13 agosto 2007

1 dia depois do centenário do nascimento de Miguel Torga

da portugalidade no mundo Largada


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Foram então as ânsias e os pinhais

Transformados em frágeis caravelas

Que partiam guiadas por sinais

Duma agulha inquieta como elas...

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Foram então abraços repetidos

À Pátria-Mãe-Viúva que ficava

Na areia fria aos gritos e aos gemidos

Pela morte dos filhos que beijava.

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Foram então as velas enfunadas

Por um sopro viril de reacção

Às palavras cansadas

Que se ouviam no cais dessa ilusão.

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Foram então as horas no convés

Do grande sonho que mandava ser

Cada homem tão firme nos seus pés

Que a nau tremesse sem ninguém tremer.
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Aos Poetas

***

Somos nós

As humanas cigarras!

Nós,

Desde os tempos de Esopo conhecidos.

Nós,

Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas

Da fábula burguesa da formiga-

Nós, a tribo faminta de ciganos

Que se abriga

Ao luar.

Nós, que nunca passamos

A passar!...

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Somos nós, e só nós podemos ter

Asas sonoras,

Asas que em certas horas

Palpitam,

Asas que morrem, mas que ressuscitam

Da sepultura!

E que da planura

Da seara

Erguem a um campo de maior altura

A mão que só altura semeara.

*****

Por isso a vós, Poetas, eu levanto

A taça fraternal deste meu canto,

E bebo em vossa honra o doce vinho

Da amizade e da paz!

Vinho que não é meu,

mas sim do mosto que a beleza traz!

*****

E vos digo e conjuro que canteis!

Que sejais menestréis

De uma gesta de amor universal!

Duma epopeia que não tenha reis,

Mas homens de tamanho natural!

Homens de toda a terra sem fronteiras!

De todos os feitios e maneiras,

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!

Crias de Adão e Eva verdadeiras!

Homens da torre de Babel!

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Homens do dia a dia

Que levantem paredes de ilusão!

Homens de pés no chão,

Que se calcem de sonho e de poesia

Pela graça infantil da vossa mão!

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Brasil

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Brasil

onde vivi,

Brasil onde penei,

Brasil dos meus assombros de menino:

Há quanto tempo já que te deixei,

Cais do lado de lá do meu destino!

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Que milhas de angústia no mar da saudade!

Que salgado pranto no convés da ausência!

Chegar.

Perder-te mais.

Outra orfandade,

Agora sem o amparo da inocência.

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Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!

Um purgatório em que o sofrimento

Nunca avista um dos céus apetecidos.

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Ah, desterro do rosto em cada face,

Tristeza dum regaço repartido!

Antes o desespero naufragasse

Ente o chão encontrado e o chão perdido.

*****

Claridade

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Clareou.

*

Vieram pombas e sol,

E de mistura com o sonho

Posou tudo num telhado...

Eu destas grades a ver

Desconfiado

***

Depois

Uma rapariga loura

(era loura)

num mirante

estendeu roupa num cordel:

roupa branca, remendada

que se via

que era de gente lavada,

e só por isso aquecia...

***

E não foi preciso mais:

Logo a alma

Clareou por sua vez.

Logo o coração parado

Bateu a grande pancada

Da vida com sol e pombas

E roupa branca, lavada.

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Miguel Torga/
(1907 -1995)

10 agosto 2007

3 poemas de Mário Cesariny

Passou ontem por isso só hoje publico.
O dia depois da dor é já dia de renascimento.
Três poemas de Cesariny:

Faz-me o favor...
*
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
*
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
*
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
****
Em todas as ruas te encontro
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
*****
*
voz numa pedra
*
*
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
***
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa
nenhuma
nada está escrito afinal

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Mário Cesariny

08 agosto 2007

com o olhar teces o caminho


com o olhar teces
o caminho
elaboras o caminhar.

pés descalços sentem
as agressões.

pedras, espinhos,
terra seca queimada
que queima a pele…
obstáculos todos eles
que desincentivam.

com o olhar, expressão

do ser, mudas
o mundo, o caminho e
o caminhar.

recrias a estrada.
azul, luminosa
infinita.


ao fundo, o mar.
ventre materno onde
podes repousar

e o caminho
sempre retomar.

31 julho 2007

responderam ao desafio das leituras de eleição

Lumife, de Alvito Baixo-Alentejo,
já de partida para umas merecidas férias, e deixou nos comentários as suas preferências que abaixo transcrevo:
«Leituras do meu agrado...?
De fugida porque vou de férias:

. Florbela Espanca

. Sophia de Mello Andersen

. Eugénio de Andrade

. Raúl de Carvalho

. Fialho de Almeida

. Eça de Queiroz

. Fernando Namora»

O Amaral, de laramablog, também respondeu à chamada e deixou-nos as suas preferências:

«7 leituras da minha eleição?

Dar-te-ei 7 autores de eleição, como o fizeste também, porque será mais abrangente.

Então:

na poesia, tenho um fraquinho por:

. Agostinho da Silva

. Florbela Espanca

. Sophia de Mello Breyner Andresen

Os outros quatro vou buscá-los aqui:

. Neale Donald Walsch

. Deepak Chopra

. Eckhart Tollee...

deixando meia dúzia de fora, ponho também

. Dan Brown »

Um outro amigo informou não poder responder de momento.

Aguardemos as respostas dos restantes que o queiram e possam fazer.Porque nesta época muitos amigos andam noutras paragens e com os olhos em algo mais colorido e vivo do que o ecrã do computador.

E aqui ficam mais algumas boas sugestões de leituras, não "para férias", mas para a vida. BOAS LEITURAS SEMPRE!

Boas férias para quem nelas navega por mares, terras ou serras....

27 julho 2007

Desafio e aceitação


(imagem da net - desconheço autoria - CLICA NA IMAGEM PARA A VERES MAIOR)
Respondendo ao desafio de Maria Mamede indico 7 (com batota, pois ao deixar o título em aberto multiplico as hipóteses, mas corresponde à vefdade do meu gosto-sentir) leituras da minha eleição (de muitas possíveis) começando pelos poetas que amo desde a puberdade e a quem continuo fiel os 2 primeiros, O Alexandre é já da adolescência/juventude):





  • Jacques Prévert (todo e qualquer livro)


  • Raúl de Carvalho (todo e qualquer livro)


  • Alexandre O'Neill - Poesia Completa


  • Anaïs Nim - Debaixo de uma redoma (mas podia ser qualquer um dos seus outros títulos)


  • A Morte de Virgílio - Bloch


  • António Lobo Antunes - qualquer um da última década


  • Shakespeare - qualquer uma das suas peças de teatro é um prazer total e uma lição igualmente total

E agora passo a continuidade das leituras de eleição a:
. meu amigo-quiçá-parente: http://alvito-baixoalentejo.blogspot.com/
. Amaral, de: http://amaralnascimento.blogspot.com/
. J.P.D de: http://melnofrasco.blogspot.com/
.Vera Cymbron de: http://sentidosocultos.blogspot.com/
. Joaquim António Godinho de: http://cronicadoplanalto.blogspot.com/
. Rúbens da Cunha de: http://www.casadeparagens.blogspot.com/
. LMF de: http://desculpeqqc.blogspot.com/


Pronto. Mais uma tarefa cumprida. E o dia chega ao fim.
Agora não me desiludam.
P.f. respondam.


20 julho 2007

Planeta líquido


As águas alagaram o mundo
são rios, mares, oceanos…

correm
entre os pontos cardeais

colidem entre si .
enormes massas liquidas
erguem-se. Montanhas
abatem-se, esmagadoras,
sobre a terra
já inexistente e subjugada.

E TODAS AS ÁGUAS IRROMPERAM DOS HUMANOS OLHOS


15 julho 2007

Ocorrência

Caminhava pelo meio da rua, deserta de veículos, para sentir o calor do sol, quando o sino bateu as doze badaladas.
Parei um pouco a olhar o azul lá longe, claro, cristalino, vibrante….
Segui.
Desaguei, toda eu água ou luz, na praça central da cidade, ponto de encontro, por norma povoada por grupos de homens estáticos como pombos na calçada, pela qual circulavam velozes raios luminosos tecendo linhas radiais no meio da imensa mole parada, descontraidamente vozeando e aguardando.

Deserta.
Para além de mim, deserta!
Nem gente, nem lojas abertas. As casas com portas e persianas cerradas.
Parei e respirei fundo.
Durmo e sonho,…,troquei as horas…
….às tantas o sino deu as doze badaladas da meia-noite….

Ergui a cabeça, toda ela, não só os olhos, para o alto.
Impossível. O céu continuava de um azul translúcido e vivo, claro e luminoso. O sol brilhava num céu imaculado.
Confusa percorri ruas e ruas na cidade. Todas desertas. Todas adormecidas.

Peguei no telemóvel e liguei à Ana João. O telefonou retiniu até quase à exaustão da minha paciência antes que ela, com voz ensonada e irada, atendesse despejando de rajada: “Oh mulher, mas o que é que queres a uma hora destas? Não sabes que me levanto às 06H00?”
Sobrepondo a minha voz à dela disse-lhe para ir até à janela, abri-la e
olhar para o céu….
Despejou um chorrilho de palavrões que lhe desconhecia, que não posso nem sei repetir, e ordenou-me, já aos gritos: “ vai mas é dormir que o teu mal é sono!”
E trás! Desligou-me na cara.
Não obedeci à intempestiva ordem e aqui permaneço.

Os cafés da praça deixavam sempre as mesas e as cadeiras montadas
a não ser que o mau tempo fosse de tal monta que tornasse impeditivo tal costume.
Mas não. Havia muitas mesas.
Todas vagas!
E inúmeras cadeiras que pareciam flutuar, boiar à deriva, na agora imensa praça deserta.

Sentei-me numa, à espera que a cidade acordasse e eu entendesse a ocorrência.

Ainda aqui aguardo.

12 julho 2007

ficcional - qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...


Trago novas e penso que, como eu, as acharão boas.

Depois de ler o saberão.

É um outro blog.



"ficcional
qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...



001
os corpos caminham descalços no areal. perto do mar refresca-se. o ar desacelera-nos. quente. sabe a sal. e o vento rodeia-nos num abraço. pura alegria de nos reencontrar na praia. há inocência na brisa. a respiração serena. os corpos descontraem. e o olhar descansa. por dentro. repousa no horizonte. no instante. há silêncio na rebentação das ondas, no vento a enrolar-se no cabelo, no riso das crianças, nas conversas ao longe. o silêncio desacelera-nos. por dentro. sereno. sabe a paz. e a luz rodeia-nos num abraço. pura alegria de nos sentir vivos. há inocência. no silêncio. o riso diz tudo.

os corpos caminham despertos pelas ruas. há cor em toda a parte. pinceladas de arco-íris. o ar sussurra-nos carícias. sem pressa. e o vento saúda-nos por entre a multidão. pura alegria de nos reconhecer na cidade. há inocência nos corações. a respiração desacelera. os corpos passeiam. e o olhar encanta-se. por dentro. redescobre a vida. no instante. há paz no ritmo do trânsito, no burburinho, no toque veloz dos corpos em movimento. a vida desacelera-nos. suavemente. e a luz rodeia-nos num abraço. pura alegria de nos acordar. há paz. o respirar diz tudo. existimos. simplesmente."
Texto: anaeugénio

04 julho 2007

é de fogo seu olhar

(imagem por TMara)
é de fogo seu olhar
brasa viva no lar

toque de alma
explosão de luz
cores e odores
notas musicais
melodia
vibrando o ar.

25 junho 2007

a rosa

Há, no cancioneiro tradicional Portugues - só conheço esta moda cantada no Alentejo, mas creio ser bem possível,

como com muitas outras quadras populares que,

com algumas variantes, ela seja cantada por todo o país.

É uma quadra de que muito gosto e cantarolo muito.

Aqui fica.
Sem voz.

Cada um pode emprestar-lhe a sua, por certo melhor do que a minha.

"A rosa depois de murcha

foi-se queixar ao jardim

o jardineiro lhe disse:

"tudo o que nasce tem fim."



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20 junho 2007

Cai a noite

(Foto por TMara - Jardim da Cordoaria)


Cai a noite.
A noite cai
mas fica suspensa
dos céus. Negro véu
de sombras e breves
clarões de luz
velando
o rosto do mundo
tal rosto de bela mulher
que o olhar desafia.

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13 junho 2007

A corte


Pintei este quadro em 1978, como poderão ver no detalhe ampliado da assinatura na imagem abaixo.
Quando o pintei pensei em todo o envolvimento, movimentos e deslocaçóes no ar, que uma corte assim, provocaria.
Curiosamente um amigo meu, de cada vez que o via, dava uma forte e sonora gargalhada de gaúdio, pois via nele uma representação dos nossos pólíticos a quererem... debicar-se uns aos outros.

E tu, caminhante que por aqui passas, que dizes?

O que vês?

11 junho 2007

memória para o futuro


lembro dois grandes portugueses que se foram: Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.

Á sua maneira cada um expressou e lutou - lutas muito distintas - o mundo que desejava, para si e para nós.

Creio que ambos gostariam de ver esta jovem e ouvir a sua mensagem.
Basta clicar na barra lateral no vídeo - está legendado e vale mesmo a pena dispender uns minutos e reflectir na mensagem que nos é passada e nas práticas com que enchemos o dia a dia.

É caso para dizer, com toda a propriedade, que o FUTURO nos pede contas!