
«POEMA DE AIKICHI KUBOYAMA
Ainda podeis ouvir-me, eu sei, amigos,
ainda podeis ouvir a minha voz de terra,
a mesma voz que fala à namorada,
a voz que diz poemas
e pede o bilhete nos eléctricos.
Não vos fala de pássaros a minha voz dorida,
não vos fala de rosas,
fala-vos só de um homem: Aikichi Kuboyama
com sua morte bárbara
entre as grandes notícias dos jornais.
Fala-vos de um homem nem santo, nem sábio, nem poeta,
Que se chamava simplesmente Aikichi Kuboyama
E algures, entre magnólias, tinha a mãe que o esperava,
Tinha mulher e filhos
ou o retrato da noiva.
É minha voz bravia
a querer dar-vos o nome do homem devastado:
Kuboyama foi literalmente atravessado por partículas
radioactivas que emitiram raios fatais produtores de
cancro em todo o seu corpo.
Quero que todos saibam da morte que durou duzentos dias,
Quero que a lembrem com o coração e os músculos,
Quero que no seio guardem o seu nome.
Aikichi Kuboyama.»
NAVARRO, António Rebordão (1990) A Condição Reflexa. Lisboa: Edições Casa da Moeda (1ª edição: Hiroshima (antologia), «Nova Realidade», 1967)


