14 junho 2005

Cunhal e Eugénio embelezam-nos o dia!

Cunhal e Eugénio embelezam-nos o dia!

cunh_05ACunhal.jpg

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

18 comentários:

Amaral disse...

É um adeus desconsolado, sombrio. O passado não pode ser tão inútil assim. Agrupando todos os momentos vividos, podemos encontrar Aquilo que faz o universo avançar e evoluir. Queiramos ou não, a natureza "sabe" o que tem a fazer!...

ferrus disse...

Adeus não, Eugénio de Andrade...até breve, tenho-te em livro com a alma que lá deixaste:-)Bjitos Mara

sylpha disse...

Duas pessoas que perdurarão no tempo,sem dúvida alguma!! Beijo grande

Vênus disse...

Olá,
Bela homenagem. Que delicadeza, que poema belíssimo!

"Todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no meu coração"

Bjokass *.*

Eva Lima disse...

Escolheste um poema muito lindo para esta homenagem. Não é um adeus é mais um até sempre...

bjinho

Lyra disse...

gosto tanto tanto deste poema!

Lana disse...

lindo, lindo, lindo este poema.. :)

H. disse...

partilhei/partilho da tua escolha. este poema é perfeito. o génio que soube compô-lo viverá...

o meu sentido e honrado adeus ao modelo de homem que foi Cunhal tb... obrigada por nos dares um pedaço da sua versatilidade (o desenho)...

o que é a morte senão a materialização de uma imortalidade terrena?

Vivam as grandes almas! Sempre!

Pescador disse...

A minha sincera homenagem e admiração pelo poeta Eugénio de Andrade ... poeta do amor e do corpo ... e o meu respeito pelo homem coerente que foi Alvaro Cunhal !!
Pescador

zezinho disse...

Há homens e mulheres cuja estirpe jamais morrerá.
É o caso destes dois homens ímpares.
Beijinho

JPD disse...

Uma delícia como não poderia deixar de ser, Tmara.
Bjs

Mitsou disse...

As dele nunca se gastarão, sempre novas a cada olhar que as leia pela primeira vez. E guardadas com todo o cuidado no de quem já as leu muitas vezes. Beijinho grande, amiga.

Micas disse...

Uma bela e merecida homenagem, a que aqui lhes prestas. Beijinho

Confessionário disse...

Um abraço que envolva os três, eles e tu!

Charlotte disse...

Já tinha saudades de visitar a tua página! Puxa alguns dias fora e uma pessoa perde uma série de posts!! Mara, bonita homenagem a ambos! Jamais serão esquecidos.
Beijokas*

O Micróbio disse...

Adeus, Eugénio!

AS disse...

(...)
"Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?"
(...)


Permanecerão entre nós, através das palavras e do exemplo!...

lique disse...

Serão lembrados, sempre. Porque o povo tem memória, como se viu hoje no funeral de Álvaro Cunhal. Beijinhos