29 março 2005

Imobilidade


Corpo jacente (técnica mista por TMara)

Imóvel! Imóvel estava a mulher deitada, na cama, às escuras no quarto.
A imobilidade era aparente pois só o corpo se não movia. Nem a respiração se apercebia.
Por dentro dela, na alma, nela, o tumulto era total. Tudo se agitava em desassossego, em dor.

A seu lado, indiferente ao que lhe ia na alma, dormindo um sono tumultuado por sonhos e conversas interminavelmente ciciadas, o companheiro.
Naquele quarto nada era o que parecia. A imobilidade da mulher era só aparente, só física. Do corpo! A escuridão não o era porque pela janela aberta entrava suficiente luz dos candeeiros de iluminação da rua; o silêncio não existia porque os ruídos na alma dela lembravam o assustador e destruidor barulho de um violento sismo e os sonhos murmurados dele enchiam a noite, mexendo com os nervos já em franja da mulher deitada quieta, imóvel, duma imobilidade aparentando a morte. Aparentemente quieta. Uma turbulenta quietude.

Dos olhos da mulher escorriam grossas lágrimas, enquanto soluços de pedra lhe ribombavam, num silêncio total, no peito, esmagando-o com dores.
Estava zangada.
A mulher estava zangada e essa zanga fazia-lhe mal. Sentia-a a alastrar por ela, como ervas daninhas num jardim, destruindo tudo de belo à sua volta. Sabia porque estava assim, não queria estar assim, sabia que não importava nem adiantava tal estado de espírito mas ele apossara-se dela de uma forma insidiosa e persistente, como parasita, e não o conseguia extirpar.

Ela não queria estar zangada.
Nunca vale a pena zangarmo-nos com a vida, sabia-o!
Melhor ir com a onda, surfar nela e aprender a lição desse momento.
Sabia tudo isso, mas a zanga, dentro dela, persistia e ela rebelava-se, ordenava-lhe que saísse, mas ela voltava, secreta, insidiosamente, tal animal que se alimenta do sangue, sugando-o. Sugando-a! Era a alma que lhe era sugada.

A mulher queria acordar como seu sorriso de bons-dias ao mundo. Aquietado e sereno o coração.
Não queria mais ver o sorriso a estiolar-lhe nos lábios, tal flor, violenta e prematuramente arrancada.

O homem dormia, num sonho frenético, como todos os seus sonhos, enquanto a seu lado a mulher chorando, imóvel, lutava ferozmente uma das mais duras batalhas da sua vida decidida a não soçobrar.

Queria fazer as pazes com a vida. Queria estar em paz com a vida.

11 comentários:

Ivo Jeremias disse...

Passei apenas para desejar uma boa semana para ti e dar um abraço.

Blue C. disse...

A raiva contida é o pior inimigo que se pode ter. Conter sentimentos é reter os nossos desejos. Assim, não há Paz que chegue. Um Beijinho grande cheio de Luz(passa no meu Mar. O post que comentaste não estava completo. Coisas do Blogspot).

Lana disse...

A furia dentro de nós corre-nos nas veias como sangue...e alastra-se como veneno...

Dos olhos da mulher escorriam grossas lágrimas, enquanto soluços de pedra lhe ribombavam, num silêncio total, no peito, esmagando-o com dores.
Estava zangada.
A mulher estava zangada e essa zanga fazia-lhe mal.

parte forte esta...

Lana disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
contadordehistorias disse...

Por vezes é preciso que a vida se esqueça de nós...

beijo

TMara disse...

ivo jeremias :) para ti também. Bjs e ;)

TMara disse...

blue c. :) sei. No texto tmb e dito, mas é smp bom lembrar e obrigada pela luz. Bjs e ,)

TMara disse...

lana- obrigada pela visita.é forte, tmb acho...Bjs e ,)

TMara disse...

contador de histórias. será isso então? Mas n/ será k a vida só esquece os mortos?Bjs e ;)

Ana disse...

Cheguei aqui sem saber como. Gostei do que li. Em especial desta tua "Imobilidade" e da imagem que lhe associaste.
Parabéns pelo blog.
Um beijo.

TMara disse...

bem vinda Ana. Fui e gostei. guardei o caminho, semeado de versos. espero k voltes. Bjs e ;)