12 fevereiro 2005

Eu nunca guardei rebanhos


by Iris Hustrioides Major
I - Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores
sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber
que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa
a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos
ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel
que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho
e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias
e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente
como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural
— Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque,
cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
(Alberto Caeiro)

7 comentários:

Menina_marota disse...

Olá TMara... Obrigada pela visita ao meu blog. Não estou de partida, somente foi a forma que encontrei de agradeciemnto aos comentários que me vão deixando, no meu blog e aos quais eu não conseguia responder individualmente, porque o meu pc andou avariado.
Ler Fernando Pessoa, par mim é obrigatório e é um dos autores de minha referência. Gostei muito da tua escola de hoje, aliás como gosto de todo o teu blog. Bom fim de semana e um jinho risonho :-)

Menina_marota disse...

Ressalvo: Onde se lê "escola" deverá ler-se escolha.
As minhas desculpas pelo erreo cometido :-)

Anónimo disse...

Honra, Orgulho, Glória em http://nacional.blogs.sapo.pt

Lana disse...

Pessoa é Pessoa e no comments :) adoro **

TMara disse...

B'dia menina_marota :) fiquei + descansada. Bom domingo. Bjs e ;) :) :) :) para arredondar as esquinas da vida

TMara disse...

B'dia LAnita ;) pois é Pessoa. Ma spode ser comentado na mesma. N/ o conheci, mas creio k um absoluto intocável n/ faria o género dele...Tantos k ele foi....Bjs e :) :) :) :) para enfeitares as ruas da vida

Anónimo disse...

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