19 outubro 2008

reflexão em torno do pensamento de Teixeira de Pascoaes


Teixeira de Pascoaes afirmou que “o erro da sociedade “ era o de “ser um maquinismo em vez de ser um organismo”.
*maquinismo – qualquer peça é descartável e substituída por outra. O próprio maquinismo pode ser rejeitado e substituído por outro mais eficiente, mais produtivo.
* organismo – conjunto em que cada órgão tem igual valor para o todo, que cada órgão – parte do todo - é cuidado para o seu bom funcionamento e durabilidade do organismo. Nenhum órgão é descartável.
"

Se à época, Pascoaes emitiu esta avaliação-análise-crítica o que diria ele num período em que o neo-liberalismo, quase (?) capitalismo selvagem, com a sua face desumanizada e dominadora orienta as grandes linhas políticas ao invés de estas o orientarem, exercerem sobre ele o exercício regulador do mercado?
Num período em que o homem é, cada vez mais “o lobo do homem” em nome do lucro puro e duro, cujo deus maior é o “bezerro de ouro” em nome do qual tudo vale para que os “iluminados/os eleitos” pelo seu adorado “deus” dourado - não o dourado do nascer ou pôr-do-sol, o dourado da ternura, do respeito e do amor - acumulem fortunas cujos pilares assentam sobre a fome, a miséria, a morte sob múltiplas formas, uma das quais a guerra, ou as guerras pois a tipologia de armamento e o desequilíbrio de poderio de guerra de uns e de outros é cada vez mais desigual. A exploração de modos refinados em que a escravatura volta a ganhar forma sob novos modelos adequados à produção e ao lucro imediato.
Em suma toda a produção de riqueza tende a assentar sob uma amálgama de carne sangue e osso, de outros seres tão únicos e valiosos quanto eles, quanto qualquer um de nós.

A sociedade só será fraterna e justa quando funcionar como um organismo e como tal for respeitada. Onde cada parte, segmento do organismo – cada ser humano – seja igualmente
valorizado, cuidado e respeitado.
Vós e eu, não podemos descurar nenhuma parte do nosso organismo sob risco de falência. De morte. Do desaparecimento.
Assim a sociedade.
Enquanto mecanismo mata-se e mata tudo e todos.
Até os que acreditam, nos seus luxuosos apartamentos, moradias, coberturas, quintas, ilhas, etc, de tudo estarem protegidos por se julgarem próximos dos deuses num qualquer Olimpo
(os gregos antigos que me perdoem).
Os organismos, para além das partes que compõem o corpo material, físico, são uma unidade com algo invisível e indivisível que podemos designar como alma.
Ou será que corpos há que são meros mecanismos e esses não possuem alma porque não são nem aspiram a ser humanos?
Meras máquinas que dominam o mundo revestidos da formas dos humanos.
Nota bene - este texto fo escrito há 7 meses. Muito antes de nós, cidadãos comuns, sonharmos a enorme crise do capitalismo que sobre nós se ia abater e que afinal seria paga, de todas as formas, por nós . Sempre por nós.

9 comentários:

Raquel Vasconcelos disse...

Todos o dias lemos crónicas ou ouvimos nos media reflexões de seres com influência pensante nesta nossa sociedade. E os mais silenciosos?
Poderia dizer-se que é por a Conceição ser minha amiga que para mim esta é uma "crónica"/reflexão de imenso valor. Mas a verdade é outra. Acho que merece um destaque especial e passar de mão em mão, de e-mail em e-mail, de leitor em leitor...

Paula Raposo disse...

Uma excelente reflexão sobre a actualidade em que vivemos. Vazia de valores...Beijos.

jorge vicente disse...

um texto valioso e muito actual.

obrigado pela partilha

um beijinho
jorge

peciscas disse...

Tinha razão o Pascoaes e tens tu toda a razão.
Isto tudo tem que levar uma grande volta.
E esta crise tem , pelo menos, o condão de começar a convencer cada vez mais gente de que as velhas "soluções" estão caducas e gastas.

Justine disse...

Que esperar de uma sociedade em que tudo serve para negociar, para ganhar dinheiro(saúde, cultura, educação...), e em que se perdeu o sentido ético nas relações humanas?

cõllybry disse...

Oi querida, não conhecia esta beleza de espaço...para refletir mesmo este post...

Beijitos

Beatriz disse...

Depois de ler esta postagem (excelente reflexão para o momento atual) e de me entristecer com a ilustração dos valores que estão sendo transmitidos hoje para uma geração que, pretensamente, deveria ‘salvar’ o futuro, deixei por instantes o olhar pousado na Julieta (que coisinha mais fofa!)e fui deliciar a alma com os versos de ‘diz-me...’. Belíssimo!

Muito bom estar aqui, te lendo, absorvendo do teu conhecimento que nos vem em postagens tão preciosas.

Te deixo um ramalhete de violetas azuis e um beijo no coração.

M. disse...

Haja esperança num mundo melhor em que cada um de nós não desista da fidelidade ao seu pensamento e não desista de acreditar que cada pequena coisa que fizer de coerente é uma contribuição para o todo, ainda que apenas uma migalha.

bettips disse...

Pertinentes, Pascoaes a pensar e tu a dizeres o que o silêncio dos inocentes grita!
Os meses passam e a queda duplica. Parece que nada aprendem ..."os reguladores" também se devem abotoar bem para ter uma olho aberto, outro fechado!
Bjinho