31 outubro 2005

Rubrica: Discos Pedidos

EM TEMPO - recebi, via comentário/ANÓNIMO, a informação de que a autoria deste texto é de Millor Fernandez.
Como não sei, e...coisas anónimas são...estranhas, mas gosto do seu a seu dono aqui deixo a informação. (2007.02.15).
Se alguém poder conferir fico grata.
XXXXXXXXXX
Inicio hoje esta rubrica, a pedido de várias famílias: A, B e C...
Irá tendo continuidade à medida k os pedidos chegarem...ou não!
Boa "audição", tenham um muito bom dia e façam o favor de ser felizes
.
HISTÓRIA DE UM "QUOCIENTE APAIXONADO"

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...

Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua Uma vida Paralela a dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"
indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.
" E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs - Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos,
equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante
e três cones Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos. Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um
Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais
Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.

(Autor desconhecido -circula livremente por aí, na net!)

30 outubro 2005

A mulher continua a habitar a casa



O calendário indica que o ano se está a esgotar.
A mulher continua a habitar
a casa. A circular por ela.
A limpá-la, a abrir as janelas
para que o ar e o sol
a penetrem.


Senta-se, por vezes, ao sol,
nas varandas da casa.


Pega nos livros e lê.
Às vezes perde-se nos pensamentos.
Esquecidos os livros
nas mãos distraídas.


Descobriu, hoje, que o ano está
a chegar ao fim.
Uma certa estranheza invadiu-a.
Não se lembra do passar dos meses...,
não lembra quando foi à rua
pela última vez....Há já muito
tempo que não sai dos limites
da casa.


Lembrou-se ainda que o telefone
nunca toca. Nunca ninguém
telefona,
a saber dela, para falar com ela....
Em verdade também não
se tem lembrado de ligar
a ninguém....


Persiste-lhe a estranheza. Se
o ano se está a esgotar, se
se levanta, come, bebe, dorme
e habita dentro da casa, como é
possível fazê-lo durante tanto tempo
sem nunca sair à rua?
Sem que os amigos estranhem a sua
ausência e telefonem?


Não sabe explicar a estranha
situação.
Serena levanta-se da cadeira
que ocupa à secretária e vai sentar-se
na varanda, ao sol.


Sente frio.
Só se sente bem ao sol.
Habita a casa onde viveu, a mulher.


Desconhece que morreu.


Por TMara, do livro: FALAR MULHER:48-49

28 outubro 2005

IUPIIIII! Hoje é 6ª feira....

.... largo o..fato-de-trabalho,os sapatos de salto, a pasta, a mala, os problemas...

Digo-lhes que durmam todo o fim-de-semana e que nos veremos na segunda-feira e espero que, nos entretantos, no sono descansado se tenham resolvido de uma vez por todas e só apareçam para me dizer: " Olá, já não somos os problemas. somos as soluções!"

Dispo as tensões. Como cobra que muda de pele e renasce.
Largo o relógio logo ao entrar em casa.
Sorrio para o Sol que a habita e sento-me num banco de jardim debaixo de um majestoso cedro que nasceu no meio da sala...

Aspiro o perfume das flores e deixo qua as brisas me despenteiem...
Sorrio feliz e descuidada, alimento-me do ar, do sol e da ternura.

Assim me renovo para as novas batalhas do cansativo quotidiano que se repete inexorável, por onde se arrastam seres unifomes, amorfos, invertebrados e cinzentos, que mostram os dentes num esgar, pensando sorrir e assim enganar alguém que num equívoco os tome por humanos.

Abro as portas e as janelas, deixo entrar as marinhas brisas, as névoas e a luz solar bem como todos os amigos para os quais tenho lugar cativo no coração.

E então é sempre dia e também é sempre noite!
A chuva cai sobre as plantas ao nosso redor, mas evita-nos protegendo-nos.
Um imenso arco-íris cobre toda a sala lá no alto, circundando-a em chispas de luz colorida que nos alumiam.
Os pássaros volteiam delizando por ele como crianças num escorrega.
Cantam melodias de Beethoven e de Grieg e enchem o espaço de melodiosos trinados.
Não temos sono nem fome, pois assim nos alimentamos neste espaço de paz e luz onde a fraternidade e o sonho florescem.

27 outubro 2005

Os seres estranhos que nos habitam



Há seres estranhos que nos habitam.
Moram em nós que os ignoramos. Não deliberadamente, porque nem tomamos consciência da sua presença. Ignoramos-lhes a existência na nossa comum pressa de viver, na avidez de dominar a vida, o mundo, o tempo e, infelizmente, muitos de nós, os outros.

Mas esses estranhos seres que nos habitam encontram forma de comunicação e fazem-no bem na nossa frente, na nossa cara, com um descaramento inimaginável.
E, apesar de nos habitarem, nem sempre nos são leais. Atraiçoam-nos muitas vezes.

Habitam em todos os seres humanos. Possuem-nos. É uma invasão universal.
Talvez os primeiros alienígenas que em nós se instalaram.
Não é parasitismo. É uma simbiose. De tão perfeita esquecemo-la.

Estão bem dentro e diante de nós. Em perfeita simbiose com tudo o que vivemos, somos, sentimos e pensamos.
E, falam, falam...tantas vezes dizendo aos outros o que até de nós queremos esconder.


Abençoados sejam estes estranhos seres que nos habitam e que tantas vezes, de nós falam e dizem, aos outros, o melhor e o pior.

São estranhos seres que nos habitam.



As almas e os seus órgãos de comunicação exterior: os olhos.




26 outubro 2005

Era uma vez....

... um mundo onde havia um muro que dividia uma cidade.

Todos os habitantes desse mundo (menos uns quantos) se sentiam envergonhados e o muro começou a ser chamado "O muro da vergonha" e assim ficou na história.

Um belo ano o muro foi deitado abaixo.
Os cidadãos das duas metades da cidade dividida vieram para a rua ajudar a derrubá-lo e houve pessoas que viajaram de outros países para rejubilarem com tal e participarem activamente na demolição e poderem , um dia, emocionados, dizer aos filhos e aos netos: "eu estive lá".

Foi uma emoção que percorreu o planeta e os sorrisos rasgaram-se nos rostos.

Mas como não há um sem dois, eis que um país que se diz pacifista, não terrorista e democrático, paladino-afilhado dos campeões da democracia, da liberdade e da paz, ficou cheio de pena pela perda de um tal marco da qualidade moral e ética da humanidade e resolveu erguer outro.


Só que agora o silêncio é total, ninguém fala do "Muro da vergonha 2"!

O que nos vai valendo é a capacidade de ainda brincar que muitos dos cidadãos murados, isolados, espoliados, vão tendo.

Porque a liberdade vive enquanto houver um só homem que tenha esse sonho e seja livre no coração e no intelecto.

25 outubro 2005

Crónicas datadas -VIII

CRÓNICAS DATADAS -VIIINO CINTILAR DOS DIAS - 2001-08-01
_
“... os insensatos herdam a ignomínia.”
((Provérbios 3-4)

A partir de algumas notícias que me vão chegando. Do caricato ao doloroso...

1 _Um homem e o seu sonho:
Este homem sempre teve o sonho de voar. Alistou-se na Força Aérea dos E.U.A. mas por razões de visão foi reprovado. Tornou-se camionista mas o sonho não o deixava. Um dia pensou ter encontrado a solução. Para concretizar a sua ideia comprou 45 balões meteorológicos e várias botijas de hélio. Estes balões, quando cheios, têm 1,20 metros de diâmetro.
Chegado a casa iniciou os preparativos para o seu voo. Prendeu os balões à cadeira espreguiçadeira (de praia) e ancorou a cadeira no pára-choques do jipe. Encheu os balões com o hélio, embalou sandes e cervejas, carregou uma espingarda de pressão de ar, com o objectivo de a usar para rebentar os balões para a descida, sentou-se na cadeira, cortou as amarras e ....levantou voo.
Mal cortou as amarras saiu disparado e encontrou-se nos céus a uma altitude de 3.300 metros, o equivalente a 11.000 pés em vez dos 10 ou 20 metros que pretendia subir.
A esta altitude reflectiu que a pressão de ar não lhe tinha utilidade pois corria o risco de se esborrachar na superfície terrestre.
Ficou por lá, pairando mais de 14 horas, sem ter a mínima ideia de como descer.
Os ventos empurraram-no para o corredor de aproximação aérea do aeroporto de Los Angeles.
Um piloto, em aproximação, viu o homem e relatou o que vira. Ninguém na torre acreditou a não ser quando os radares começaram a indicar um objecto voador não identificado nas coordenadas fornecidas pelo piloto.
O salvamento foi muito complicado e, ao pisar terra, foi preso por violação do espaço aéreo restrito.

2 _Nós e a água:
A água, já designada como o “ouro azul”, poderá tornar-se na maior fonte de conflitos no sec. XXI.
Em 1990 a sua falta afectava 300 milhões de seres humanos. Segundo a ONU, em 2025 (já só faltam 24 anitos...) três mil milhões de pessoas estarão sem água.
O corpo humano tem, na sua composição, mais de 75% de água. Podemos sobreviver várias semanas sem comer mas sem beber morreremos ao fim de três dias.
O que gastamos?
Autoclismo (por descarga):10 a 15 litros; banho de imersão: 150 a 200 l; duche: 20 a 80 l
[1]; lavagem dos dentes: 2 a 18 l1; máquina de lavar roupa: 60 a 90 l; máquina de lavar louça: 18 a 30 l; torneira a pingar: 170 litros/ mês.
Um habitante das regiões semi-áridas de África necessita, por dia de 10 a 15 litros.
3 _ Bilhetes para concerto de Madonna em troca de sexo:
Um grupo de jornalistas da edição on-line da revista alemã «Thema 1» disponibilizou 16 entradas gratuitas para um concerto de Madonna, cuja lotação havia esgotado mal foi posta à venda, em troca de sexo com os seus repórteres.
Até à altura que verifiquei (15.06.2001) existiam 22 candidatos para trocarem uma noite de sexo com 4 jornalistas, (3 homens e uma mulher), por um bilhete para assistirem ao concerto
Palavras ou comentários para quê?


[1] Conforme deixamos a torneira SEMPRE aberta ou não.

P.S -Passem no BALÃOZINHO para uma saudável gargalhada.


23 outubro 2005

Nostalgia (3ª e útima parte)


Posted by Picasa O que nunca se perdeu foi essa memória e a gratidão por termos vivido um tal amor, pois sei que é raro.
Que poucas pessoas tiveram, viveram ou sequer reconheceram um tal amor que por elas tenha, eventualmente, passado....


Calou-se olhando-me. Tinha os olhos húmidos. Das brisas marinhas, digo eu.
Laconicamente respondi-lhe: “compreendo-te”, esboçando um esvoaçante gesto de ternura na sua face o qual, acidentalmente, espalhou a humidade que se lhe colara ao rosto.

Sorrimos. Demo-nos um breve, cúmplice e terno toque com as mãos, olhámos o céu e ambas dissemos: «É melhor ir! Vem aí chuva grossa!»
Voltamos a sorrir agora mais soltas do que segundos antes...Soltas pelo estribilho e sua simultaneidade.
Levantámo-nos, caminhámos juntas um troço do percurso de retorno, demos um apertado abraço e cada uma regressou a casa.
Ao caminhar, agora já só, ouvia ainda o murmúrio da voz dela, ao abraçar-me, dizendo-me ao ouvido. Sabes, optei por vir morar para o Porto por tu cá estares.

Quando nos despedimos podia ter-lhe dito – eu também sinto essa saudade de vez em quando, mas não o disse porque entre nós não era preciso verbalizar certas coisas, pensamentos ou emoções.


Conhecíamo-nos muito bem. A amizade e a cumplicidade estavam lá. Intactas. Fazendo parte de nós. Tornando-nos nas pessoas que éramos.

22 outubro 2005

Nostalgia (parte 2)


Sabes..., olhou-me mais insistentemente tocando-me as mãos..., dentro de mim, tomando forma e soltando-se. Um grito de alerta e desejo.
O desejo por uns olhos que ao olharem-me sorrissem sempre, incondicionalmente, só porque me viam e eram retribuídos com idêntico olhar. Expressando muita alegria e contentamento por existirmos e nos termos encontrado...


Um silêncio caiu entre nós. Pensei em falar, mas olhando Maria Clara, vendo uma dor funda espelhada no olhar, calei e limitei-me a deixar cair um lacónico: sim!
Foi uma pausa prolongada em que cada uma caiu nas suas recordações, atentas no entanto.

-
Mas houve um temporal, ciclone, tufão, tromba de água, espiral de loucura, que tudo arrasou.
O que era perfeito estilhaçou-se. Tentámos, penso que sim, olhou-me como quem busca anuimento, mas dele não necessitando, penso que cada um de nós tentou, a seu modo, apanhar os milhões de fragmentos e restaurar, recuperar, reconstruir...
Só que depois do temporal, vendaval, maremoto, tsunami, já não éramos os mesmos...

Com as mãos ansiosas, mas deserdadas de olhares de ternura, de afagos, tentámos a reconstrução. Tentámos e falhámos. Durante anos tentámos....até ao limite! Tu sabes!
Até ao ponto em que cada um de nós se tornou, interiormente, um vulcão, vivo, dorido, agitado, onde se moviam magmas sem escape, e cada vez mais nos apartavam e feriam mutuamente.
Inexoravelmente, já não dois seres amantes mas ilhas, vulcões doridos com as entranhas a arder, a alma eruptiva, magoada e distante, sempre mais e mais distantes do universo de perfeito equilíbrio que era o nosso, que construíramos e habitáramos.
Continuou,... um tempo de loucura e dor, lembras-te?
Agora foi-se. Tudo se foi menos a memória de um amor-mais-que-perfeito que um dia, como tudo o que é perfeito e o mundo não consente, se estilhaçou, murchou, morreu...

(continua)

Hoje

passa o aniversário de nascimento de meu pai que partiu há décadas.

Estejas onde estiveres, estarás sempre no meu coração.

Obrigada por tudo, pai.

POST SCRIPTUM - O Art Of Love chamou-me, e muito bem, a atenção para o facto de estar adiantada no tempo. De facto acelerei os dias, sem me aperceber. Postei a 21, pensando ser 22. Assim fica então, pois que no meu coração era já, 22 de Outubro.

20 outubro 2005

Nostalgia (parte I)


Hoje, ao passear na marginal, encontrei Maria Clara.
Não nos víamos há uns dez anos. Razões profissionais levaram cada uma de nós para seu lado.
Mantivemos contacto esporádico, mas regular, nas datas que nos eram significativas.
Agora ela estava de volta a Portugal. Reformara-se e decidira regressar.
Ainda me não telefonara pelo que foi acidentalmente que nos encontrámos. Ou talvez não...
Continuámos a caminhar juntas e depois de arrumadas as novidades ficámos em silêncio.
Assim caminhámos até que decidimos sentar numa esplanada e beber algo.

O dia escurecia. A manhã, que nascera luminosa, apresentava-se agora carregada com raras nuvens pesadas, grávidas da desejada chuva.

Depois de bebermos o café e enquanto acendia um cigarro, Maria Clara começou a falar num tom baixo, intimista.
- Sabes, disse-me ela, quando deambulo pela cidade vejo-os. Os pares de enamorados. Constato (nota que é uma observação empírica que vale o que vale) que são menos do que há uns anos atrás. Procuro razões e concluo que uma das mais importantes, senão a mais importante, será a liberdade sexual entre os jovens, consentida muitas vezes nas próprias casas, bem como a existência de múltiplos locais de recriação e convívio na noite permitindo dar vazão às pulsões da libido de uma forma inimaginável na nossa juventude...

Concordei, acrescentando não necessitarmos recuar tantos anos. Percebi que me ouvira mas o fio do raciocínio impunha-se-lhe:
-
Estarão mais realizados e as expressões exteriores e públicas de ternura, enamoramento e paixão, ficam assim mais diluídas porque expressas no resguardo dos seus próprios espaços?
Ou, haverá mais sexo e menos romantismo?
Francamente não sei e espero que a resposta esteja por aqui, na primeira hipótese! O facto é que quando vejo um par enamorado trocando olhares, partilhando falas e silêncios, nelas e neles se envolvendo, criando um espaço único, bolha de paz plena de amor, sorrio. De puro deleite.

Olhou-me com um sorriso aberto e cúmplice. Ambas sorrimos, e ela continuou:
-
Não me lembro de ficar nostálgica.
Mas fiquei-o hoje ao ler um pequeno texto sobre um casal que se olhava e tocava com subtis gestos eivados de ternura, com ternura tecidos.

Senti uma infinita saudade, espiritual e física. Chegou a doer!
De tal forma me doeu que em mim se instalou e ficou!


(continua)

19 outubro 2005

Espólio

ESPÓLIO

É nos bolsos que cabe o que nós somos.
Levamos tudo logo pela manhã,
são remorsos junto de laranjas,
são recados tristíssimos, romances.

Lâminas enferrujadas e romãs
longínquas romãs e efemérides,
garras rasgando os rins,
venenos subtis e laços desatados.

É nos bolsos que somos
lembranças, compromissos
e mãos que se arreceiam,
molhadas de experiência.

Maio sob papéis, manchas de tinta,
algum cotão e fósforos,
~um telegrama velho, uma moeda,
um pouco de alegria misturada a tabaco.

Navarro, António Rebordão (2005).LONGÍNQUAS ROMÃS e alguns animais humildes. ANTOLOGIA.Selecção e prefácio de Francisco Duarte Mangas. Porto: ASA (34)

17 outubro 2005

Fascinação


O fascínio de uma página em branco. Branca. Intocada. Inexpugnável.
O fascínio de uma praia, de madrugada, sem pegadas. Virgem.
O fascínio do primeiro amor. Das fortes emoções e sensações. A descoberta de tudo, Aida virgem. Inesquecível.
O fascínio de vigiar o roteiro estelar na abóbada celeste e aguardar até um novo nascer do Sol. Um Sol novo. Intocado do olhar. Esplendoroso.
O fascínio de mergulhar nua no mar e sentira suave e forte carícia das águas em cada milímetro de pele. Do corpo. Excitante.
O fascínio do ribombar do mar, ecoando em todas as cavernas do corpo, marcando o bombear do sangue, o seu pulsar. Vibrante.


O fascínio de saber que, dentro de nós, uma nova vida, um novo ser, começa a formar-se. Avassalador.
O fascínio de ver o corpo crescer, alargar-se em afagos à nova vida que geramos. Perturbador.
O fascínio do nascimento. Divino.
O fascínio do primeiro olhar de reconhecimento do nosso rosto pelos filhos. Alegria. Maravilhamento.
O fascínio do primeiro sorriso de um filho, ao ouvir a nossa voz, ao ver o nosso rosto. Alegria sempre renovada. Extasiante.
O fascínio da gravidez de uma filha. Menina-mulher-mãe. Avassalador.
O fascínio de ver os filhos crescer. Amadurecer. Nossos pares. Inexplicável.
O fascínio de ver uma criança, qualquer criança, sorrir feliz, correr descalça na areia, chapinhar nas águas. Eterno.
O fascínio de sermos capazes de amar e de assim nos renovarmos. Pura magia. Mágico.

O fascínio de caminhar pelas dunas e, súbito, todo o som se desvanecer, se diluir, desaparecer, ficando um silêncio único. Sólido e total. Inesquecível.
O fascínio de montar guarda à Lua e vê-la emergir, imensa e plena, na noite escura. Sedução.
O fascínio do mudar das Estações. Intemporal.
O fascínio.....
O fascínio de envelhecer. Inebriante.


O fascínio de viver. Puro encantamento. Imperdível.

*****

P.S -deixei-vos um poema no Balãozinho

15 outubro 2005

Longínquas madrugadas

Em lonqínquas madrugadas amei o teu corpo. Ou devo dizer: os nossos corpos amaram-se?
No leve despertar do último sono o toque da pele nua.
A vibração rútila do sangue percorrendo-nos até à alma.
Invocando, convocando o acto físico de amar em que nos transcendíamos fundindo corpos e almas num só, numa só.
Nós, um só, iluminando a vida e assim a saudando.

Crónicas Datadas VII

CRÓNICAS DATADAS -VII

NO CINTILAR DOS DIAS -2001-06-11

Tenho pena de não saber cantar ao desafio.
Improvisando no momento, no fluir do pensamento e no desafio de quem comigo cantasse.
O mote seria: solidariedade.

O que quer que seja.
O que quer que signifique.
Há anos dizia-se, a propósito de outra matéria: “ não lhe gastem o nome”.
A solidariedade, enquanto sentimento expresso em movimento que nos leva à entreajuda, continua viva mas corre riscos de defuntar se as classes política e empresarial continuarem a delapidá-la num esbanjamento vazio de sentido na praça pública.
Ao longo da minha vida tenho observado um fenómeno que considero interessante.
O dito fenómeno apresenta duas vertentes e sob elas pode incidir a nossa observação.
A 1ª consiste na existência de um problema ou défice (por norma gigantesco, fora de controle e considerado como incontrolável) nas respostas sociais por parte do estado e
este passar a responsabilidade da recuperação dessas rupturas para os cidadãos, então designados como sociedade civil.
O facto de se passar a falar em sociedade civil dá-nos um peso que o mero estatuto de cidadãos não permite e arrasta consigo uma ideia de colectivo, informado e organizado em torno de objectivos comuns, que muitas vezes não é real, pois que surge à posteriori, para tentar dar expressão aos interesses do próprio estado nessa forma de solidariedade( eis que cheguei ao que foi e é central no meu pensamento desde o início ).

A 2ª vertente, também ela associada a um possível défice, tem a ver com o uso indiscriminado e exaustivo da palavra que o designa. No caso presente: a solidariedade.
Quanto menos existe de um “bem” mais se lhe refere a designação.
Na ausência da prática, a saturação pela palavra.
Poderão argumentar que nunca Portugal teve tantos movimentos de solidariedade; tantas instituições particulares com fins não lucrativos que assumem como objectivo último a prestação de serviços de uma forma solidária; nunca entre nós, os movimentos de voluntariado alcançaram uma tão grande expressão.
Poderão argumentar tudo isso e, sendo embora verdadeiro, devemos olhar para além da “peneira” e ver o todo sem qualquer filtro.
Pensar na génese desses movimentos; no movimento politicamente correcto que lhe vem tantas vezes acoplado e, por fim, em como fica bem no currículo de tantos.

Não expresso nenhuma desvalorização sobre os movimentos de solidariedade; não detenho uma atitude cínica sobre o ser humano e a sua real e efectiva capacidade de se mobilizar em função do outro.
O que me irrita é a apropriação da ideia, do princípio, por quem o não sendo se arroga como arauto da mensagem.
Olhemo-nos bem nos olhos; olhemos bem nos olhos o nosso governo ou desgoverno e, no recesso do nosso pensar e sentir (sim do sentir, já que a solidariedade nasce do e com sentimento), respondamos à seguinte questão: será o Estado, de facto, um Estado Solidário?
Que políticas configuram a solidariedade do Estado para com os cidadãos?
****
**
*
P.S - há 6 cachorrinhos lindos, Golden Retriever para dar. Vejam-nos em
Ahhhhhhh, hoje foi o meu dia de postar no ORGIA



14 outubro 2005

Textos recuperados - I


TEXTOS RECUPERADOS - I
Os símbolos dos dias inserem-se nas falas

É nas falas que se inserem os símbolos dos dias.
*
Deveríamos estar-lhes mais atentos.
Escorrem nas conversas de café, nas conversas ao telemóvel, nos chats, talvez também nos blogues e, principalmente, nas mensagens SMS.
Falas que se inscrevem em conversas sem peias, sem grandes níveis de censura, sem controlo, porque tudo navega no imponderável, no informal, no convívio companheiro e também na ausência do outro, quando não: falas de "outros", ficcionados por eles mesmos - alter egos criados virtualmente? Os símbolos acompanham-nos, mas cegámo-nos para eles.
Em nome da racionalidade e do pragmatismo auto-mutilámo-nos.
*
É preciso voltar a procurar essa parte e deixarmo-nos invadir por ela, abrir as portas da emoção (contida) e olhar para ver; escutar para ouvir e, já agora, olhar também para o mundo ao redor e para os céus.
Olhar as estrelas e a lua, de dia ver o sol e senti-lo.
Deixar o vento passear o nosso corpo e apreciá-lo.
Podemos começar por aqui e deixar a emoção reconstituir-nos.
Não se esqueçam que agora o QE (quociente emocional) destronou o QI.
Estamos todos sancionados pela ciência o que, neste caso, é uma boa coisa.
Aproveitemos a noite e olhemos a lua que está magnífica e...com um crescente fabuloso.
Mas o exercício final, o objectivo último, é o de despertarmos para os outros nas suas diferenças e idiossincrasias, riqueza da humanidade - nos seus gestos de ternura, nos gritos de socorro, tantas vezes ignorados.
Bora lá ouvir os sinais dos dias que se inserem nas falas dos nossos múltiplos quotidianos.

13 outubro 2005

Porque precisamos rir....

I
SE NÃO FOSSEM OS ALENTEJANOS (o k me orgulho de ser) ................


« Me querido filho,
Escrevo devagar por que sei que nao gostas de ler depressa.
Se receberes esta carta, e porque chegou. Se ela nao chegar, avisa-me que eu mando-te outra.
Te pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1km de casa. Assim, mudamo-nos para mais longe.
Sobre o casaco que querias, o te tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botoes de ferro que pesam muito. Assim arranquei os botoes e puse-os no bolso.
Quando chegar ai, prega-os de novo.
No outro dia, houve uma explosao na botija de gas aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e sai-mos fora de casa. Foi a primeira vez em muitos anos que o te pai e eu saimos juntos.
Sobre o nosso cao, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Na semana passada, o medico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O te pai ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irma Maria vai ser mae, mas ainda nao sabemos se e menino ou menina, portanto na sei se vais ser tio ou tia.
O te irmao Antonio deu-me muito trabalho hoje. Fechou o carro e deixou as chaves la dentro. Tive que ir a casa, pegar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de comecar a chuva, pois a capota estava em baixo.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembrancas. Se nao a vires, nao digas nada.
Tua Mae,
Maria
PS: Era para te mandar os 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei ja tinha fechado o envelope.»
II
Alentejanos no Ballet
« Maria e Manuel vão ao Teatro Municipal assistir ao bailado "O Lago dos Cisnes".
Maria, cansada após um longo dia de trabalho, dorme profundamente durante a maior parte do espectáculo.
Acorda sem graça, e pergunta ao marido:
- Manel, deixê-me dormiri. Será que alguêm da platêa arreparô?
Responde o Manuel:
- Da platêa nã sêi, mas todas as artistas sim, pois há que horas que caminham na pontinha dos pééis p'ra nã t'acordari...»
III
A terminar, ainda no rescaldo das eleições autárquicas, uma política:´

«Um presidente de Câmara está andando tranqüilamente quando é atropelado e morre.
A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada.
Bem-vindo ao Paraíso!"; diz São Pedro
Antes que você entre, há um problema.
Raramente vemos políticos por aqui, sabe, então não sabemos bem o que fazer com você.
« Não vejo problema, é só me deixar entrar", diz o antigo presidente
Eu bem que gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o
seguinte:
-Você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso. Aí, pode escolher onde
quer passar a eternidade.
Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso diz o ex-presidente.
« Desculpe, mas temos as nossas regras."
Assim, São Pedro o acompanha até o elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno.
A porta se abre e ele se vê no meio de um lindo campo de golfe.
Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os quais havia trabalhado.
Todos muito felizes em traje social.
Ele é cumprimentado, abraçado e eles começam a falar sobre os bons tempos em que ficaram ricos às custas do povo.
Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar.
Quem também está presente é o diabo, um cara muito amigável que passa o tempo todo dançando e contando piadas.
Eles se divertem tanto que, antes que ele perceba, já é hora de ir embora.
Todos se despedem dele com abraços e acenam enquanto o elevador sobe.
Ele sobe, sobe, sobe e a porta se abre outra vez. São Pedro está esperando por ele.
Agora é a vez de visitar o Paraíso.
Ele passa 24 horas junto a um grupo de almas contentes que andam de nuvem em nuvem, tocando harpas e cantando.
Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro retorna.
« E aí ? Você passou um dia no Inferno e um dia no Paraíso.
Agora escolha a sua casa eterna." Ele pensa um minuto e responde:
« Olha, eu nunca pensei ... O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar melhor no Inferno."
Então São Pedro o leva de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno.
A porta abre e ele se vê no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo.
Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos.
O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo ombro do ex-presidente .
« Não estou entendendo", - gagueja o presidente - "Ontem mesmo eu estive aqui e tinha um campo de golfe,
um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e divertimo-nos o tempo todo.
Agora só vejo esse fim de mundo de lixo e meus amigos arrasados!!!"
O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz:


Ontem estávamos em campanha. Agora, já conseguimos o seu voto..."



P.S - se quiserem "saber" qual a vossa qualidade secreta passem no