24 julho 2005

As velhas senhoras

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AS VELHAS SENHORAS

Há mais de setenta anos que se lembra do maciço de hidrângeras ali, no final do canteiro, encostado àquela velha parede.
Apesar de ocupar o fim do canteiro o arbusto sempre crescia e alastrava de tal forma em folhagem e flores que a impressão era dominadora, ocupando-o quase todo, pelo menos visualmente.

A velha senhora está sentada, na cadeira que fora de sua mãe e de sua avó antes dela e sabe lá de quem mais, gozando a fresca do final do dia, sentindo a revigorante brisa, carregada de maresia, quando dos lados da cozinha, altissonante, soa a voz da Adelaide: “menina, não apanhe frio, olhe as pneumonias....”.
Ri-se ternamente dos cuidados de Adelaide e da designação carinhosa com que a trata apesar da viuvez e da idade: menina!
Este tratamento vem da infância, quando com doze anos esta veio servir para casa dos pais, para fazer companhia à “menina”, nos folguedos.
Sete anos as separam, bem como o estatuto social. De resto, foram amigas, confidentes e cúmplices ao longo de toda a vida.
Nunca uma falhou à outra.


(Excerto do conto com o mesmo nome)

9 comentários:

ferrus disse...

Conheço relacionamentos desses :-))) Velhas senhoras ou eternas meninas? Uma amizade e dedicação como poucas....Bjitos!!!!

Seila disse...

Bela escrita,TMara. Retratar na escrita encanta-me e tu fazes bem! Bom resto de domingo!

Alexandre Sousa disse...

Recordo um S. João no Porto onde foi moda, nessa noite, usar uma flor para dar a cheirar às moçoilas, em vez dos martelinhos e alhos porros. Ai estas tantasias saudosas da minha juventude.Bjs.

Daniel Aladiah disse...

Querida TMara
Velhas senhoras e avós...
Um beijo
Daniel

Lana disse...

a chamada amizade.. :)

Å®t_Øf_£övë disse...

TMara,
As verdadeiras amizades são mesmo assim...duram uma vida inteira e são indiferentes a quase tudo,até ao estatuto social.
Boa semana.
Bjs.

Ana disse...

Adoro hidrângeas! E gostei da ternura e dedicação que se solta deste excerto de conto. Contas mais?
Um beijo.

batista filho disse...

TMara: o olhar de quem vê e sente o que vê... fatos, aparentemente banais, registrados e depois relatados, com a ternura e sensibilidade que te são peculiares, atestam que o teu lado cronista é dos melhores. Um abraço fraterno.
* Espero, logo logo, adicionar mais um sistema de comentários, como sugeriste.

Raquel V. disse...

Adoro leituras destas... não consigo deixar de retirar delas alguma paz... um pouco de infância...
As flores levaram-me até Sintra, onde ouvi falar de uma velha senhora que habitava uma velha casa que ainda conservava flores como as que estão na foto...
Tempos que ressuscito quando por lá passo...
Beijo :)