20 outubro 2005

Nostalgia (parte I)


Hoje, ao passear na marginal, encontrei Maria Clara.
Não nos víamos há uns dez anos. Razões profissionais levaram cada uma de nós para seu lado.
Mantivemos contacto esporádico, mas regular, nas datas que nos eram significativas.
Agora ela estava de volta a Portugal. Reformara-se e decidira regressar.
Ainda me não telefonara pelo que foi acidentalmente que nos encontrámos. Ou talvez não...
Continuámos a caminhar juntas e depois de arrumadas as novidades ficámos em silêncio.
Assim caminhámos até que decidimos sentar numa esplanada e beber algo.

O dia escurecia. A manhã, que nascera luminosa, apresentava-se agora carregada com raras nuvens pesadas, grávidas da desejada chuva.

Depois de bebermos o café e enquanto acendia um cigarro, Maria Clara começou a falar num tom baixo, intimista.
- Sabes, disse-me ela, quando deambulo pela cidade vejo-os. Os pares de enamorados. Constato (nota que é uma observação empírica que vale o que vale) que são menos do que há uns anos atrás. Procuro razões e concluo que uma das mais importantes, senão a mais importante, será a liberdade sexual entre os jovens, consentida muitas vezes nas próprias casas, bem como a existência de múltiplos locais de recriação e convívio na noite permitindo dar vazão às pulsões da libido de uma forma inimaginável na nossa juventude...

Concordei, acrescentando não necessitarmos recuar tantos anos. Percebi que me ouvira mas o fio do raciocínio impunha-se-lhe:
-
Estarão mais realizados e as expressões exteriores e públicas de ternura, enamoramento e paixão, ficam assim mais diluídas porque expressas no resguardo dos seus próprios espaços?
Ou, haverá mais sexo e menos romantismo?
Francamente não sei e espero que a resposta esteja por aqui, na primeira hipótese! O facto é que quando vejo um par enamorado trocando olhares, partilhando falas e silêncios, nelas e neles se envolvendo, criando um espaço único, bolha de paz plena de amor, sorrio. De puro deleite.

Olhou-me com um sorriso aberto e cúmplice. Ambas sorrimos, e ela continuou:
-
Não me lembro de ficar nostálgica.
Mas fiquei-o hoje ao ler um pequeno texto sobre um casal que se olhava e tocava com subtis gestos eivados de ternura, com ternura tecidos.

Senti uma infinita saudade, espiritual e física. Chegou a doer!
De tal forma me doeu que em mim se instalou e ficou!


(continua)

12 comentários:

Raquel V. disse...

Gostei muito de te ler... é verdade... Claro q essa recordação para mim n é tão doce, alguém na minha vida passava o tempo a rabujar sobre a indecência desses casais.

E talvez exista a outra resposta, mais dura, não se namora assim... já não há carinho... este anda a morrer.
Talvez seja isso, o sexo passou a ser sexo e o carinho passou a ser demonstrado apenas aí... como se isso bastasse...


Beijão

Manoel Carlos disse...

Ao menos no Brasil, há uma perda de valores assustadora, contudo, neste aspecto, creio que, de forma benéfica, a repressão sexual cedeu lugar à tolerância, ou mesmo à compreensão.
No mais, a falta de romantismo, por exemplo, pode ser associada à pressa, à falta de paciência no cultivo dos pequenos e grandes prazeres; vivemos o tempo de prato-feito, comida-a-peso e comunicação instantânea... há bônus e ônus...

Nilson Barcelli disse...

Provavelmente a observação é certa e até pertinente.
Gostei do teu texto e fico à espera da continuação. E curiosso porque este parece definitivo e não continuável...
Beijinhos

Daniel Aladiah disse...

Querida TMara
Felizmente, ainda há quem goste de namorar...
Um beijo
Daniel

mfc disse...

O relacionamento amoroso mudou muito nos últimos anos. Hoje em dia perdeu-se um pouco daquela aura do enamoramento, porque tudo é mais fácil...
Sinceramente não sei o que é melhor!
Há prós e contras...

meialua disse...

Acho que infelizmente houve muitas coisas que se perderam... hoje em dia temos mais liberdade, mas é muito mais dificil encontrar um amor puro e doce e que dê atencao a esses pequenos gestos de carinho ternura e atencao em publico.

Beijos

maresia_mar disse...

cada tempo e cada idade tem a sua beleza... eu recordo com alegria os meus tempos de namoro, mas com saudade não, ao fim de 21 anos de casamento eu continuo a namorar, quem me conhece sabe que assim é, mão me impeço de ter actos de carinho em público. tenho também um filho de quase 18 e não acho que ele não tenha romantismo, talves o mostre de forma diferente do pai, mas está lá... Gostei de a ler, aguardo a continuação. Bjhs

Mendes Ferreira disse...

namorar enamorar=viver reviver...bjs...
P.S. O erato ainda não acabou,mas quase....e estou em "arcadeti.blogspot.com"...tb. à tua espera....se quizeres espreitar claro...boa noite ternura.

Eva Lima disse...

O que move o mundo é o amor (não a economia) e/ou a falta dele.

Não creio que o enamoramento seja muito diferente.
Fico à espera da continuação.

Maria do Céu Costa disse...

Promete este texto "Nostalgia", voltarei para ler a próxima parte. Beijinhos.

batista filho disse...

TMara: grato pela partilha. Adorei, amiga! Um beijo.
(Conheço o sentimento...)

singularidade disse...

Li os dois capitulos sobre nostalgia, adorei simplesmente belo e cativante. Aguardo o próximo.
No meu blog também encontras um conto que estou a postar um capitulo todas as semanas.
Virtual Realidade.

Um beijo meu