15 dezembro 2005

Carta aberta à amiga AdryKa

A propósito do meu post anterior sobre a posição da igreja católica e a retirada de crucifixos das escolas, a Adryka deixou o comentário abaixo expressando o seu sentir, que respeito mas de que discordo.
Ia responder-lhe por email mas achei que o poderia fazer desta forma aberta a todos, ajudando a clarificar, pelo menos, o meu pensamento sobre a matéria.

«Lamento, muito que as escolas não ensinem ás criancas coisas tão importantes como a importancia de Deus na vida Delas, não falo de religiões, falo de Deus. A retirada dos crucifixos, só prova que são como pilátos fazer o que vos quizerdes.Um dia todos vamos pagar por isto, quanda as crianças de hoje um dia homens e mulheres, vos perguntarem porque me escondeste que Deus existia. Beijos - Adryka»

CARTA ABERTA À AMIGA ADRYKA
Minha querida
temos posições diferentes nesta matéria e, provavelmente noutras, mas em muitas outras temos posições coincidentes. Já deu para perceber isto no tempo de net e de leituras mútuas que fazemos.
Em primeiro lugar discordo de ti que devam ser as escolas a falar de Deus (sob qualquer forma que se pense). Essa é, desde o nascimento, uma função da família pela prática e pelos ensinamentos de conduta, regras e valores.
Faz, necessariamnete parte do processo de socialização primária a que cada um de nós é sujeito e, considero-a matéria do foro íntimo, num primeiro patamar da família no seu todo, em segundo lugar , de cada um de nós.
Num certo momento da vida os pais podem ou não desejar que os filhos sigam a religião que professam e orientam-no para as igrejas pretendidas onde, em conjunto com a família os ensinamentos continuam e lhes falam de Deus.
Não me assumo como católica (nem qualquer outra coisa), considero as religiões, pelo menos na forma que têm assumido, como dispensáveis, pois para nos ligarmos ao divino, a Deus não necessitamos de intermediários. Basta amar os outros, o mundo, a natureza, a vida e a nós mesmos e sentiremos a forte presença do divino amor incondicional, se quiseres, de Deus.
Já li a Bíblia mais do que uma vez. Considero-a uma leitura fascinante e rica e tenho-a em casa para, sempre que queira, a ela voltar.
A personagem de Jesus é uma figura guia na minha vida pois os seus ensinamentos são sábios para a vida e nosso percurso espiritual.
Pena que tão pouco seguidos sejam por muitos dos que se assumem, ou designam, como católicos praticantes. O respeito e a tolerância baseada no amor seriam muito maiores do que são e o mundo um melhor lugar...
As minhas três filhas não foram baptizadas, deixamos-lhes a liberdade de escolher a religião que pretendiam professar.
A minha filha mais velha, entre os 12- 14 anos foi aluna do colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, depois de eu ter tido uma longa conversa com a directora (Madre Superiora) explicando a posição familiar sobre a religião e a catequização.
Garantido o respeito pelos nosso princípos ela lá andou e, chegava a casa surpresa porque quando, nas aulas, lhes solicitavam redacções sobre condutas e modos de agir face a situações que lhes ilustravam, no final, depois de devidamente avaliadas e classificadas, a professora/Madre pedia-lhe sempre para ler á classe a redacção dela por ser a mais bem orientada no amor e respeito ao outro. Em suma, a que mais se proximava do ideal cristão perseguido.
Questionava-se ela porquê, se as colegas eram alunas do colégio desde a infância , onde tinham aulas de religião e moral, frequentavam a catequese e a Igreja, coisa que ela nunca fizera....
Falámos sobre o assunto e ela percebeu. Religião e moral não são a mesma coisa.
E regras morais tinha-as ela e tem, bem como as irmãs, de uma forma intensa e honesta que me fazem orgulhar imenso das pessoas que hoje são.
O exemplo é a maior e melhor escola e é na família que ela está.
Nós, a sua família não católica, nunca lhe escondemos Deus. Falamos-lhe muito de um algo divino que assume nomes diferentes, mas que essa variante é uma coisa cultural porque na essência é o mesmo e que vibra em nós num anseio de sermos melhores pessoas e alcançar níveis superiores de ligação.
Com os nossos humanos defeitos eramos (somos) pessoas honestas que viviam/vivem de acordo com o que pensam e que Jesus afinal tão bem exprimiu.
Se cada um não sentir a presença, a faúlha divina dentro de si, não são as igrejas, muito menos os crucifixos nas escolas que o vão despertar.
Uma confusão muito comum (infelizmente) é confundir religião com moral, valores, conduta e princípios.
Digo-te, não te sobressaltes pois a espiritualidade é uma sede e um fome do ser humano e cada um a perseguirá com as bases que as famílias e a comunidade informal, e só estas, lhes proporcionam desde o berço.
Beijos de luz e paz, amiga Adryca

14 dezembro 2005

Escolas e símbolos religiosos

O porta-voz da igreja católica foi racional e sensato.
Referiu ser a resultante de um aspecto cultural e não religioso; lembrou, aos distraídos, a separação da igreja e do estado pelo que nada de polémico encontraram na determinação de retirar os crucifixos das escolas.
Falou bem.
E eu aplaudi.
Prematuramente, conforme pude constatar.
A terminar o senhor remete para as escolas e professores a decisão de retirar ou manter os crucifixos.....
Ora quer isto dizer que a Igreja, através do seu porta-voz, entende que as normas, determinações e leis emanadas do estado português podem ou não ser seguidas segundo decisão de cada cidadão individual...
Comentários para quê?

Como dizia o fernando Peça: e esta hemmmmm?

P.S - nada tenho contra nem a favor. Quero dizer: não me incomodam mas sou seguramente a favor da retirada que já devia ter ocorrido há décadas.
Cultural e democraticamente temos que fazer a separação DAS igrejas do estado, já que vivemos num estado laico, ou então ser, intelectual e moralmente, honestos e colocar em todas as escolas símbolos de toda e qualquer religião existente no território nacional...
Creio que muitas não têm símbolos e, para além do mais, seria uma grande confusão tanto símbolo espalhado pelas paredes. Assim me parece .

11 dezembro 2005

Do Sorriso


Hoje dedico os meus posts à poesia de Jorge Castro, entre nós, neste mundo de convívio tecido entre a palavra e a imagem, sem a presença física, conhecido como ORCA do Sete Mares que há pouco tempo publicou o livro Contra a Corrente.
*
Do Sorriso
*
já alguma vez te disse
do quanto o teu sorriso me evoca a luz clara da madrugada?
*
não os poentes ocidentais
de amarelos pintados nas fachadas do casario
como gritos
mas a serena luz
clara e fria das manhãs
que nos sulca a face
com a temperatura azul de uma lágrima
e abre o peito à vida remoçada
*
entenderás agora
porque me afasto de ti
o justo espaço
do receio
de não caber dentro de mim
tanta luz
tanta ansiedade
este temor de romper
a solidão que me conforta?

10 dezembro 2005

Parto

Parto.
Com meus pés de areia e água
desbravo caminhos.
Refaço o corpo e o caminho.

Se é rugoso e áspero pouco importa.

Todo o caminho que se faz se torna dócil percurso

entre o sonhoe o desejo

manso correr de águas, macio pisar em folhas e musgos.

E assim sempre as areias e as águas que nos compõem se renovam. Caminhando....

P.S - porque hoje é sábado deixei

aqui fragmentos do meu pensamento. Passa por lá, espero-te.

09 dezembro 2005

Poema da mulher nova


Vejo-te no mundo que não para,
como um grande lenço rubro desfraldado.
Vejo-te em mim, quando me sinto massa
com milhões de braços e de pernas e uma cabeça de anjo.
Vejo-te na vida em marcha,
nas mãos estendidas.
Vejo-te em toda a vibração,
nas plantações cobertas de girassóis e de papoulas,
no topo dos tractores pulverizando a terra.
*
Vejo-te nua das sedas
com a boca rasgada numa canção de futuro
como um punho ameaçador à pestilência dos homens.
*
Vejo-te bela
com os cabelos ao vento,
em frente,
sem um talvez: perfeita.
*
Vejo-te mãe de milhões de homens novos,
de rosto calmo e olhos firmes,
através das labaredas e do fumo,
sem país e sem lar, a caminho da vida
- na descoberta constante.
*
Mário Dionísio

05 dezembro 2005

Entre o pulsar de duas respirações

Entre o pulsar de duas respirações a do nascimento e a da morte, morreu ao contrário.

Horas antes de nascer, 36 anos depois, uma das grandes vozes da poesia romântica portuguesa, também, de alguma forma, uma poeta maldita, remetida para uma poesis não considerada de 1ª água, decidiu terminar o seu viver, este breve voo de condor, de asas cortadas, ou quebradas, que ensaiou em êxtases de alegria e dor que nos legou.

Entre o pulsar de duas respirações,

a da vida e a da morte (não serão a mesma? O que as distingue?) viveu intensa e desesperadamente projectando-se para um infinito de emoções e sentimentos, vastos demais para o nosso burguês, hipócrita e provinciano mundo português.

Na passagem dos aniversários da morte (1º) e do nascimento (depois) deixo estes Haikus, como homenagem:



Haikus para FlorBela Espanca


Florbela Espanca
*
Charneca sem fim
possível medida da
excessiva alma.
*

FlorBela
*
Nasceu sob o signo
da imensidão. Do excesso.
Absoluto amor.

*
Florbela Espanca I
*
Mulher poeta
Alma sem limites. Voo
de águia pró além.

Recordando Florbela

1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa. 1930: a 7 de Dezembro Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida.

«"- As almas das poetisas são todas feitas de luz, como as dos astros: não ofuscam, iluminam...."

Quem é realmente Florbela?
Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo o ser é uma intersecção de adjectivações diferentes e até opostas, ensina-me, desde a juventude, o meu amigo Diogo de Sousa, que cursava Filosofia.


No caso da poetisa tem a particularidade de ser ela própria a evidenciá-lo, permanentemente e sem constrangimentos. Parafraseando António José Saraiva e Oscar Lopes na História da Literatura Portuguesa: estimula e antecede o "movimento de emancipação literária da mulher" que romperá "a frustração não só feminina como masculina, das nossas opressivas tradições patriarcais...."

Na sua escrita é notável, como dizem os mesmos mestres, "a intensidade de um transcendido erotismo feminino". Tabu até então, e ainda para além do seu tempo, em dizeres e escreveres femininos.»


Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A núvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca

03 dezembro 2005

Há muitos mundos


Dentro deste mundo físico, planeta que habitamos, há muitos mais mundos do que aquele que os nosssos sentidos (visão e não só) identificam e conhecem ou...reconhecem.
No nosso mundo social o mesmo se passa.
Há universos paralelos que nos escapam por inteiro.
Fazemos parte de uma tribo.
Com ela nos identificamos, por ela olhamos e vemos, aferindo pelos valores padrão da mesma. Tudo o que os nossos sentidos captam é filtrado por grossas lentes que, social e culturalmente, colocámos sobre os olhos, manto envolvendo a mente e obstruíndo a visão do espírito.
Construímos um mundo de barulho que nos agride e criou-se (alguém) o mito de que pessoas silenciosas, que falam baixo, que ouvem música baixo e que gostam de estar em silêncio são pessoas tristes.
O mesmo se passa com o estar-se só.
Associa-se, invariavelmente, o acto de estar só à solidão triste e acabrunhada, a um estado de espírito melancolico ou depressivo...
Prezo o meu espaço de solidão (comigo e com o mundo), prezo o silêncio. Gosto de ambos. Não temo nenhum pois são muito ricos e pacíficos.
Fernando Pessoa disse um dia: « Se te é impossível viver só, nasceste escravo» e eu concordo com ele.
E tu, que me lês?
*
P.S - Já deixei o meu contributo no ORGIA POLÍTICA

02 dezembro 2005

Palavras do contra

Estas são palavras do contra porque a nossa cultura ocidental chama, indiscriminadamente, preguiça, coisa má e feia, ao acto de parar, deixar de fazer algo que seja economicamente considerado útil.

Quando, parar é uma necessidade do ser humano. Parar e absorver a beleza, respirar e religar-se ao mundo, à natureza.

Pessoalmente sempre "parei". Volta e meia páro. Se o não fizer afogo-me, morro sufocada.
Necessito sentir o vento, molhar-me na chuva e nela caminhar sem destino, olhar a lua e as estrelas, parar para ver o pôr-do-sol e o nascer.
Parar a ouvir o diálogo do mar, dos amantes, o riso das crianças, o sussuro das árvores..., o som da água correndo solta e ciciando encantamentos...Parar para me ouvir.
*
«O trabalho nem sempre é necessário ao homem. Existem coisas como a sagrada ociosidade, cuja cultura é, agora, perigosamente negligenciada.»
George MacDonald (1824-1905)
*
«Se fores capaz de passar uma tarde perfeitamente inútil de uma forma perfeitamente inútil, aprendeste a viver.»
Lin Yutang (1895- 1976)
*
P.S -(Agora tenho estado meio parada, mas por razões de saude.
Porque o meu corpo se queixa e recusa agir, até escrever ou ler. Não tarda estou bem. Obrigada pela vossa companhia. Navegar por aqui, neste universo de imagens, sons e letras é uma outra forma de parar. Um tempo só nossso. De leituras e cumplicidades)

30 novembro 2005

Lembrando F. Pessoa


Desiludam-se os que pensam que este Pessoa, por ter sido feito em bronze, não fala.


Aquando da minha estada em Lisboa,há coisa de uma semana, estive lá, sentada com ele. Chovia.
Estranhou muito que ali me sentasse, debaixo de chuva e até esboçou um sorriso, não percebi bem se de simpatia se de comiseração, mas inclino-me mais para a primeira hipótese dado ter sido tão simpático e comunicativo.

A voz era baixa, sussurrada, ligeiramete rouca, mas ouvia-a com nitidez.
Não vou contar a nossa conversa, mas confesso que me surpreendi quando me perguntou pela Oféliazinha.
Embrulhei-me toda para responder, ciciando, que falecera há muito.
Aí sim, não tive, nem tenho dúvidas, riu-se (até no rir é comedido) e disse-me: «aí é que a minha querida senhora se engana. Vejo-a passar por aqui muitas vezes! Por vezes acena-me e sorri, inclinando levemente a cabeça. Junta os dedos da mão direita e envia-me um beijo, levando, de seguida, a mão ao coração!»
Enquanto assim falava, o cigarro, esquecido entre os dedos, lançava a custo, volutas de fumo contra a chuva que as tornavam ainda mais irreais. Pareceu-me perdido em pensamentos, memórias.... Fiquei calada, aguardando...
« ...Tem um tão belo sorriso a minha Oféliazinha....»

Perdeu-se na contemplação do sorriso recordado e tornado vivo enquanto o silêncio e a noite caíam sobre nós.
Levantei-me, toquei-lhe, ao de leve, no rosto e disse: "voltarei."
Esboçou um tímido e doce sorriso e disse-me: «Sempre que queira. É um prazer. Estarei aqui

Comecei a descer a rua. Por várias vezes parei a olhá-lo, mas ele já se abstraíra de mim.

Regressara ao silêncio do bronze,da ausência. Só, no frio da chuva e da noite.

29 novembro 2005

Quem somos, de onde vimos, para onde vamos?


Esta eterna e intemporal questão será, talvez, um dos grande motores da busca, da evolução do ser humano e expressa-se nas artes (todas elas, as pictóricas, as escritas, as musicais, etc) e na filosofia.
Todos buscamos conhecer a nossa natureza, a nossa mortalidade ou imortalidade, o sentido da existência. Da vibração que é a vida.
Muitos viram-se para as religiões,outros buscam caminhos pessoais.
Já andei por muitos caminhos,caminhei-os (física e intelectualmente) com determinação, firmeza e uma imensa ânsia
de perceber, de saber.... Continuarei buscando por toda a existência, sei-o, mas pessoalmente fui encontrando respostas, que para mim, são válidas.
Cheguei a elas mais por acontecimentos e experiências vivenciadas do que por qualquer outra forma, mas foi a abertura de espírito, conjugada com a vontade de perceber que foram determinantes.
Não tenho religião, pensando em algo organizado. Não acredito nelas nem as considero necessárias, mas respeito-as, leio sobre elas e respeito todas e todos que nelas baseiam a sua fé.
Porque afinal há coisas, e esta é uma delas, a que só se chega pela fé.

Acredito na bondade do universo, na sua unicidade, no amor incondicional e na nossa imortalidade, como pequenas parcelas deste todo energético que é a vida.Que cada um de nós é.

E, outro dia encontrei esta pérola (pelo menos para mim)!
Einstein, o sábio, o físico também reflectia sobre a existência espiritual e expressava o seu pensamento:

«O ser humano faz parte do todo a que chamamos universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Tem a experiência de si próprio, dos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto - uma espécie de ilusão óptica da sua consciência. Esta ilusão funciona como uma prisão para nós, que nos restringe aos nossos desejos pessoais e restringe a nossa afeição às poucas pessoas mais próximas de nós. A nossa missão é libertarmo-nos desta prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para abraçarmos todos os seres vivos e toda a natureza.»

in: WEISS, Brian L, M.D.(2005 - 5ª edição). A Divina Sabedoria dos Mestres. Lisboa: Editora Pergaminho (134)

25 novembro 2005

Há uma dor que me começa nos olhos


Há uma dor que me começa nos olhos, alastrando a todo o ser. ao corpo. à mente. à alma...

Cada vez mais esta dor me entra pelos olhos.
Na vida do dia a dia, na leitura dos jornais, no visionamento dos média...

A violência no mundo.

Sobre todos. Sobre países, povos, raças, etnias, minorias - orientação sexual, idosos, crianças e entre elas as mulheres.

A estranheza invade-me cada vez mais. É cada vez mais estranho e doloroso o olhar sobre o mundo.

Hoje, no dia Internacional da Luta Contra a Violência Sobre as Mulheres deixo à consideração este pequeno texto para que reflictamos em conjunto e aqui me deixem as vossa achegas.

As nascentes da violência

Li, há tempos, algo que me deixou maravilhada pelo respeito e amor implícitos.
Entre os índios Hopis* se numa aula um aluno interpelado pelo professor não soubesse responder à questão nenhum outro aluno levantava o braço para responder, destacando-se assim. Tal acto seria considerado incivilizado.

Sem nos apercebermos o próprio sistema de ensino inculca, desde os primórdios, a competição, o atropelo e a humilhação dos que não sabem, dos que se não enquadram no padrão.
É, em si, para além de um potencial gerador de violência futura, pelos valores que veicula e inculca (competição, passar por cima do outro, etc) um motor de exclusão a muito curto prazo.
As sementes da violência são também semeadas com esta (nossa) cultura.

Se queremos viver em harmonia temos que mudar as práticas, os actos do quotidiano.

Estes deverão ser marcadas pela gentileza, pela compreensão, pela não-violência, pelo respeito e pela dignidade.

Enquanto cidadãos anónimos, não dispondo de oportunidades para realizar grandes obras podemos sempre realizar pequenas obras, mas de uma grande maneira. Isto é, marcadas pelo amor incondicional que nos abranja, bem como a todos.

N.B -* Tribo nativa Americana . Ah, e aos sábados espero por vocês aqui. Até já:)

As cartas dos políticos ao Pai natal...

...e a desonestidade intelectual no blog de campanha de Cavaco Silva que reproduziu, como detentor da propriedade intelectual, a "carta de Mário Soares ao Pai Natal" esquecendo as restantes cartas, entre elas a do próprio C.S.
A totalidade das cartas foi escrita por Encandescente, do blog
: Erotismo na Cidade
e poderão aí ler (também) a observação que esta lhes deixou.
Aqui transcrevo duas delas, a 1ª a de C.S ao Pai Natal e a de M.S.
As restantes poderão lê-las
aqui

Carta ao Pai Natal - Aníbal Cavaco Silva

Excelentíssimo Senhor Doutor Pai Natal

Venho por esta via pedir para a minha
Maria O Kama Sutra, versão condensada.
Não sei se a minha Maria teria
Para a versão completa e ilustrada
Suficiente pedalada.Eu para mim
Por ora nada peço
E de momento nada digo
Não abdico do meu direito de manter o suspense
E de fazer tabu do meu posterior pedido.
Mas…. E só isto adianto
Não preciso de Viagra
Para acompanhar a minha Maria na leitura
Do acima citado livro
Que teso e hirto ando eu sempre
Não precisando por isso de muleta
Ou qualquer outro suplemento
Para manter a rigidez
E o meu porte sobranceiro.
Despeço-me atentamente economizando palavras
Porque como vossa Excelência sabe:
Os tempos são de crise e tempo é dinheiro.

Assina o Professor Doutor: Cavaco Silva

***********************************************************
Carta ao Pai Natal - Mário Soares

Pai Natal
Acordei agora da sesta. Tive um sonho original.
Conversei com a Maria
E achamos que não é sonho
Mas uma ideia genial!
Já fui ministro, primeiro-ministro
E duas vezes presidente deste país
Está na hora de mudar de ares
Aceitar novos desafios
Levar mais longe o nome de Portugal
Ou o meu nome… Como sempre quis.
Como tu tenho já uma certa idade
E no ventre a mesma proeminência
Decidi que para o ano quero ser o Pai Natal.
Portanto… Olha pá faz as malas.
Desocupa a Lapónia.Vou ser eu o Pai Natal.
Tem lá paciência.

Assinado: Mário Soares(Ex-deputado. Ex-Primeiro Ministro. Ex-Presidente da Republica. Ex-Deputado europeu. Futuro Pai Natal)

N.B _Ver as restantes no Balãozinho


23 novembro 2005

A propósito do que designamos: idade



Hoje, ao caminhar debaixo dos frescos pingos da chuva, descobri que o meu corpo é muito mais novo do que a minha alma.
Algo que no fundo sei há muito mas que me atingiu como uma epifania.


O corpo tem a idade cronológica que medeia entre o dia do nascimento, a saída do útero materno, e este em que penso e escrevo.
Pelos padrões correntes já passei a denominada meia-idade e estou parada num breve planalto a partir do qual começará a curva descendente da vida física.

A idade da alma, ou seja, a minha idade, essa é outra coisa.
Não pode ser contabilizada pelo padrão temporal que utilizamos. Não sei se teve um começo, nem quando foi, ou se sempre foi e será, como parte do cosmos.
Do começo nada sei, mas sei que é antiga e não terá fim. É imortal.

Assim percebo melhor o porquê desta leveza que me não fala em idades (nunca falou. Nunca foi uma preocupação minha. Nem quando as velas começaram a encher excessivamente o bolo e as filhas rindo diziam: qualquer dia tem que ser um daqueles em campo-de-futebol...), que me não proíbe de ir na rua saltitando, se a tal a vontade me incitar, ou de fazer qualquer outra coisa, ter uma atitude que socialmente é considerada apropriada numa jovem mas não numa mulher madura, mãe de família, avó...

Esta leveza com que olho as folhas que caiem, e esvoaçam no vento, ou o soltar o riso, mesmo que sozinha me encontre, se a ocasião o despertar.
A leveza da saltar sobre as pedras, de imaginariamente jogar à macaca num qualquer passeio que, pela estrutura do empedrado, me traga o jogo à memória, ou de fazer ou tomar qualquer atitude porque a alegria da vida a comanda.
Nunca dou por mim a avaliar se posso ou não, em função da idade.

E hoje tudo ficou mais claro quando compreendi esta verdade tão simples. O meu corpo é mais novo do que a minha alma. Só que esta é intemporal, não tem portanto idade e assim, dela me não lembro e ela me não coíbe.

(foto por Tmara- Quinta das Conchas, Lxª)

21 novembro 2005

Era branca como a luz a pomba


Era branca como a luz a pomba.
Entrou no quarto. Voou por todo
ele iluminando-o. Penetrou no meu
sono, no meu sonho. Habitou-o.
*
Diáfana, ilusória, intemporal,
mas doce e luminosa, a vida.
*
(do meu livro: O LUAR DA ESPERA)