12 março 2005


Mãe & Criança, by: Bartlett
FRAGMENTOS

Viu a mulher entrar no autocarro, carregada com sacos do supermercado. No rosto, uma tranquilidade, cortada por invisíveis linhas que fremiam, tal ondas residuais.

Eram estranhos os olhos. Olhavam com a abertura e a inocência de uma criança. No entanto uma velada dor coexistia, no mesmo olhar.

Dificilmente, com tantos volumes nas mãos, passou pela coxia e sentou-se.
No banco vazio, ao seu lado, pousou alguns dos embrulhos.

Olhou para o exterior ela janela do lado esquerdo e a sua atenção ficou aí fixada.

Marta, olhava-a Sentia-lhe o total alheamento. Aquela mulher, pensou, parecia mais jovem do que devia, na realidade, ser.
Aquele jogo dos contrários, tão fortes e em simultâneo subtis, era um indicador mais precioso do que a aparência lisa, da superfície.

Marta deixou o pensamento correr solto. Sempre atenta á mulher.

Numa das paragens entraram muitas pessoas. Uma jovem dirigiu-se para o lugar ao lado da mulher. Teve que insistir, três vezes, solicitando-lhe que retirasse os sacos do banco, tão abstraída esta se encontrava.

Sorriu timidamente, pediu desculpa e retirou-os. Aninhou-os, o melhor que pode, no espaço dos pés. Não cabiam. Ficou com dois no colo. Maquinalmente as mãos começaram a trabalhar.

Deu dois nós às orelhas de um dos sacos e os seus dedos começaram suavemente a puxá-las, a dar-lhes forma, movimento e beleza, elaborando um belo laçarote.

Marta olhava fascinada os dedos da mãe a abrirem os laços de seda que lhe prendiam as tranças e depois, o laçarote grande, ornado de renda inglesa, que lhe prendia o bibe atrás, nas costas.

Ah, como Marta se sentia bonita e enfeitada com os laçarotes que a mãe abrira – lindas borboletas nela pousadas.

Olhou-se melhor, no longo espelho do quarto dos pais e viu a mãe, ajoelhada, atenta, a alisar aqui, a encurvar além; enfim, amoldar os laçarotes. A sua mão direita fez um gesto esvoaçante e Marta viu o lindo sorriso da mãe abrir-lhe o rosto, antes tão concentrado, agora totalmente virado para si, enquanto dizia: “já está”.

Marta, que nunca cessara de observar pelo longo espelho, quer os movimentos ágeis e cuidados da mãe, quer a sua própria imagem, branca, alada, virou-se para esta rindo feliz. Estendeu-lhe alegremente a mão e disse: “vamos, mãezinha”.


A mulher levantou-se e saiu do autocarro

By TMara, in: FALAR MULHER (82:84)

22 comentários:

Laura Antunes disse...

Ainda guardo com ternura os momentos em que a minha mãe pacientemente me alisava o cabelo frente ao espelho. Lembrei de quando era miuda...Obrigada. Abraço Laura

Lana disse...

e óspois?
saiu do autocarro e foi pa onde? :P kero saber hehe *** besu

Daniel Aladiah disse...

Querida TMara
É bom saber observar, ver e não só olhar... a diferença está na atenção e no sentir... foi isso que li, alguém que sabe observar a vida, muito bonito.
Um beijo
Daniel

Fabi disse...

Olá TMara
desde quarta-feira tento deixar um post no seu blog, mas não conseguia. O sistema estava com problemas.
Achei fantástico aquele post onde fizeste uma leitura dos golfinhos. Maravilhoso.
Voltarei a manter contato mais frequentemente.
Beijos brasileiríssimos.

BlueShell disse...

Até que enfim...consegui!!!
Sabes...a vida é difícil – eu tomo consciência disso a cada momento que passa!
Jinho, BShell

Charlotte disse...

Nas tuas palavras visualizei os gestos, o olhar através da janela do autocarro, o pentear.... bonito texto s/ dúvida.
Beijokas e bom Domingo.

titas disse...

hoje vou dormir mais aconchegadinha.
É essa a sensação que me dás: aconchego!
Obrigada, minha querida
//(º_º)\\ um beijo da Titas
http://titas.weblogger.terra.com.br/

Blue C disse...

OBA!!!!!! Finalmente consigo entrar!!! Como vês já é tarde e não te li. Volto amanhã para ler. Mas não quis deixar de tentar dar-te um beijinho. Direito aos teus sonhos. CHUAC!!!!

FataMorgana disse...

Este texto comoveu-me muito. É lindo e está muito bem escrito.
Além disso, para mim este assunto é uma espécie de trauma familiar... não comigo, graças a Deus! Mas este género de comportamento paralelo não me é estranho, vem-me de duas gerações anteriores, foi-me transmitido o quanto dói.

Um beijo para ti!

TMara disse...

laura antunes:) B'dia. Já somos duas. Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

laura antunes:) B'dia. Já somos duas. Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

lana:) compete-te descobrir. Se quiseres. se não, deixa como está. Bjs e ;) e boa semana

TMara disse...

lana:) compete-te descobrir. Se quiseres. se não, deixa como está. Bjs e ;) e boa semana

TMara disse...

lana:) compete-te descobrir. Se quiseres. se não, deixa como está. Bjs e ;) e boa semana

TMara disse...

daniel aladiah :) k bom k vieste até cá. Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

daniel aladiah :) k bom k vieste até cá. Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

Fabi, bem vinda. Já li as tuas novidades. Espero k continues feliz com a decisão. Deixa lá k eu estou com imensas dificuldades enos comentários. Até no meu blog, se calahr o k escrevo em resposta enm vai ficar....Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

Fabi, bem vinda. Já li as tuas novidades. Espero k continues feliz com a decisão. Deixa lá k eu estou com imensas dificuldades enos comentários. Até no meu blog, se calahr o k escrevo em resposta enm vai ficar....Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

bkueshell - hoje quem não consegue (nem aqui) sou eu. Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

Charlotte :) Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

titas :) espero k tenha sido um reparador sono e k tenhas sonhado com a Sofia.Boa semana. Bjs e ;)

TMara disse...

Blue C:) obrigada pelo bj, creio k o recebi qnd sonhava nas nuvens. Tmb tenho dificuldades (e muitas) como vês pelo post de hoje. Agora nem a as respostas aos comentários entram...Volta sempre. Bjs e ;)