02 março 2005


O Nilson ontem disse: "...só na quinta?", em resposta a uma afirmação minha de que colocaria o restante do poema de Cesário Verde(partes III e IV) na 5ªfeira.
Achei que devia dar tempo para lerem com calma (sei que muitos de nós vêm aqui numa corrida), mas depois de ler o comentário dele ponderei e achei que mais dias só serviam para quem viesse ler o restante se começar a perder no contexto das duas primeiras partes obrigando a reler tudo (e se calhar não teriam tempo - ai esse ingrato nada!). Portanto eis o final do poema: SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL.


SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
(III e IV)

Cesário Verde


III

AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

IV
HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar
!

20 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Olá TMara
Julgo que encontrei aqui outra estação onde poderei parar para desentorpecer o tédio, relendo e lendo coisas bonitas...
Um beijo
Daniel

O Cavaleiro disse...

Oi TMara, o que foi que Nilson aprontou? Versos e mais versos, verdades sempre absolutas...Beijo de quarta!

Pecola disse...

Olá TMara bom dia! =o) :)

Menina_marota disse...

Já ri e reli o Poemas...
E, digo-te que vale a pena, voltar atrás e começar a lê-lo de novo...
Imponente este poema (é o adjectivo, que me sai...)
Já te linkei... não te importas, pois não?
Jinhos ;-)

Lana disse...

e pontus..ca ta ele again :P e cá estou eu again :D xarãmmmmmmm ***

Angelica disse...

Olá, vim bisbilhotar um pouco! Adorei o poema!Beijos made in brasil

Rafael Reinehr disse...

Você é uma senhora de visitas rápidas, não é mesmo?

Na semana passada deixou um comentário parecido no Escrever Por Escrever...

O que achas tão "apetecível" na proposta? E de que proposta estás falando? E o que significa uma proposta honesta?

Responda-me, por favor!

TMara disse...

daniel_aladiah :) K bom k te sentiste bem nesta casa. Volta smpre k queiras e possas.Bjs e ;)

TMara disse...

daniel_aladiah _ K bom k te sentiste bem nesta casa. Volta. Sempre que quiseres e puderes. Bjs e ;)

TMara disse...

o cavaleiro -o nilson n/ aprontou nada (pelo menos desta vez e k saiba) limitou-se a comentar k achava k a publicação do restante poema só na 5ªf (hoje) era muito tardia....Acabei concordando com ele e postei antes. Parece k ele tinah razão. Bjs e ;)

TMara disse...

pecola - já me ri um bocado com o teu post do "Príncipe encantado".Bom resto de semana. Bjs e ;)

TMara disse...

menina_marota :minha querida, claro k me n/ importo. É uma gentileza, um sinal de apreço....O poema é, como dizes, imponente. Pena é k estes poetas andem tão esquecidos nas nossas memórias. Vale a pena voltar a rele-los. Bom resto de semana. Bjs e ;)

TMara disse...

o cavaleiro -o nilson n/ aprontou nada (pelo menos desta vez e k saiba) limitou-se a comentar k achava k a publicação do restante poema só na 5ªf (hoje) era muito tardia....Acabei concordando com ele e postei antes. Parece k ele tinha razão. Bjs e ;)

TMara disse...

lanita - e depois de o teres estudao no passado ano, soube-te bem lê-lo agora, assim, sem sobresalto nem obrigações? Espero k tenha sido um prazer. Bjs e ;) e bom resto de semana

TMara disse...

lanita - e depois de o teres estudao no passado ano, soube-te bem lê-lo agora, assim, sem sobresalto nem obrigações? Espero k tenha sido um prazer. Bjs e ;) e bom resto de semana

TMara disse...

AVISO À NAVEGAÇÃO - ESTOU COM PROBLEMAS NOS COMENTS E OU N/ APARECEM OU VÊM MULTIPLICADOS. DESCULPEM MAS ULTRAPASSA-ME.BOM RESTO DE SEMANA A TODOS ;)

TMara disse...

Aangelica :) se adoraste o poema, caso desconheças, vale a pena ler TODA a obra do Cesário Verde. Só tem um livro publicado, mas todo ele é desta qualidade. Bom resto de semana. Bjs e ;)

TMara disse...

refael reinhr - já respondi no escvrever por escrever - o tamanho da visita não tem a ver com o do coment. A PROPOSTA refere-se, óbviamente ao filme de k fala. HONESTA pq quem do filme fala o viu. Claro, agora? Bjs e ;)

Rafael Reinehr disse...

Sim!

Claríssimo!

TMara disse...

rafael reinehr - OK :) estamos então entendidos quanto ás dúvidas anteriores. BOm f.s Bjs e ;)