13 janeiro 2006

As velhas senhoras


(continuação da 1ª parte do conto - ver em post de 24 de Julho de 2005)


Adelaide poderia ter ido para a casa dos sobrinhos, mas não a quis deixar.
Ela tão pouco gostaria da separação, mas entendia-a e aceitava-a se fosse da vontade desta. Não era. Ficaram. Foram ficando!
Sobreviventes duma nau de tormentas e mortes, prematuras umas, no seu tempo outras, apesar de nunca da morte ser tempo.

Os gatos corriam pelos muros e telhados saltando excitados atrás dos pardais.
De vez em quando logravam caçar um e era uma doida alegria a que os possuía. Vinham felizes, erguidas as caudas em orgulhosa postura, colocar-lhe as presas aos pés, solicitando-a para a brincadeira que a ela se afigurava selvagem, mas nunca os contrariou, apesar da piedade que sentia pelas aves, pois entendia que a natureza devia seguir o seu curso e mais brutal seria tirar a presa aos caçadores.

No final dos dias gostava de se sentar naquele canto do jardim olhando. Simplesmente olhando e respirando. Fruindo a vida, a bênção que esta representava e descansando o olhar por tudo o que a rodeava. De vez em quando as memórias assaltavam-na tão violentamente que parecia recuar no tempo e viver, de novo, momentos do passado.
Não gostava quando assim era apanhada de surpresa e transportada para a vida já vivida. Sacudia esses momentos traiçoeiros, como moscas repelentes.

Adelaide fugia de ali se sentar.
Ambas tinham já preparado o jantar, mas Adelaide escusava-se nas tarefas
domésticas para gentilmente a deixar só.


(continua)

P.S - amanhã, sábado, escrevo AQUI
se puderem passem por lá :)

Sem comentários: