09 dezembro 2004

DOCE LITURGIA

Ontem fui a uma homenagem ao Maestro Manuel Ivo Cruz, pela passagem dos 50 anos de carreira artística.
A homenagem em si foi simpática como o é todo o acto expresso de reconhecimento.
Quero deixar aqui um apontamento sobre a liturgia da actuação de uma orquestra.
Depois de num primeiro momento ter decorrido a sessão de discursos, foi o palco esvaziado da mesa e das cadeiras dos oradores. Ficou nú, despojado de qualquer artifício.
Súbito, os músicos que constituem a orquestra avançam céleres sobre ele transportando cadeiras e banquetas para as pautas. O enorme espaço (creio que de uns catorze metros de comprimento, por uns oito de profundidade), fica semeado pelos objectos atrás referidos, colocados de forma aparentemente desordenada.
Olha-se e parece um desordenamento caótico . Atenta-se e vê-se uma estética, um equilíbrio, no aparente caos.
Os músicos entram transportando os respectivos instrumentos e a magia acontece.
Ao centro, à direita, uma flauta começa a fazer-se ouvir. Num grito estridente ecoa pelo palco, logo seguida de muitos outros instrumentos. O momento de afinação de instrumentos é o primeiro em que nós, auditores, somos permitidos. Entramos assim, num acto litúrgico de grande profundidade, como iniciados. Sabemos que o não somos ( no meu caso concretamente em que nada sei de música para além de a ouvir). É-nos permitido entrar por este magnífico portal onde se tece magia.
Cada um afina-se para seu lado (aparentemente) e a cacofonia de sons enche o recinto e envolve-nos criando um espaço de intensa beleza. Não conheço liturgia mais secreta, e ainda assim que a todos tão bem integre, como a da música, desde o momento da afinação de instrumentos. Parece que, juntamente, afina as almas.
Depois foi mergulhar na onda de beleza criada pelas vozes e instrumentos com as cinco peças magistralmente escolhidas.
Agora há, por todo o lado, os Concertos de Natal. Não percam.
Deixem-se tomar. Apanhem esta crista e surfem na magia dos sons.

7 comentários:

Fabi disse...

É a magia da música, da boa música... instrumentos que "falam" pelos sons. Claro, movidos pela sensibilidade de quem os conduz. Beijos...

Lana disse...

ooohh n fui a 1º..snif snif :P mas ainda bem assim tens mais coments hehe :) concordo com o ou a (lol) Fabi...mas tb existe outra peça fundamental...a sensibilidade de quem ouve :) **

TMara disse...

Viva ;)para as 2 "comentadoras". É natural k quem ouve tmb jogue algum papel, mas a magia está lá. Na música e executores (maestro incluido).
Bjs e ;)

FataMorgana disse...

TMara, ainda bem que aqui vim!
Vou confessar-te uma coisa: conheço muito bem o Maestro Ivo Cruz, é um Senhor adorável, um cavalheiro e tem um sentido de humor enorme!
Ele podia ser meu Avô, mas é tão jovem de espírito que o senti sempre muito próximo de mim (não penses coisas, gosto muito da mulher dele também, fiz muitas viagens com eles, em trabalho, e achava adoravel que ele a levasse sempre, sempre!). Afastei-me tanto desse mundo, que nem soube dos 50 anos de carreira do MIC (ele sabia que eu lhe chamava assim, nunca se zangou, percebeu perfeitamente que era com carinho :)
Gostava de lhe ter levado 50 rosas vermelhas!
Podia explicar-te o processo de afinação da orquestra(está longe de ser anárquico, nem por sombras está cada um para o seu lado) mas a tua forma de o sentires foi tão bonita! Deixo-te a magia :)
Beijos*

TMara disse...

Fata Morgana ;))BOM DIA! N/ necessitavas acautelar a afirmação de gostares mtº do (teu) MIC. Sou das pessoas k acreditam k pessoas de géneros diferentes se podem amar e conviver sem k isso implique uma relação amorosa e n/ coloco as coisas nesse nível.
A festa foi mtº bonita. Maravilhoso o concerto. Sei k a afinação e distribuição de cadeiras obedece a ordem precisa, mas visto por um out-sider parece anárquico. Deixei-me ir nessa onda de magia e foi uma tarde doce e bela.
Obrigada pelas tuas palavras. Bj e :)

FataMorgana disse...

Pois és, TMara, TU és. Mas eu tenho tido amargos de boca, há muita gente que lê coisas que escrevemos com sentimentos bons e depois nos manda e-mails em que nem dá para acreditar! Quando isso me acontece sinto-me tão triste, que não resisto a impedir interpretações maldosas. Claro que não me refiro aos teus visitantes e leitores que aqui vejo, naturais, simpáticos, que se identificam - alguns também conheço ;)
Infelizmente há pessoa que aparecem para chatear e raramente comentam no blog, ou fazem-no de modo vil (nomes grosseiros, sem email nem homepage). É o lado mau da internet! Eu não os apago, nunca apago nada.
Foi por isso que expliquei tanto :)
Para poder dizer que adoro o MIC! :)
Obrigada por ti, és tão querida como sempre me pareceste!

TMara disse...

FataMorgana Olha k n/ costumo corar mas fiquei embaraçada. Sou só, e simplesmente humana, Com fragilidades defeitos e tudo. Obrigada pela tua gentileza. bjs e ;))