta guerra aos pretos
E prantá-los nas mimoiras!
Vai ospois fui à prescura
Do tal “amor” do Frontão (Município)
Vem a ser uma figura
P’los modos de pedra dura
Vestida ...de Pai Adão!
Dizem qu’aquele diacho
Muita decência num tem.
Ê num sê, mas cá debaixo
Num se vê lá munto bem!

Vai ospois fui àquela...
Nem me pode alembrar o nome dela!
Ah!... À cozinha inconómica, atinê!
Inté uma cachopa toda bela
É que me encaminhou. E é que gostê!
--Com 4 vintens somentes
Fiquê que nem um abade...
Sopas cum pão—incelentes...—
Pão sem sopas, feijão frade...
Lá o vinho é que era pôco...
Mas fiquê todo bacôco
P’rás irmãs da Caredade!!

Oitra aquela, mês Senhores:
Fui vê-los alvadores.
Vão p’ra baixo. Vão p’ra riba,
Às claras, mai-lás escuras...
Mas num vi cavalgaduras ,
Parece coisa do diacho.
E s’aquilo, de repente,
Quebra tudo e tudo cai?
Pode ir neles toda a gente
Nanja o filho de mê Pai...
...lá ser tolo, isso está quente!

Mais fui vê-lo o Alifante
Que tamem é interessante
C’aquela tromba d’estalo...
Z’oira quando eu estava a ver
Toda aquela bicharia,
Veio uma coisa a correr
C’umas vozes de pipia e
Zás—botou-me por terra.
Fiqu~e que nem um cação.
Ó Senhores eu fui à Serra,
Ma nam le pude ter mão

Era um diabo dum animalejo (Bicicleta)
Em riba d’um moinho
Ou que raio é...
A dá-las pernas como um caranguejo
E Zás, catrapáz...
Passou-me o pé!!!
Aquilo foi de carrêra
Parecia que ia a voar!
Assim daquela manêra
Quem no habera d’ agarrar?
Alimpê-ma da poêra
E prantei-me a passear!

P’r’áli estive a ver navios
Talvez maia hora à justa.
Ospois fui ver os fêtios
Do Arco da Rua Augusta!

É obra asseada, bonita!
Cum sê relojo catita
Lá mêmo no meio do centro.
Ma-lo que é munto esquesit
É qu?o relojo maldito
Dá só horas lá pra dentro!

É assim mal acomparado
Como o bandulho da gente...
Sim, quando está esfomeado
Dá horas com’um danado,
E cá fora num se sente!

Dênos que prantê o pé
Nesta esquesita cedade
Somente um “legalé” me enganou
--Lá isso é verdade.
Fez tanta choradêra o menino,
Aquele grandecíssimo intrujão,
Qu’ê tive dó dele até perdê-lo tino
E dê-le seis mel reis por um cordão
--Qu’ele dezia que era d’oiro fino!
--Fino e bem fino foi o malandrão!

Em vistas disto fui fazer quêcha à Polícia...
E é que fui que nem um raio.
Mas disse-me lá um “litarado”
--Vuncê queria ouro de lê
Por dê reis de mel coado?
Vá-s’embora, qu’é bem fêto.
E aguentei-me no baloiço
Quando não via-le gêtos
D’ir bala-lo ó Calaboiço...

E agora, com respêto ós Senhores,
S’ê disse alguma mal dita
Só peço escurpa da dita
E agardeço os sês favores.
S’ê prestar p’r’alguma coisa
Amanhem ou p’ró futuro...
Bonda prescurar em Loisa
O Manel Mendes Maduro !.

12 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida TMara
:)
Um beijo
Daniel

Lana disse...

:) tb vim deixar um jinho ^_^ ****

Charlotte disse...

Bom eu deixo desejos de um bom fim de semana:)*
Bejitos.

agua_quente disse...

Que delícia! :) Um bom fim de semana para ti e muitos sorrisos. Beijos

Fabi disse...

Amiga
roubei um texto seu e publiquei na no blog, ok?

beijos,
Bom fim de semana..

Menina_marota disse...

Uma delícia de ler, este texto...

"Dênos que prantê o pé
Nesta esquesita cedade
Somente um “legalé” me enganou
--Lá isso é verdade.
Fez tanta choradêra o menino,
Aquele grandecíssimo intrujão,
Qu’ê tive dó dele até perdê-lo tino
E dê-le seis mel reis por um cordão
--Qu’ele dezia que era d’oiro fino!
--Fino e bem fino foi o malandrão!"

eheheh O conto do vigário vem de longe...

eheheh

Abraço e um sorriso grande :-)

Marco António disse...

Adoreiiiiiiiiiiiiii.....
É d++++++++++
Bjo,

Humberto disse...

Eu sou algarvio, e dizem que os algarvios pronunciam mal as palavras, mas desconhecia que os saloios ainda são bem piores do que nós para falar a lingua que Deus nos deu. É sem dúvida um texto interessante de seguir pelo humor e a boa disposição que desperta pela ignorância e santa ingenuidade de um homem que nunca tinha visto na vida dele algo parecido com uma grande cidade. Porém, tambem existem muitos saloios por aí de fato e gravata, sem a mínima regra de educação. Este é um espaço acolhedor e cativante que eu espero poder voltar a visitar sempre. Felicidades.

O Micróbio disse...

Mas que bela descrição de Lisboa e nalguns aspectos bem real...

Vera Cymbron disse...

Gostei...Lisboa no seu melhor..
Jinhos

mfc disse...

Um poeta Aleixo citadino!

H. disse...

Lol

o que eu acho giro é cm é q alguém teve o talento (sim, talento, sem a menor ironia) de conseguir escrever com esta linguagem um poema inteiro... ;º)