12 outubro 2005

Um poema de Victor Hugo


(Um poema de VICTOR HUGO)

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
*
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconsequentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar.
*
E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exacta para que
Algumas vezes você se interpele
*
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo
Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
*
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante
*
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros
*
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
*

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.
*
Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada
*
Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore
*
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem
*
Desejo também
Que nenhum de seus afectos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar
*
Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
*
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar
Victor Hugo

11 outubro 2005

O dia amanheceu turbulento


O DIA AMANHECEU TURBULENTO

Inexplicavelmente o dia amanheceu-me turbulento.
Nada aconteceu que o possa explicar.
Dentro de mim é que há a turbulência, estendendo-se ao dia que, então, me parece invernoso, agreste, quiçá árido.
Estados de espírito que tendemos a racionalizar imputando-os a factores exteriores como por exemplo: a chuva, o dia de cinza, o vento agreste e frio....quando é de nós que essas impressões subjectivas partem e colamo-las às coisas como fatalistas etiquetas.
Assim sendo, para que o estado de espírito não se cole (mais) à escrita deixo-vos com um pequeno poema:
*
As palavras parecem--me
sem peso e sem sentido.
*
Melhor é calá-las
o sonho é já vivido.

(Do livro: AS TAREFAS TRANSPARENTES)
*
Post scriptum: Para quem desconhece, ou não lembra Luis Veiga Leitão deixei-vos 3 poemas dele no balãozinho

10 outubro 2005

Misteriosos fluxos de alma(s)


MISTERIOSOS FLUXOS DE ALMA(S)

Há, entre nós e a vida, um misterioso e mágico movimento de retorno.
Nos locais e momentos mais inesperados encontramos pessoas que irão desempenhar um papel determinante no nosso crescimento enquanto seres humanos, o mesmo se passando com os livros.

A coincidência e o acaso não existem.
Há corrente e tensões, fluxos de energia, quer de atracção quer de retracção, que aproximam ou afastam de nós, tanto pessoas como coisas/livros, por estarmos ou não «preparados» para os ler.
Isto é, para, ao descodificá-los nos descodificarmos e ganharmos mais uma pequena parcela no caminho do auto-conhecimento em direcção à fonte.
E falo, talvez, dos nossos fugazes encontros e/ou desencontros.
Das emoções, positivas e negativas, de que tu não falas (nem tens que o fazer).
Tenho pena (apesar de não valer a pena ter pena) de não termos passado mais tempo juntos.
Será porque este não é o tempo de ou para estarmos juntos?

09 outubro 2005

Conhecem?



Os paraísos artificiais
*
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
*
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
*
O cântico das aves — não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
*
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
*
A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
*
(Jorge de Sena)

07 outubro 2005

Dos sentimentos e tudo o mais encadeado nas palavras

DOS SENTIMENTOS E TUDO O MAIS ENCADEADO NAS PALAVRAS

...e o medo de falar.
Ainda mais o de escrever.
E no entanto o gesto suicida
de jogar para o papel os sentimentos
sem rever.
Porque afinal os sentimentos
não se podem rever e ajeitar.
O peso das palavras, do que digo,
que os outros me devolvem como um fardo
e porque o medo surge donde não espero
e eu hesito, se mando ou não,
se vai doer algures
e eu.... não quero
busco saber como se sente o outro.
E num gesto que é já revolta
meto tudo e mando.
Porque se não sei
que estranho mal ando espalhando
se não sei onde firo e sangro
então, melhor é deixar correr a voz que fala
e não sei donde vem,
pois as consequências não alcanço.
Mas porque o medo existe, eu falo.
Agora de mim falando, tentando
que as palavras façam sentido e eu perceba
porque tanto perigo há em falar
dizendo o que sinto, como em calar...
E assim busco
nestes pássaros loucos que voando sussuram
um som estranho
que ninguém entende.

Nem eu, que os solto, em bando!

06 outubro 2005

Texto de um candidato a emprego

Posted by PicasaO texto que se segue foi escrito por um candidato numa selecção de Pessoal na Volkswagen.
A pessoa foi aceite e seu texto está a fazer furor na Internet, pela criatividade e sensibilidade.

«Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.

Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atras da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sob o chuveiro até fazer chichi. Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo caminhando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro. Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer.

Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma arvore para roubar fruta, ja caí por uma escada. Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi de minha casa para sempre e voltei no instante seguinte.

Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única. Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei na piscina e não quis sair mais, já tomei whisky até sentir meus lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.

Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar. Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas era um "para sempre" pela metade.

Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e que a vida é um ir e vir permanente.

Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração... Agora, um questionario pergunta-me, grita-me desde o papel: " - Qual é a sua experiência?" Essa pergunta fez eco no meu cérebro. "Experiência.... "Experiência... " Sera que cultivar sorrisos é experiência? Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionario: " - Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova?»

Post scriptum: no sábado dia 8, vai até à Cooperativa Árvore.
Vai valer a ida. Queres saber mais?Espreita aqui

05 outubro 2005

Busca do equilíbrio interior

Na busca do equilíbrio, da paz interior e da alegria procuramos no outro o que só está em nós.
Procuramos o amor ideal...
O par ideal...
A alma gémea que nos vai completar e...proteger!
Enganamo-nos a nós mesmos ao encetar uma busca com este sentido.
Partindo para uma relação com estas expectativas abrimos caminho à decepção, arriscamo-nos a destruir a relação e tudo o que de bom comporta.
O OUTRO não é um bordão onde nos amparamos. É um par, um amigo/a.
Eventualmente todos fazemos de bordão, mas isso é, deve ser, transitório.
Tudo o que buscamos no outro está em nós.
Na vida tudo é temporário. A única coisa que é eterna é a relação connosco mesmos.
Procurando dentro de nós a fonte do amor, a luz e a força, encontraremos o que buscamos e poderemos amar mais e melhor ao outro.
Aos outros.
A vida, na sua totalidade.
{Escrevo este post/reflexão a propósito de muitos textos (prosa e poemas) que leio, por aqui e por ali, em que a felicidade de quem os escreve parece estar sempre dependente de outrém.
Se a minha reflexão servir para algo aqui a deixo, com carinho.}
P.S - passem pelo meu Balãozinho deixei lá uma coisa que vale a pena ver.
2
Esqueci! Ontem foi o dia dos animais!!!

04 outubro 2005

CÓNICAS DATADAS VI

Posted by Picasa NO CINTILAR DOS DIAS -2002-04-21
“Terror –s.m. (do lat. Terror,-õris).
1.Grande medo,pavor”.
“Terrorismo –s.m. (De terror + suf. -ismo)”


As situações 1 e 2, aqui descritas, são verdadeiras e testemunhadas por pessoas amigas.
A última é pública e bem divulgada nos mídia!

1 _Uma jovem recém licenciada, casou-se.
A despedida de solteira, que queria fazer mas que encontrava sempre mil entraves, acabou por se realizar com o empenho de duas amigas e colegas.


Foi uma despedida de solteira a três vozes. Somente a três vozes.

A da noiva e a das duas amigas que não lhe deixaram esmorecer esse sonho. O jovem casal tinha em construção a futura casa.
Avaliando a divisão do espaço o noivo deixou cair: “preocupa-te com a cozinha e com a copa pois é aí que vais passar o teu tempo. O “canudo” bem o podes meter na gaveta”.
A despedida de solteira foi restrita (eufemismo) porque o noivo não autorizou o alargamento a outras e outros amigos e, na vida pós casamento, tem desenvolvido uma política sistemática de isolamento da mulher.
Todas as amigas constataram que perto do noivo ela ficava constrangida. Mais, tensa. Não era ela própria. Ficava num estado de letargia nervosa aguardando sinais dele que lhe permitissem... respirar, falar, rir.
Já é mãe!
De facto o canudo está na gaveta. Esta jovem é infeliz (diz quem a conhece e observa as suas atitudes e comportamentos) e ainda o não sabe ou pensa poder reverter a situação.


2 _ Uma jovem de 15 anos namora. Um dia tem relações sexuais com o namorado. Um acto que deveria ser de beleza torna-se um pesadelo. O namorado usa-a como uma coisa, mas não uma coisa qualquer: uma coisa sem qualquer valor. Passa a escravizá-la para obter tudo o que quer dela (sexo e dinheiro) não se coibindo, inclusive, de a maltratar fisicamente, sempre que lhe apetece, sob a coacção de: “ ou vens já ou telefono aos teus pais a contar que tivemos sexo”


3 _ Um povo com armamento e tropas super especializadas oprime outro (décadas a fio), o qual só pode manter o seu auto-respeito, não vergando a cabeça, mandando os seus filhos armadilhados para a morte.
Os segundos são terroristas. Os primeiros, que detêm um enorme poderio bélico e destroem tudo à sua passagem, o que são?
Como podemos ver, o terror tem muitas faces e eu não entendo como é que umas podem ser defensáveis.


Para mim, nenhumas o são.

02 outubro 2005

Aprendendo a olhar

Posted by PicasaAo lado podem ver, o resultado de um trabalho da Inês (neta).

Apanhei cascas de plátano no jardim e trouxe para as pintar com ela.

Ela pegava nos pincéis e nas tintas e pintava com cores a gosto. Mas não atentava nas cascas em si.

Disse-lhe: "tens que aprender a olhar. E ver"!

Olhou-me de forma interogativa. Disse-lhe que ficasse com elas na mão, tranquila, sem pressas. Olhando. Procurando a forma que lá se encontrava.

Assim o fez e descobriu que até numa simples casca, aparentemente sem forma, havia muito mais do que o olhar apressado captava.

Entre muitas coisas que pintou ofereço-vos hoje esta cabeça de pássaro.

(Desculpem estar ligeiramente desfocada. Mea culpa)

01 outubro 2005

Estava Vazia (2º e última parte)

ESTAVA VAZIA (continuação )

Continuei a caminhada, alheada agora do passeio. Do percurso. Perdido o ritmo da marcha, obcecada pela total ausência de qualquer sinal de vida na cidade.Toda a minha atenção estava focada nesta, nas portas e janelas, nas ruas, no mais breve sinal de movimento que meus olhos detectassem; nos ares, esperando senti-lo fundido pelo grito estridente de uma gaivota, atravessado pelo seu voo, planado ou picado, caindo abruptamente a pique sobre um peixe. Mas, para além de mim, e dos círculos que me rodeavam, nada mexia.
Súbito um novo remoinho se formava e começava a envolver-me. O anterior caía, num movimento espiralado, como se o vento ou as areias se cansassem e a força da gravidade as atraísse irremediavelmente para o solo.Enquanto isto acontecia o cicio, no qual me parecia distinguir palavras, era cada vez mais forte e, não sei se por os ouvidos se irem habituando, cada vez mais nítidas me soavam palavras.
Confesso que um medo primevo, do desconhecido, me ia assaltando e dominando. Dizia a mim própria que tinha que me controlar e concentrar nas palavras que me parecia identificar, pois elas trariam, por certo a chave deste enigma.
Medos ancestrais assaltavam-me a alma, e a racionalidade era a que as descargas de adrenalina permitiam. A adrenalina em excesso tem destas coisas, ou nos bloqueia, ou nos permite atingir inesperados níveis de acuidade e controlo visando a sobrevivência. Penso que foi o que me aconteceu. Uma grande calma desceu sobre mim, apesar da estranheza do mundo em que me encontrava.
Continuei a caminhada, embora sabendo que deixara de ter qualquer sentido, pois seria mais importante voltar à cidade, tocar às campainhas, bater às portas, telefonar para números ao acaso até alguém me responder. Sei lá, fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para a acordar e repor no costumeiro frenesim.
Continuei a andar pelo areal, mas os olhos estavam presos à cidade, via os redemoinhos de vento e areias espalharem-se pelas ruas, cada vez mais no coração da cidade, e elevarem-se cada vez mais altos, em rodopios de espiral, acompanhado a altura dos edifícios, ultrapassando-os mesmo, em muitos pontos. Desta forma pude acompanhar o seu percurso pelas ruas e pareceu-me que obedeciam a um padrão. Que se deslocavam para um ponto preciso da mesma onde todos confluiriam no instante exacto.
Enquanto isto, desatendera os sons, vozes ciciadas que dançavam ao meu redor. Cada vez mais parecia-me ouvir o meu nome, como que cantado numa lenga-lenga, entremeado de outras palavras que tinha dificuldade em discernir. Por instantes havia-me concentrado nos sons.
Voltei a atenção para a cidade e vi-a agora também deserta dos remoinhos de ventos e areia. Só lá, num ponto alto da mesma, se elevava um remoinho gigantesco para onde todos tinham confluído.
Um arrepio percorreu-me, corpo e alma irmanados no frio gélido.
Tanto quanto a vista e o sentido de orientação me diziam aquele imenso rodopio, qual gigantesca tromba de areias dançantes, estava diante de minha casa e o cicio já o não era, antes uma voz grave, que dizia, claramente pronunciado, o meu nome, que me chamava e, num rompante investiu contra a porta. Senti a violenta pancada, o chão estremeceu até mesmo no areal debaixo dos meus pés, e era como se os ventos e as areias tivessem mil punhos que martelassem a porta enquanto, num crescendo, chamavam o meu nome, mais alto, mais alto e mais forte.
Acordei estremunhada, o despertador tinia furioso e minha mãe chamava-me.
Eram horas de acordar e ir para a faculdade.

30 setembro 2005

Estava Vazia (1ª parte)


ESTAVA VAZIA


A praia estava vazia. Os ventos corriam por ela como por uma pista, levantando turbilhões de areia que me envolviam como crianças brincando de roda.

Nas areias inscreviam-se, já só, as sombras das pegadas das gaivotas e as dos meus pés. Na rebentação, pequenas linhas, curvas e esbranquiçadas, bordejavam como fina renda o quebrar das ondas. Os ventos e o mar, no seu incessante vai-vem, eram os únicos sinais vivos que o mundo me dava. Nem um grito de gaivota se ouvia. Nenhum animal dava sinal. Qualquer que fosse.

A nascente, seguindo a linha da praia, estendia-se a cidade com a sua imensa marginal. Não passavam carros, nem uma pessoa - pedestre, em velocípede ou patinando - percorria a imensa extensão sempre tão povoada.O silêncio era somente quebrado pelo marulhar do mar, pelo som mais profundo das águas densas em deslocação, como os graves num coro de vozes que se sustentam e, obviamente, pelos silvos do vento.

Perscrutei os céus buscando um voo, um risco de asa - nada se avistava. Só a extensão de azul, pura e ainda aguada do nascer do dia, com laivos amarelos, alaranjados e anisados, com um sol já alto, quente e amigo, a aquecer e iluminar.

A cidade, ou melhor a sua solidão ou desertificação, inquietava-me. Nada mexia nela. Nos prédios não se abriam portas ou janelas, os candeeiros da rua mantinham-se inalteradamente acesos, apesar de já se deverem ter apagado por a manhã ir alta. Os ventos que corriam na praia, com os seus turbilhões de areia, estenderam-se para a cidade e por ela circulavam agora livremente, como bandos em corrida. Buscando...o quê? o que poderiam procurar os ventos e as areias por eles levantadas?Curiosamente observei que, inclusive, corriam por ruas travessas onde não poderiam ter aquele efeito, por ruas onde, pela sua orientação, habitualmente, nos abrigaríamos dos ventos marinhos. Percorriam a cidade como se guiados por um desejo de encontrar pessoas, vida, movimento..., sei lá, pareciam buscar um objectivo definido.

Na praia deslocava-me de costas, mas os ventos e as areias rodeavam-me em rodopios cada vez mais densos nos quais comecei a distinguir sons, diferentes dos provocados pelo silvo do ar e do atrito das areias em movimento. Estranhamente, apesar da força dos bailados de roda, o círculo com que me rodeavam limitava-se a fazer isso, rodear-me, sem nunca me tocar, dançando ao meu redor e emitindo sons que, cada vez mais, se pareciam com palavras ciciadas.

(continua)

Entretanto deixei uma coisinha linda para vocês AQUI

29 setembro 2005

QUADRILHA (Carlos Drummond de Andrade)



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia.
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
.

28 setembro 2005

Onde andará o meu amigo só

ONDE ANDARÁ O MEU AMIGO SÓ
(Maria Alberta Meneres)


Onde andará o meu Amigo só
que pedra
em flor pisando
no caminho?
Gótica a agulha do silêncio ao alto
longe quem passa perto não a vê
eu perto a vejo de tão longe
quando

Onde andará o meu Amigo só
trepando às fontes derrubando
cantos?
Como quem tece um vento de memória
e dele se despede ou só da teia
não sobrevivo à minha vida
quando


In: Antologia organizada por Vasco Graça Moura (2003) 366 poems que falam de amor. Lisboa: Quetzal
Posted by Picasa

27 setembro 2005

«Outras Dimensões» , por António Durval


adurval@netcabo.pt


PERCURSOS INIMAGINÁRIOS
I – Passeando numa Marginal com “Edifício Transparente”


O nosso proverbial atraso patente nos indicadores que definem o grau de progresso de um país, tem merecido honras de primeira página na Comunicação Social. Todos os dias, são apresentadas as mais brilhantes receitas e análises. E o tempo, vai passando…passando… Ouvi, há tempos, um comentário sintético que me ficou gravado:– “os portugueses já não sabem sonhar”. O “sonho comanda a vida” disse o poeta, mas estamos a perder esse sentido interior, tão importante para a alma como o respirar é para o corpo
“Percursos Imaginários” é uma tentativa de redescobrir a importância do Sonho como motor de transformação da realidade que nos cerca. Sendo a Imaginação as pernas do Sonho, será com ela que iremos agora caminhar…


Tinha prometido à Cati, minha neta de 9 anos, que a levaria a passear pela marginal entre o Porto de Leixões e a Foz do Douro. Iria com a esposa, a neta e um filho no moderno comboio que passa por S. Mamede de Infesta e liga Ermesinde a Matosinhos. Um dos objectivos era lancharmos na esplanada do piso superior do “Edifício Transparente”. Antes disso haveria um percurso pedagógico dedicado à minha neta.
Finalmente esse dia chegou. A moderna composição (que tomamos junto à bonita estação de comboios de S. Mamede de Infesta) vinha com muitos passageiros mas conseguimos, lugar para todos. A pequerrucha quis ir à janela comigo. Quando a composição arrancou começou a fazer perguntas acerca do lindo parque público que se desenrolava à frente dos seus olhos do lado Sul da linha. O parque ficou para trás mas tive de lhe prometer que, em breve, iríamos passear para aquele belo sitio. Mesmo de relance ela notou o verde, as pastagens, o horto municipal, o cultivo do linho, e muito mais. O Comboio lá seguiu através da luxuriante paisagem da Linha de Cintura Interna. A minha neta exultou por ver o Rio Leça com muitos pescadores desportivos nas suas margens enquanto miúdos se banhavam ou se entretinham a ver as correrias dos patos. Não saímos no interface do Metro que liga com a Póvoa ou Matosinhos, mas resolvemos seguir directamente até Leixões. Aí sim, com o mesmo bilhete, tomamos o Metro que nos deixou a pouca distância do nosso objectivo. Queria experimentar o Itinerário marginal “Ambiente e Mar” uma iniciativa conjunta das Câmaras Municipais de Matosinhos e do Porto e que está a ser um grande sucesso turístico, recreativo e até cultural. Este “itinerário” abrange cinco centros de interesse existentes ao longo da marginal entre o Porto de Leixões e o Homem do Leme na Foz.
Começamos pelo primeiro: - o “Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental” (junto do paredão Sul do Porto de Leixões). Dirigimo-nos à recepção onde compramos um bilhete familiar para 4 pessoas que deu direito a visitar todos os 5 pólos do Itinerário e a utilizarmos o transporte em autocarro ecológico, movido a hidrogénio, (em circulação contínua entre Leixões e a Foz). Neste primeiro local demoramos cerca de 40 minutos. A Cati não se cansou de fazer perguntas sobre o Ambiente e temas correlativos. O mesmo aconteceu quando visitamos, nas proximidades, o “Centro de Apoio a Actividades Náuticas” enquadrado numa grande simbiose com as actividades do Mar e dotado de meios e documentação à altura dos objectivos propostos. Depois, resolvemos experimentar o “Limpinho” o tal autocarro ecológico. Esperamos só cerca de 6 minutos. Ele chegou bem garrido - trazia pintado de cada lado um grande cartaz anunciando as próximas corridas de carros ecológicos a realizar em Junho do próximo ano. No clássico “Circuito do Porto” iam arrancar as provas mundiais da “Fórmula Zero” (iniciativa conjunta das duas Câmaras associadas ao projecto “Ambiente e Mar”). Um acontecimento histórico a nível mundial já que ficará a marcar a mudança definitiva para a utilização de combustíveis não poluentes. O “Limpinho” deixou-nos, mansamente, à porta do Aquário da Foz onde estivemos cerca de uma hora. A minha neta não queria sair dali tal o seu entusiasmo ao ver tanta natureza junta. A custo lá nos dirigimos, desta vez a pé, até ao Castelo do Queijo onde vimos uma exposição sobre temas marítimos. Depois, apreciamos as exposições de artesanato e artes plásticas que estão patentes no antigo edifício do “Colégio Luso Internacional do Porto”. Aí, reparei numa extensão da Biblioteca Pública do Porto onde se pode requisitar livros para ler na praia ou nas explanadas do “Edifício Transparente”. Olhei para o Sol. Em breve iria acontecer o “esplendor” do seu ocaso. Subimos à esplanada superior do “Edifício Transparente”. Sentamo-nos numa mesa e enquanto lanchávamos apreciamos, na companhia de muita gente, quase em transe, um espectáculo, único e inesquecível. Quando resolvemos regressar, já escurecia, e notei que afluência de gente ao local estava a aumentar. A “Movida” do “Edifício Transparente” explodindo em luz, cor e som era um facto. Os seus numerosos serviços de apoio estavam em pleno funcionamento. O Parque de estacionamento subterrâneo, defronte do castelo, estava já esgotado…
Sentado no comboio que nos trazia de regresso senti uma agradável sensação repousada e indefinível… Quem sabe? Talvez o inconsciente tenha dado conta que o dinheiro dos contribuintes estava a ser bem aplicado… »
P.S- hoje trouxe-vos um texto ficcional, de um Portugal ainda utopia, do amigo António Durval.
Site:

26 setembro 2005

APELO: Constança precisa de nós

Abaixo reproduzo um post colocado no SER HUMANO solicitando a vossa cuidada atenção, divulgação e colaboração se puderem ser dadores.

BEM HAJAM.

«Constança Martins SER HUMANO

Venho apelar para mais uma causa de corpo e alma. No meu local de trabalho surgiu um aviso com a indicação de "Muito Urgente" e que diz o seguinte:

Constança Martins, uma menina de apenas seis anos, precisa de um transplante de medula. Ainda com o caso da pequena Beatriz no nosso coração, temos agora mais uma criança a necessitar da nossa ajuda.

Centro de Histocompatibilidade no Hospital Pulido Valente. Tel: 21 750 41 00.

Tirar sangue e preencher um formulário de 2ª a 6ª feira das 8:00 às 16:00 horas.

Condições básicas 18-45 anos, mais de 50Kg e não sofrer de doenças crónicas, infecto-contagiosas e/ou ter tido transfusão de sangue.

Lisboa, 22 de Setembro de 2005.

Escrito por Espectro »