07 agosto 2005

Aikichi Kuboyama

AssimEuEstareiPorRobertaJardim.jpg



«POEMA DE AIKICHI KUBOYAMA

Ainda podeis ouvir-me, eu sei, amigos,
ainda podeis ouvir a minha voz de terra,
a mesma voz que fala à namorada,
a voz que diz poemas
e pede o bilhete nos eléctricos.
Não vos fala de pássaros a minha voz dorida,
não vos fala de rosas,
fala-vos só de um homem: Aikichi Kuboyama
com sua morte bárbara
entre as grandes notícias dos jornais.
Fala-vos de um homem nem santo, nem sábio, nem poeta,
Que se chamava simplesmente Aikichi Kuboyama
E algures, entre magnólias, tinha a mãe que o esperava,
Tinha mulher e filhos
ou o retrato da noiva.
É minha voz bravia
a querer dar-vos o nome do homem devastado:


Kuboyama foi literalmente atravessado por partículas
radioactivas que emitiram raios fatais produtores de
cancro em todo o seu corpo.


Quero que todos saibam da morte que durou duzentos dias,
Quero que a lembrem com o coração e os músculos,
Quero que no seio guardem o seu nome.
Aikichi Kuboyama.»


NAVARRO, António Rebordão (1990) A Condição Reflexa. Lisboa: Edições Casa da Moeda (1ª edição: Hiroshima (antologia), «Nova Realidade», 1967)

06 agosto 2005

Hiroshima e Nagasaqui - 60 anos

HIROSHIMA E NAGASAQUI - 60 anos



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60 anos de vergonha sobre a humanidade.

Qando criança, na ignorância do que grassava e alastrava no mundo, dizia orgulhosamente: "só nasci depois da guerra acabar!"

Mais tarde vim a perceber que ela não acabara.

Mudara o modus operandi e alastrava pelos continentes deixando rastos tenebrosos.

(Queria eu, deste modo , marcar o meu pacifismo....)

Agora inquiro-me se alguma vez acabará!

A rosa floriu, aberta, imensa e destruidora sobre Hiroshima faz hoje 60 anos e sobre Nagasaqui no próximo dia 9.

Uma rosa que se alimenta de sangue, carne e ossos , que nos envergonha e não queremos ver nunca mais. Nem as suas sucedâneas.

Lembro-me e repito-o bem alto: TODO O HOMEM , TODO O SER VIVO , É MEU IRMÃO.


05 agosto 2005

Congresso dos 75 anos de A Selva

Notas sobre o CONGRESSO, 75 ANOS DE, A SELVA

Para quem não saiba, A Selva, de Ferreira de Castro, teve já 39 edições e encontra-se traduzida em várias línguas, com a maior amplitude que um autor português logrou.

É facto que o que lançou este autor e a sua obra a nível internacional, foi a tradução deste livro para o alemão. Daí ganhou o mundo.

Presentes vários académicos nacionais e estrangeiros com forte peso de brasileiros, nacionais de Manaus.
Impressiona ver a importância e o carinho que os amazonenses dedicam a Ferreira de Castro. Foi ele quem colocou aquela região nas bocas e sob os olhares do mundo.

Em Manaus há uma estátua do autor e o percurso no seringal faz parte dos percursos turísticos e de estudo das crianças e jovens da cidade, incluindo a viagem de barco.

Connosco, no primeiro dia, esteve o Secretário de Estado da Cultura do Estado da Amazónia, que nos brindou com uma belíssima e pedagógica intervenção sobre Manaus à época da passagem de Ferreira de Castro, ilustrada com fotos da época.
Ao despedir-se ofereceu, para ser sorteada entre os presentes, uma viagem (tudo pago) à Amazónia. A feliz contemplada foi uma das dirigentes do centro de Estudos Ferreira de Castro.

As comunicações foram de alto nível o que, apesar do elevado número destas (em norma eram 4 da parte da manhã e 7 da parte da tarde) facilitou o seguimento dos trabalhos.
Numa sala ao lado estavam, em visionamento contínuo, os dois filmes realizados sobre esta obra.
A primeira versão realizada por Márcio de Sousa, escritor e realizador cinematográfico, que foi uma presença sempre agradável tanto nos debates como nos convívios.
A segunda, produzida por Óscar Cruz e realizada por Leonel Vieira, contou com a presença e intervenção do produtor numa mesa redonda, bem animada e participada.
Não creio que este seja o espaço para elencar os nomes dos conferencistas, todos eles de primeira água e que souberam, nas suas abordagens à obra, deliciar-nos apresentando, simultaneamente, trabalhos cientificamente rigorosos.

Quero, no entanto, destacar a intervenção do Prof. doutor Bernard Emery (docente da Universidade Stendhal – Grenoble), o maior cientista internacional sobre a obra deste autor.
Analisando a 1ª tradução para o francês (pelo escritor Blaise Cendrars) brindou-nos com um bem fundamentado, delicioso e irónico trabalho, apontando erros totais que transformaram a tradução num livro diferente, concluindo que os franceses que o leram nunca leram A SELVA.


P.S - o meu obrigada, como congressista, á direcção do Centro de Estudos Ferreira de Castro (dos quais destaco o Dr. Filipe Ferreira, incansável homem de acção responsável pela organização e logística) e o Prof doutor Pedro Calheiros, da Universidade de Aveiro, coordenador científico do Congresso)

02 agosto 2005

Tinteiros de impressora vazios podem ajudar a construir a Aldeia das Ciências em Évora

«Tinteiros de impressora vazios podem ajudar a construir a Aldeia das Ciências em Évora
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A Associação de Jovens Professores da Região Alentejo está actualmente a desenvolver um projecto de recolha de tinteiros de impressora vazios, livros velhos e fundos.
O objectivo é conseguir continuar a construção da Aldeia das Ciências, um centro experimental interdisciplinar, em que a água é o tema nuclear, articulando-se em quatro módulos integrados:Observatório da Água, Experimetágua, Centro de Recursos e "Veredas". Refira-se que neste centro, as crianças, os jovens e as suas famílias, bem como os diferentes estabelecimentos de ensino, quer do concelho, quer do resto do país, vão poder desenvolver, de forma integrada, acções que visem a experimentação e a concretização de matérias científicas. Os interessados em colaborar com este projecto podem entrar em contacto com a Associação através do telefone 266 750 420, ou dirigir-se directamente às suas instalações, situadas na Travessa de Landim nº 1 a, ÉVORA.»

28 julho 2005

No Congresso dos 75 anos de, A Selva, de Ferreira de Castro - 1º olhar e sentir

No Congresso dos 75 anos de, A Selva, de Ferreira de Castro - 1º olhar e sentir
Ali estava eu, sentada, ouvindo falar sobre Ferreira de Castro, sua vida e obra.
Fechados os olhos, ardidos pela noite mal dormida, viajando pela selva amazónica através das palavras ouvidas e das representações construídas nas e pelas leituras.
A frondosidade da imaginação e da selva a ser ultrapassada pela dimensão humanista do autor sobrepujando-se a tudo o resto.
E também ali, posto a nú perante o nosso olhar, o olhar dele, viajante-menino intrépido que ao olhar-nos, através do retrato, com um compassivo e talvez melancólico olhar, fixo no longe das imensidões do Rio Madeira e da selva amazónica, a nú nos punha a nós.

27 julho 2005

Somos um país

«Somos um país essencialmente agrícola:
Uns já cavaram, outros vão cavar e os que ficam são nabos!»

(Fonte desconhecida)

Post Scriptum- vou estar sem postar até para a semana. Posteriormente tentarei dizer algo sobre o congresso Internacional dos 75 anos de, A Selva, de Ferreira de Castro. Vão estar presentes estudiosos mundiais, maioritariamente brasileiros, dado a obra se referir aum dado momento de exploração da borracha (e do homem) na selva amazónica. Até para a semana.



26 julho 2005

Ainda a propósito de, A SELVA de Ferreira de Castro

Ainda a propósito de A Selva

Li o livro A Selva, nos meus 14 anos.
Aqui, o verbo"li" é uma mera forma de dizer.
De facto lembro-me do cansaço que este livro me provocou e de que só o acabei por decisão e não vontade.
Muito descritivo, achei. Li mais duas obras de Ferreira de Castro e foi ainda essa a minha opinião.
Há um mês (re)li-o - de facto foi quase uma primeira leitura!
E foi de um fôlego e de forma empenhada que mergulhei naquela selva - a da Amazónia e a das emoções.


Destaco uma frase do autor, Ferreira de Castro, no Pórtico de
A selva:

«Não somos hoje o total que fomos ontem, nem teremos amanhã,integralmente, o nosso mundo de agora. Eu sinto isto muitas vezes, num apelo ao meu «eu» de outrora, numa busca minuciosa entre os escombros do que fui e os pilares que ficaram de pé, a sustentar o que sou.»


25 julho 2005

Congresso Internacional dos 75 anos de: A SELVA

Congresso Internacional dos 75 anos de, A SELVA, de Ferreira de Castro.
Vai decorrer, em Oliveira de Azeméis, nos próximos dias 28, 29, 30 e 31, O Congresso Internacional dos 75 anos de A Selva, de Ferreira de Castro.
A partir de 4ª f/fim do dia, é por lá que me encontro.
Se quiserem mais informações por favor vão a

24 julho 2005

As velhas senhoras

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AS VELHAS SENHORAS

Há mais de setenta anos que se lembra do maciço de hidrângeras ali, no final do canteiro, encostado àquela velha parede.
Apesar de ocupar o fim do canteiro o arbusto sempre crescia e alastrava de tal forma em folhagem e flores que a impressão era dominadora, ocupando-o quase todo, pelo menos visualmente.

A velha senhora está sentada, na cadeira que fora de sua mãe e de sua avó antes dela e sabe lá de quem mais, gozando a fresca do final do dia, sentindo a revigorante brisa, carregada de maresia, quando dos lados da cozinha, altissonante, soa a voz da Adelaide: “menina, não apanhe frio, olhe as pneumonias....”.
Ri-se ternamente dos cuidados de Adelaide e da designação carinhosa com que a trata apesar da viuvez e da idade: menina!
Este tratamento vem da infância, quando com doze anos esta veio servir para casa dos pais, para fazer companhia à “menina”, nos folguedos.
Sete anos as separam, bem como o estatuto social. De resto, foram amigas, confidentes e cúmplices ao longo de toda a vida.
Nunca uma falhou à outra.


(Excerto do conto com o mesmo nome)

23 julho 2005

Para animar, ou nem por isso!

Para animar....ou nem por isso ....
Estão vendo a vossa empresa????
Eu estou vendo muitas k conheço.....

«Em Nairóbi, Quênia, depois de um criterioso processo de recrutamento com entrevistas, testes e dinâmicas de grupo, uma grande empresa contratou um grupo de canibais para fazerem parte de sua equipe.- Agora vocês fazem parte de uma grande equipe, disse o Diretor de RH, durante a cerimônia de boas vindas.- Vocês vão desfrutar de todos os benefícios da empresa. Por exemplo, podem ir à lanchonete da empresa quando quiserem para comer alguma coisa.Só peço que não comam os outros empregados, por favor!Quatro semanas mais tarde, o chefe os chamou:- Vocês estão trabalhando duro e eu estou satisfeito. Mas a mulher que serve o cafezinho desapareceu. Algum de vocês sabe o que pode ter acontecido?Todos os canibais negaram com a cabeça.Depois que o chefe foi embora, o líder canibal pergunta a eles:- Quem foi o idiota que comeu a mulher que servia o cafezinho?Um deles, timidamente, ergue a mão. O líderdiz-lhe:- Mas tu és uma besta, mesmo! Nós estamos aqui, com essa tremenda oportunidade nas mãos. Já comemos 3 diretores, 2 superintendentes, 5 assessores, 2 coordenadores, e uns 3 gerentes, durante essas quatro semanas sem ninguém perceber nada. E poderíamos continuar ainda por um bom tempo.Mas não... Você tinha de estragar tudo e comer logo a tipa do café....Uma pessoa que faz falta!!!!»

(esta chegou-me por e-mail)

22 julho 2005

A verdade às vezes doi

A verdade às vezes dói

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«Tempos houve em que os demónios falavam, e o mundo os ouvia; mas depois que ouvia os políticos ainda é pior o mundo.»

Padre António Vieira
Sermão de Sexagéssima

21 julho 2005

Bem-vindos "mutuns"

BEM-VINDOS, família de mutuns10.jpg

Neste virtual espaço vamos conhecendo gente, pelo que expressa, claro.
Identificamos afinidades no pensar. Criamos cuplicidades (grandes e pequenas) e solidariedades que extravasam o nosso pequeno espaço/universo.

Um amigo que está lá longe, no Brasil, mas que está perto do meu sentir, pela gentileza e informada cultura que sempre demonstrou, iniciou um blog

ilha dos mutuns
Convido-vos a visitá-lo e a apoiá-lo como só vocês sabem fazer, gentes boas do meu país.

19 julho 2005

Informação e apelo

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INFORMAÇÃO E APELO HUMANITÁRIO


Chegou-me a informação e o apelo através de carta dos Médicos do MUNDO.
SABES (eu não sabia) que existe um medicamento que evita a transmissão da SIDA de mãe para filho no momento do parto?

(E isto sei que sabes: a SIDA é um flagelo em MOÇAMBIQUE E NECESSITA SER TRAVADA!)

CUSTA APENAS 25,00 Euros: a neviparina.

Cada um de nós pode ajudar uma criança a nascer livre deste flagelo, quase sentença de morte pronunciada no acto do nascimento.
Para tal basta enviar um cheque de 25,00 Euros para MÉDICOS DO MUNDO, Apartado 14321, EC 5 de Outubro, 1064-970, Lisboa

Se quiseres mais informações, por favor visita o site:
MÉDICOS DO MUNDO

«A SIDA EM MOÇAMBIQUE:

-População contagiada: 1.200.000 pessoas
-Camas ocupadas por doentes com SIDA: 90%
-Esperança de vida em Moçambique: 43,8 anos
-População que vive com HIV: 1.300.000 pessoas
-Número de mortes por HIV: 110.000 (em 2003)
-Casos de SIDA diagnosticados por dia: 700, entre os quais 140 crianças
-População com acesso a serviços de saúde: 30%
-população no limiar da pobreza: 80%
-Crianças órfãs por causa da SIDA: 600.000. estima-se que, em 2010, este número alcance o milhão.»
(Fonte: MÉDICOS DO MUNDO)



COMO SE VÊ HÁ MUITAS FORMAS DE INCENDIAR O MUNDO E INFERNIZAR AS VIDAS.

16 julho 2005

Lamúrias e elogio

1 - LAMÚRIAS
Há dois meses (já lhe perdi a conta), que solicitei à netcabo a transferência da minha conta para outra morada (depois de previamente ter feito um telefenomena para os respectivos serviços a informar-me).
De semana a semana, ou a cada quinze dias, faziam nova solicitação a que fui dando resposta.
Depois de uma espera imensa e inglória há dois dias, pelas 20h40 e...., ligaram-me a dizer que podia trazer o meu kit (moden) e que estava finalizado o processo, podendo usufruir, em pleno do acesso directo solicitado.
Dois ou três minutos depois o telefone voltou a tocar. Era o mesmo funcionário, da mesma empresa (Netcabo) a informar-me de que afinal não podiam satisfazer o meu pedido. Que a melhor solução seria dar baixa do meu serviço e activá-lo na actual residência...Claro que cada activação teria um custo de Euros 25,00 e seria demorado. Coisa aí para um mês.....
Por acaso a Netcabo pertence à função pública? Alguém me informa? Eis o expoente máximo da inoperância e burocracia.
Mas a função pública é que tem a fama, em exclusividade....
Talvez algum dia me apeteça escrever sobre esta matéria. Bu(r)rocracia!

P.S - claro k continuo sem net e pago ao mês (+ ou - 35,00 euros) numa casa onde não é utilizada....Socorro, tirem-me deste filme.....

2 - ELOGIO
Ontem, ao dar um pequeno passeio após jantar, vi duas jovens mulheres pararem nos sítios mais improváveis de apresentarem algo atractivo, dobrarem-se e apanhar algo. Andavam, paravam, dobravam-se apanhavam qualquer coisa, recomeçava o passeio e os gestos repetiam-se.
A curiosidade espicaçou-me. O que poderiam estar apanhando se até as ervitas, para além de enfezadas eram secas, nascendo nos interstícios rochosos. Abrandei o passo e olhei.
Recolhiam tampas de plástico, retirando-as das garrafas que as pessoas atiram para o passeio, cais e meia-laranja, abandonando-as como lixo assim sujando o espaço público...
Sorri e inquiri se para algum familiar ou conhecido. Que não. Que era para mandarem, para quem necessitasse para
TAMPINHAS
Um belo exemplo.
O fim do dia ficou mais colorido e cheio de sorrisos activamente solidários pela atitude destas duas jovens mulheres.
E ainda há quem não acredite na juventude....

11 julho 2005

Sentir do dia

Sentir do dia


Hoje o dia levantou-se lesto,
antes mesmo de o sol nascer.
Pulando num pé só
foi por sí, fazendo tropelias.

O vento varria o mundo
em redemoínhos. Quentes
como boca de fornalha.
Insolente escancarava
as portadas das janelas,
silvando, entre o zangado e o irónico,
quando por elas, o caminho
encontrava barrado.

Quando lograva os
seus intentos,
e tal era a sua força que
difícil era resisitir-lhe,
corria as casas
em novelos de movimento,
pó, zunidos e murmúrios
lembrando vozes,
perdidas no nevoeiro.

As águas do rio corriam,
frenéticas, como que
enlouquecidas,
em busca do perdido caminho
para o mar.

O mar abria-se
num a imensidão plana
de azúis , pontilhada
por brancas cristas
de espuma
quebrando-lhe a lisura.

Por dentro da casa o mar
alastrava deixando
um perfume a algas e maresia,
carregado pelos ventos,
quase obrigando
as gentes
a lembrarem-se de que esta
é uma cidade marinha.

No ar as aves,
até as grandes gaivotas,
enrodilhavam-se no voo.
Adernavam.
Abruptamente inclinavam-se,
como se perdido o norte,
o prumo.
Em total desequilíbrio
provocado pelas furiosas
e murmurantes rajadas
de vento.

O mundo andava à deriva
dos ventos,
quentes como boca de fornalha,
queimando a pele,
entrando
agressivamente nas casas,
em busca de sombra e acalmia.

Enquanto isto, o país ardia.


Porto, domingo, 10 de Julho de 2005
(Foz do Douro)