16 novembro 2004

DESPERTAR

(3º E ÚLTIMA PARTE)
Apesar da chuva, ou talvez ainda mais por isso, era tão estranha a situação daquela mulher, sentada nua, no meio do jardim, abraçada aos joelhos a chorar convulsivamente, sem que o rosto se alterasse, que as pessoas começaram a parar e a interrrogar-se sobre o que haviam de fazer.
Foram fazendo uma roda à volta da mulher mas ela de nada se apercebia.
No corpo nu a água deslizava.
Os passantes, vestidos, estavam a ficar ensopados, mas a situação tão estranha da mulher ali sentada, nua, abraçada aos joelhos, chorando com convulsões que lhe arrancavam sons de dentro do peito enquanto o rosto não dava outros sinais de vida a não ser o rolar constante, contínuo, de lágrimas competindo com a chuva...., misturando-se com esta, mantinha-os fascinados.
Falavam uns com os outros sem saber o que fazer. Tapá-la talvez? Chamar o 115*? Alguém a conhecia?...?
A mulher sentiu o corpo abrir-se-lhe e o sémen escorrer por ele. Abundante e quente, como se acabasse de ter o orgasmo.
Deixou-o sair. Infiltrar-se na terra. Para isso ali fora. Para a fecundar .
Saiu um jorro. A mulher parou de chorar. Parou a chuva.
As nuvens voaram, céleres, abrindo clareiras de azul e o sol incidiu sobre o corpo nu da mulher que continuava impassível com um imperceptível sorriso no rosto.
Os caminhantes apressados que haviam parado, intrigados ou preocupados talvez, acharam que era melhor dispersar, já que a mulher nua continuava calma como se estivesse sozinha no mundo.
Abalaram.
E ela ficou.
Sozinha no mundo. Fecundadas.
A terra e ela.
Yin Yang
*N.B - QUANDO FOI ESCRITO AINDA VIGORAVA O Nº 115 PARA AS EMERGÊNCIAS.
(Do livro: FALAR MULHER)





2 comentários:

Anónimo disse...

Viva TMara. Li o DESPERTAR todinho. Lindpo.`´E lindo. Obrigada por o partilhares conosco.
vejo que tens poucos posts o que me entristece pois as tuas coisas são bonitas.Beijo Manuela

TMara disse...

Olá Manuela. Obrigada pela visita e comentários. Bj ;))