20 fevereiro 2006

As velhas senhoras (parte V)


Para mim eram, todos eles, uma família. Não aquela de sangue, de que me despedi lavada em lágrimas há muitas décadas, no adro da igreja, ao entrar para o carro que me fora buscar à aldeia, mas uma outra de coração e escolha.

Quando fiz sessenta e cinco anos o meu sobrinho veio visitar-me com a mulher e filhos e convidar-me para viver com eles, pois tinham uma boa situação, uma grande moradia, e um quarto com quarto de banho, só para mim. Ambos eram e são professores. É outro o viver agora! Felizmente bem diferente daquele de quando eu era menina.

Olhei para a menina, ainda esperando um sinal de cansaço, como que a dizer, vai, podes ir. Sorriu e disse: “Não me olhes assim Adelaide. Esta casa é tua enquanto o quiseres. Foste e és uma irmã. És livre de seguir o teu caminho, como sempre. Compreendo que são da tua família, mas também o és da nossa. Cabe-te a decisão.”

Não hesitei. Agradeci-lhes a gentileza, disse-lhes que os visitaria, o que fiz várias vezes, algumas levando a menina comigo, mas que ficava.
Ficámos.
Desde que as crianças deixaram o ninho, voando para o estrangeiro, a menina decidiu deixar de ter empregada interna e contratou uma mulher-a-dias, como se dizia, uma empregada externa diária, dado a casa ser grande. Com o decorrer dos anos achámos que podíamos reduzir e passou a ser a meio tempo. Vinha todas as tardes e, entre nós e ela, toda a casa estava um brinquinho como gostávamos.

Volta que não volta o senhor engenheiro visita-nos com a nova mulher e os filhos desta. Os dias ficam frenéticos de tanta agitação de que nos vamos desabituando dia a dia nestas nossas rotinas de duas velhas senhoras sós. Vejam só como já falo de mim dizendo: “velha senhora....”

Menina está no jardim. Eu ocupo-me, finjo que me ocupo, na cozinha, com intermináveis tarefas que ambas sabemos prontas....
Desde sempre a menina tinha o hábito de passear sozinha ao fim do dia. A seguir ao jantar ou antes conforme a estação do ano.
Eram os únicos momentos do dia em que não requeriam que a acompanhasse e em que demonstrava e disse-mo claramente, desejar estar a sós com os seus pensamentos, na do calma entardecer.
Mesmo no período de namoro sempre manteve este tempo só para ela.
Respeito-lhe este período como antigamente apesar de, por mais de uma vez, me ter dito não ser necessário.


Adelaide anda na cozinha de um lado para o outro. Mexe na louça já separada para por a mesa... Deliberadamente faz barulhos para que saiba que está ocupada. É uma ternura de pessoa. Sempre atenta e cuidadosa para comigo quando o inverso é mais correcto dado ser mais velha.
Cuidamo-nos mutuamente e não temos razões de queixa.

15 comentários:

Teresa David disse...

Já que não vejo novelas na tv pq não me puxam mesmo nada, aproveito a tua episodica edição desta história, para ter um folhetim para ir seguindo com prazer.

spartakus disse...

absolutamente lindo de tão terno. obrigado. bjinho.

grzl disse...

Bonito texto e muito "ternurento".
um abraço
graziela

online disse...

As Adelaides são do melhor que há:))
Sei do que falo:))

Obrigado pela visita, s história vai linda, continua...

rafaela disse...

encantador, como muitas senhoras velhas, eu tb tive uma adelaide.

vou apanhar o inicio da historia.

Caiê disse...

Emociono-me muito com txtos de "velhas senhoras" porque passei grande parte da minha (curta) vida com uma. Beijos, querida amiga.

AS disse...

Tmara, obrigado por partilhares estes momentos tão especiais...

Um beijo

antimater disse...

Qualquer dia tens que por aí a capa dos livros prá gente comprar, pra ler com mais calma...

.o)

Afrodite disse...

Será que a Adelaide também finge?

titas disse...

O que eu gostaria de contar histórias assim! mas falta-me a arte e o engenho.

Só me saem estórias desgraçadas...

Jorge Moreira disse...

Olá TMara,
Que linda história de Vida!
Beijinhos e bom dia

maresia_mar disse...

Olá
que bem que contas uma história.. grande escritora sim senhora.. Bjhs

Betty Branco Martins disse...

Olá Tmara

Momentos "únicos" que fazem parte da tua história - que tão bem contada está!

Obrigada pela partilha.

Beijinhos

lique disse...

Amizade e respeito mútuo que se consolida no tempo. E como tu contas bem, prendendo-nos à narrativa!
Beijinhos, amiga

Cakau disse...

Excelente partilha! :)

Deixo-te um beijo, saudoso *