24 fevereiro 2005


Cristais de calcite
Pedi este texto "emprestado" à minha filha caçula, Lexis,
do blog dela («http://nolimbo.blogspot.com/»)
Desencontros
Da primeira vez que a vi trazia uma blusa cingida ao corpo e uns jeans azuis, simples. Nos pés, uns ténis; o cabelo solto, à volta dos ombros.Movia-se de forma insegura, como quando vamos num caminho de terra solta, com medo de escorregar em alguma pedra.Olhava as pessoas por quem passava até ao momento em que davam por ela. Baixava então a vista para o chão ou para o relógio.Sentou-se na mesa ao meu lado. Por companhia um livro de que nunca cheguei a saber o titulo.Enquanto esperou o croissant e o sumo, fumou um cigarro e leu o que faltava ao livro (o serviço não era lento; o livro estava quase no fim).A minha conta chegou. Descobri estar já atrasado para o emprego. Numa troca rápida de dinheiro com o empregado levantei-me da esplanada.*Dirigiu-se ao balcão naquele seu andar extremamente feminino e entregou-me o talão com o nome do livro que queria requisitar.Cabelo apanhado num puxinho (como usam as bailarinas), vestido em tons pasteis que adivinhava as linhas do seu corpo.Tinha um passo incerto, como se tivesse sempre medo, mas isso apenas lhe conferia uma fragilidade sensual, aumentando o seu carisma.Chamava-se Mariana, trabalhava num escritório de uma firma de construção civil.Vinha com frequência à biblioteca.Entreguei-lhe o livro e afastou-se após um rápido “bom dia”.*Acabou o livro no momento em que apareceu o criado com o croissant e o sumo.A seu lado alguém se levantou e afastou em direcção ao parque de estacionamento.O livro terminara de uma forma brusca. Incompleto, aprofundara a sensação de vazio que ela esperara que fosse atenuada pela leitura.Comeu rapidamente o croissant; transparecia o desconforto de se encontrar sozinha.Nessa manhã dera parte de doente no escritório.Levantou-se e dirigiu-se para a paragem do autocarro. Iria ao cinema.No final da sessão sentiu uma pungente necessidade de companhia. A noite já se estendia em todas as direcções. O Carlos tinha ido para fora e só voltava para a semana.Lágrimas escorriam-lhe pela cara.Deixou-se andar sem destino. Sem reparar no caminho foi ter à ponte.Olhou as águas, as luzes das ruas reflectidas, o som dos carros que passavam como pano de fundo.Descalçou-se, despiu os jeans e a blusa. As lágrimas escorriam-lhe de novo pela cara sem que o notasse. Um sofrimento tão intenso e interno, tão sem razão de ser, de existir.Nua, sentou-se sobre o corrimão.O escuro, o abismo, a obliteração - o retorno.O fim absoluto e supremo. Sentia-se atraída, arrebatada.- Carlos. Eu preciso de ti.A ponte estava deserta. Pôs-se de pé sobre o corrimão, encostada a um dos pilares.Queria sentir-se sugada pela não existência.Deixou-se ir.*Vim passear o cão, o Jaime.Todas as noites o mesmo caminho: saio de casa, viro à direita, seguimos até ao jardim - ele espalha o seu aroma em 15 ou 20 cantos diferentes - continuamos em direcção à ponte, e à saída da ponte viro à direita para entrar pela parte se cima da rua onde moro.Tínhamos agora saído do jardim e o Jaime vinha com o focinho colado ao chão, quando pareceu ter encontrado qualquer coisa de mais curioso. Parou com o dito focinho enterrado num amontoado de roupas caídas no meio do passeio.Olhei. Um par de jeans, uma blusa, uns ténis pretos. O soutien voava na estrada.Não sei que impulso me fez olhar para o rio, mas fi-lo mesmo a tempo de ver um vulto ser engolido pelas águas.Corri para a cabine telefónica no fim da ponte e chamei uma ambulância.Foi a segunda vez que a vi.
(posted by Lexis
11/17/2004 08:04:45 AM )

15 comentários:

Blue C. disse...

Olá. Olha para postares no Ser Humano é facil. Recebeste um e-mail com o convite, certo? Acho que tem um link para entrares no Blog.com e depois vais a posts, new e postas... se usa o msn adiciona-me bluec@sapo.pt. Se tiveres duvidas, diz. Beijoquinha

contadordehistorias disse...

As roupas e o corpo n fazem falta nenhuma, ocas não fazem sentido.

beijo

TMara disse...

blue c. :) continuo a n/ ter recebido nenhum email.Ontem escrevi-te. Depois envia o link p/ aquele endereço.Boa 6ªf. Bjs e ;)

TMara disse...

contadordehistorias _ creio k N7 percebi o sentido do teu comentário. Falta a alma? MAs a esta n/ vive (pelo menos nós n/ a apercebemos) sem um corpo....Bom f.s. Bjs e ;)

Rafael Reinehr disse...

Olá TMara!

Vim agradecer pela visita ao Escrever Por Escrever! É sempres sucinta assim em seus comentários! Hehehe!

De qualquer forma, sempre acho interessante esta troca de experiências e visões que portugueses e brasileiros têm da vida. Tenho vários amigos e blogueiros portugueses entre meus favoritos e, quem sabe, não possamos passar a nos corresponder com mais freqüência?

Vou dar uma olhada no blógue de sua filha caçula...

Beijos!

Menina_marota disse...

Texto impressionante...
Quem tem filhos... sente um arrepio...
Jinhos :-)

Mitsou disse...

Gostei muito. Já tinha saudades tuas, TMara, mas agora espero reatar o convívio...até à minha próxima ausência. Coisas da vida. Bom fds e muitos bjs, amiga :)

Nilson Barcelli disse...

O texto que a tua filha escreveu revela uma capacidade para escrita pouco comum em pessoas ainda jovens (presumo que o seja).
Vou dar um saltinho ao blogue dela para ler mais alguma coisa.
Beijo e bfs.

O Cavaleiro disse...

Oi TMara!? Vim agradecer-te visita. Encontro um belo texto, linhas bem traçadas! Parabéns, pela postagem do mesmo!Beijo de sexta-feira!

TMara disse...

rafael reinhr:9 sou sucinta? Talvez tenha tendência para poucas palavras....Mas ér como tudo. Depende de vários factores. Bjs e;)

TMara disse...

menina_marota _ entendo o teu arrepio. K bom k passaste por cá. Bjs e;) e bom f.s.

TMara disse...

Mitsou:) foi bom voltar a receber-te nesta casa. Volta sempre k queiras e possas. Bom f.s. Bjs e ;)

TMara disse...

nilson :) k bom k vieste. Tenho pena k a ALexis tenha parado o blog dela. Tem um enorme potencial p/ a escrita. Espero k retome. Bjs e ;)

TMara disse...

o cavaleiro :) obrigada pelo coment. Ainda bem k gostaste do k leste. Volta sempre. Bom f.s. Bjs e ;)

Anónimo disse...

Enjoyed a lot! »