30 outubro 2004

ESTAVA VAZIA

A praia estava vazia. Os ventos corriam por ela como por uma pista, levantando turbilhões de areia que me envolviam como crianças brincando de roda.
Nas areias inscreviam-se, já só, as sombras das pegadas das gaivotas e as dos meus pés. Na rebentação, pequenas linhas, curvas e esbranquiçadas, bordejavam como fina renda o quebrar das ondas. Os ventos e o mar, no seu incessante vai-vem, eram os únicos sinais vivos que o mundo me dava. Nem um grito de gaivota se ouvia. Nenhum animal dava sinal. Qualquer que fosse.
A nascente, seguindo a linha da praia, estendia-se a cidade com a sua imensa marginal. Não passavam carros, nem uma pessoa- pedestre, em velocípede ou patinando- percorria a imensa extensão sempre tão povoada.
O silêncio era somente quebrado pelo marulhar do mar, pelo som mais profundo das águas densas em deslocação, como os graves num coro de vozes que se sustentam e, obviamente, pelos silvos do vento.
Perscrutei os céus buscando um vôo, um risco de asa - nada se avistava. Só a extensão de azul, pura e ainda aguada do nascer do dia, com laivos amarelos, alaranjados e anisados, com um sol já alto, quente e amigo, a aquecer e iluminar.
A cidade, ou melhor a sua solidão ou desertificação, inquietava-me. Nada mexia nela. Nos prédios não se abriam portas ou janelas, os candeeiros da rua mantinham-se inalteradamente acesos, apesar de já se deverem ter apagado por a manhã ir alta.
Os ventos que corriam na praia, com os seus turbilhões de areia, estenderam-se para a cidade e por ela circulavam agora livremente, como bandos em corrida. Buscando...o quê? o que poderiam procurar os ventos e as areias por eles levantadas?
Curiosamente observei que, inclusivé, corriam por ruas travessas onde não poderiam ter aquele efeito, por ruas onde, pela sua orientação, habitualmente, nos abrigaríamos dos ventos marinhos.
Percorriam a cidade como se guiados por um desejo de encontrar pessoas, vida, movimento..., sei lá, pareciam buscar um objectivo definido.
Na praia deslocava-me de costas, mas os ventos e as areias rodeavam-me em rodopios cada vez mais densos nos quais comecei a distinguir sons, diferentes dos provocados pelo silvo do ar e do atrito das areias em movimento. Estranhamente, apesar da força dos bailados de roda, o círculo com que me rodeavam limitava-se a fazer isso, rodear-me, sem nunca me tocar, dançando ao meu redor e emitindo sons que, cada vez mais, se pareciam com palavras ciciadas.
(continua)

2 comentários:

Anónimo disse...

Olá TMara. O teu blog é curioso. Escreves sobre questões sociais e políticas, poesia e ficção.
É divertido de ler. Desculpa, o meu nome é Mário, tentei introduzi-lo, mas estava complicado. Vai assim. Continua, dá-me gozo ler o que escreves e imaginar o k pode via a seguir.

TMara disse...

Olá ;))
Volta smp, se gostas de ler.
Bj