04 março 2005

A velha senhora olha desalentada ao redor.
Vive na casa onde nasceu já lá vão oitenta e seis anos, a caminho dos oitenta e sete, pois já dobrou o meio dos seis, e onde antes já o pai vivera desde criança.
Pensa que a casa terá perto de duzentos anos, isto se ainda os não tiver.
O desalento com que olha a casa não tem a ver com o mau estado da mesma, ou problemas que a construção acarrete. Nada disso. Apesar de muito velha, a casa térrea mantêm-se erecta e em bom estado, exigindo-lhe somente trabalhos de manutenção e bem menos do que muitas casa novas que viu serem orgulhosamente construídas pelos proprietários, com uma certa sobranceria, em que o novo dava lugar ao velho, julgavam eles. A casa, bem caiada, continua a ser um mimo. A atrair olhares, pela singeleza das linhas e aspecto arquitectónico em geral, que anuncia bem alto ser de outro século enquanto as mais novas apresentam rachadelas, estrias, manchas e infiltrações exigindo, aos proprietários, consecutivas obras de reparação e não só de manutenção, sendo que, mesmo assim, o aspecto dessas é mais velho, mais desgastado, do que o daquela que habita.
Não lhe advém daí o desalento que o olhar exprime. Vem-lhe sim de uma certa monotonia que dela se apossou.
Ela e a casa encontram-se em perfeita simbiose. Tudo nesta lhe é conhecido. Desde as cores, aos cheiros, aos ruídos, externos e internos, ao pulsar da própria casa, independente das horas do dia e do movimento da rua. Todas as coisas têm um lugar próprio não podendo ser colocadas em diferente local, nem a ela tal coisa ocorrendo.
É este factor de falta de surpresa que hoje a cansa, que a desalenta.
A rua, outrora muito movimentada, com vizinhança e crianças, tem agora pouquíssimos moradores e, mesmo estes, saem de manhã para os trabalhos e voltam já caída a noite, recolhendo-se de imediato, pelo que a rua parece, normalmente, vazia.

Crianças a correr, a andar de bicicleta ou entretidas noutros jogos, é coisa que não existe mais. Os casais que ali moram não têm filhos pequenos. Mesmo aqueles que para tal teriam idade.
A rua é uma monotonia igual ou pior do que a casa. Da casa entende que seja monótona habitada só por uma mulher de quase oitenta e sete anos.
Mas da rua e do pulsar da cidade, que se estendeu para outros pontos cardeais, apesar
de estar bem no centro da urbe, não se compreende este pulsar lento, desfibrilado de alegrias, sem tons, sem musicalidade. Monótono! Como monótona lhe parece hoje a vida e tudo ao seu redor.
Da janela da cozinha deita o olhar sobre o limoeiro, antigo, tão antigo que não o sabe situar no tempo. Desde que se lembra que ali vê uma arvore de grande porte, para limoeiro, claro. É um imponente limoeiro este que a família plantou há centenas de anos. Sempre carregado de limões. Todo o ano habitado, de forma alternada, por flor e frutos, perfumando o quintal e a casa, quando abre a janela da cozinha por onde ele quase entra. Habitados os troncos e os ramos por ruidosos bandos de pardais em alegres brincadeiras e folguedos próprios de tais aves.
Tudo na casa e nos espaços envolventes é antigo, carrega uma patine de dignidade e altivez que só o passar dos anos confere, tudo se mantém, até ela.
O piano mantém-se no mesmo local desde sempre, diante dos sofás e das poltronas, no canto esquerdo da sala; no lado oposto, junto às escadas que dão acesso ao andar inferior, num recanto de acesso, encontra-se o oratório com o seu marmoreado de jaspe, e os lindos santos que têm passado de geração em geração – a quem os deixará? – (sim, dissemos que a casa era térrea, mas fica entre duas ruas com cotas muito diferenciadas e tem entrada pelas duas ruas, resultando numa habitação de dois pisos), os móveis de família, de boas madeiras sobreviveram ao uso e ali estão. As fotos de família numa mesa de jogo, outras sobre o piano, tudo isto que lhe deu, ao longo dos anos, uma sensação de bem-estar, de vida organizada e controlada, transmite-lhe agora uma sensação de agonia, de opressão.... E porque tudo é inalterado desde as memórias de criança que carrega, hoje a casa pesa-lhe! Tudo nela lhe pesa e lhe parece estático, sendo que estático lhe diz ser claro sinal de paragem, de morte. Tudo pode respirar e estar vivo, mas parece que tudo morreu e se encontra fora do tempo. Até ela. Daí este olhar desalentado que deita ao seu redor na esperança que, de qualquer ponto da casa, do quintal ou da rua, surja, ecluda, aconteça, um qualquer movimento disruptivo capaz de contrariar, anular, esta sentença de morte anunciada que capta nos mais pequenos sinais emitidos por ambas.

11 comentários:

BlueShell disse...

Jinho de boa Noite. Estou cansada.
BShell

Lana disse...

jinhu pa ti :) **

Cinda disse...

Que bem, e poeticamente, descreves a realidade desalentada de tantas velhices! Um beijinho especial pela sensibilidade e votos de um óptimo fds :)

Professor Pardal disse...

Parabéns pela tua escrita é formidável :D

TMara disse...

blueshell - espero k já tenhas conseguido descansar.Obrigada pelo teu bjinho - um, de quem está cansado tem mtº valor.Bom e repousante f.s.Bjs e ;)

TMara disse...

blueshell - espero k já tenhas conseguido descansar.Obrigada pelo teu bjinho - um, de quem está cansado tem mtº valor.Bom e repousante f.s.Bjs e ;)

TMara disse...

lana :) para ti tmb, minha querida. Bom f.s.Bjs e ;)

TMara disse...

cinda - por aqui não acedo ao teu blog. Deixa as informações. Bom f.s. Bjs e ;)

TMara disse...

claudio - volta smp. Serás bem recebido. A casa tem as portas e as janelas smp abertas. Sirvo chá (quente e gelado); sumos; chocolate quente e acompanho com biscoitos de gengibre. Bom fs. Bjs e ;)

Menina_marota disse...

Fiquei comovida... Um estupendo texto... muito humano, muito sensivel, mas também racional.

Um Jinho e bom fim de semana ;-)

TMara disse...

menina_marota :) Bom f.s tmb p/ ti.Bjs e ;)