08 junho 2005

Esta é a minha fala

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(Por: Layachi Hamidouche)

ESTA É A MINHA FALA

Esta é a minha fala, sou eu que falo, esta é a voz que ouço e que me diz de mim. Quem sou, do que gosto, o que sonho, o que me magoa. Esta é a voz que me fala da que sou, para além da visão que os outros de mim têm.

A voz que me fala de um secreto eu, meu e simultaneamente eu, somente por mim conhecido porque a voz me fala, e falando me constrói.
Lembro-me de a minha mãe ler, num livro bonito e ao mesmo tempo assustador, por todos os espantos que narrava: “
No princípio era o Verbo.”

E, como esta frase sempre me encantou, parecendo-me uma fórmula ritual e mágica, um dia perguntei: “Mãe, o que quer dizer: “no início era o Verbo?””

Respondeu-me ela que se referia ao começo do mundo e da vida e que nesse começo verbo queria dizer a palavra, que era o que então tinha o poder de fazer as coisas acontecerem (como o mágico fazia no circo, pensei eu, e guardei esta ideia de belo e mágico através do poder da palavra e foi por isso que quando comecei a ouvir a voz, na minha cabeça, a ter longas conversas comigo não o disse a ninguém, guardei o segredo e a voz só para mim com medo de que o encantamento, sendo revelado, se quebrasse e eu deixasse de ser real.
Teria eu os meus nove anos quando a voz me falou e nunca mais deixou de o fazer).

Duvidam?
A minha avó Deolinda, mãe da minha mãe, contava-me muitas histórias do tempo das princesas, em que as fadas e as bruxas faziam acontecer coisas estranhas. Bem mais estranhas do que eu desaparecer se contasse aos outros a existência da voz e de a minha vida depender de continuar ela a falar comigo assim me dando consistência, existência.
(excerto de conto, por TMara)

16 comentários:

Carla disse...

Que excerto encantador, TMara :) Eu também acredito em segredos desses. Espero que coloques o conto todo. Um beijo enorme :)

sylpha disse...

Como eu adorei escutar esta voz. A imagem é encantadora. Venha daí o resto do conto ;) Beijinhos :))

Mendes Ferreira disse...

bom e depois de ler "isto", perco as palavras.....e obrigada. por tudo. bjo.

Micas disse...

Que lindo TMara, que nunca percas essa voz e, espero que nos ofereças um pouco mais...grata pela partilha. Beijinhos

Eva Lima disse...

Espero que queiras partilhar o resto do conto connosco.
bjinho

Amaral disse...

Não me parece um conto. Parece-me antes um desabafo, uma partilha de coisas boas e encantadoras. Partilhar faz tão bem que une pessoas e sentimentos. E desperta-nos também!

mfc disse...

Que bonito podermos pensar e termos voz para expressar esse pensamento!

Nilson Barcelli disse...

A julgar pelo excerto o conto promete.
Gostei desta parte, que é como que uma preparação para o que se segue (é isso?).
Fico à espera de mais.
Beijo***

Mitsou disse...

Pois claro, agora ficamos à espera do resto. Adorei, linda. Beijinhos de luz no eco dessa tua voz serena.

Blue C. disse...

Muito bonito. Ás vezes tbm oiço vozes, mas não digas a ninguém ;-) (P.S. Tens uma resposta ao teu último comentário no meu Mar). beijinho meigo

Charlotte disse...

Lindo!! Escuta sempre essa voz... ela te guiará:)
Beijinhossss

eduardo disse...

Tal como outras crianças já grandinhas que conheço, também tu, TMara, guardas papelinhos mágicos onde escrevias coisas assim.
Vai lá ao fundo da gaveta buscar mais, s.f.f..

meialua disse...

Um excerto muito bonito...
Ouve sempre essa voz...
Deixa q fale ao coração...
Beijinhos e bom fim de semana*

Ana disse...

Obrigada por nos deixares ouvir a tua fala.

batista filho disse...

Interessante, com grande mestria tocaste num assunto, que desde há muito me intriga e fascina. Continua lá, no Evangelho de João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”. Quando dizes que ficavas/ficas encantada com essa primeira frase, que te parecia/parece “... uma fórmula ritual mágica”, lembro de uma tentativa de externar o que me vem do mais íntimo, sobre tal assunto:

No início, o silêncio,
um imenso vazio, sem poesia.

Sentia falta... só não sabia do quê, ou de quem.
Como menino perdido, sem pai nem mãe, gritou sua solidão.

O som da própria voz o deixou confuso, pois o eco não o satisfez.
Na sua oficina tratou de modelar o mundo: céu e terra, inda um grande vazio.

Em meio à escuridão, chorou... e suas lágrimas inundaram a terra.
Cego de dor, implorou a si mesmo: – luz! por favor, preciso de luz.

Nesse instante de êxtase, pura magia, nasceu a primeira alvorada,
da primeira manhã, do primeiro dia, após a noite, que parecia não ter fim.

E no silêncio da manhã recém-nascida nasceu o primeiro verso do poema, que perdura até os dias de hoje.

E por aí vai... ## Como me fez bem te ler! Valeu mesmo!! Um abraço fraterno.

TMara disse...

PARA TODOS os que por aqui passaram , mas principalmente aos k comentaram deixando em aberto 2 questões:
1ª trata-se efectivamnete de um excerto de conto. Da introduçao que a personagem nos faz;
2ª Não poderei postar o restante pos é bem extenso.
destaquei este excerto poe, sendo início do conto, ter uma voz prórpia e um sentido completo sem necessitar, aqui,continuidade.
bjs e bom f.s a toda a gente. Bj grande de luz