28 abril 2005

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SERMÕES DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA
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SERMÃO DE S. ANTÓNIO

PREGADO NA CIDADE DE S. LUÍS DO MARANHÃO
ANO DE 1654

Este Sermão (que todo é alegórico) pregou o Autor três dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino, a procurar o remédio da salvação dos Índios, pelas causas que se apontam no I sermão do I Tomo[1]. E nele tocou todos os pontos de doutrina (posto que perseguida) que mais necessários eram ao bem espiritual e temporal daquela terra, como facilmente se pode entender das mesmas alegorias.

Vos estis sal terrae[2]. (MATEUS.5)

Vós, diz Cristo senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chamam-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem os seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto pois, que, ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar, que se há-de fazer a este sal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus
[3]. Se o sal perder a substância e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça[4] que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer?
[1] O Sermão da Sexagésima.
[2] Tradução: vós sois o sal da terra.
[3] Mateus, 5, 13( N de V)
[4] Em alto lugar, em alto conceito.

10 comentários:

Manoel Carlos disse...

Apesar de grande orador, o Padre Vieira se opôs ao movimento denominado Insurreição Pernambucana que, em 1954, derrotou os holandeses na Batalha de Guararapes, considerada o marco da Nacionalidade do Brasil.

TMara disse...

manoel carlos - tem razão. Mas aqui é ao orador k faço apelo. Este pequeno trecho se aplica tanto à situação k vamos vivendo em Portugal - o gerúndio é deliberado, pois é uma situação k se vai arrastando e arrastando. Nõs povo e os políticos. Sal e terra! Quem se move primeiro?

Daniel Aladiah disse...

Querida TMara
A actualidade deste sermão é deveras evidente. Que falta faz pregadores deste calibre nos dias de hoje.
Um beijo
Daniel

gato_escaldado disse...

agradável surpresa. um texto de Padre A. Vieira. és o "sal da Terra", sem dúvida. neste deserto dominante. beijo

Lana disse...

olá :) era pa deixar um olá e ..hehe gostei mt dessa imagem ^_^ ****

BlueShell disse...

A universalidade e intemporalidade de um texto...
Como pode estar a Terra tão corrupta...se a missão dos pregadores é preservá-la???

Quanto a mim...nem os pregadores fazem o seu papel...nem a Terra quer deixar de lado a má conduta...

Jinho (estou a chá- detesto chá....)
BShell

Charlotte disse...

Engraçado, que este sermão que aqui nos trazes, se não estou em erro data de 1654 e p/ incrível que pareça é o espelho de hoje (2005)!! Palavras para quê?
Bejinhos*

Mitsou disse...

Belíssima escolha, TMara. Certeira e sábia, como sempre. Beijo grande.

H. disse...

Estudei o Sermão de Santo António aos Peixes no 11º ano se ñ estou em erro e gostei imenso da mordacidade dele. Como ele aproveitou a metáfora dos peixes para criticar (e ensinar!) a sociedade do seu tempo. E as suas palavras permanecem actuais!

Boa escolha! *

TMara disse...

Esta é uma resposta geral - a todas as amigas e amigos k comentaram:não hámuito mas a dizer a não ser k queiramos fazer um fórum de debates, o k, pelos comentários n/ parece o caso. Estava na minha vida, posta em desassossego (k ainda é a melhor forma de se estar)a pensar na actualidade política elembrei-me do início deste sermão e de como era actual (infelizmente) e aqui ficou, postado.
Penso k vale a pena pensarmos, cada um de nós, se somos a terra ou o sal e k tipo de terra ou sal somos.A Charlotte em razão - 341 anos (quase 3 séc. e meio)decorreram e...???
Obrigada a todos pelos coments. Boa 6F e melhor f.s- bjs