
(foto por : Francisco Pinho)
Necessidade premente
Entrar em cada quarto e partir.
Quebrar os vasos, as jarras, os vidros.
Desmontar as camas e as mesas.
Rasgar os papeis e as memórias.
Fazer uma fogueira, até deixar
arder todo o recheio. Repor as paredes
nuas e vazias, como vazia está
a silenciosa casa que habita.
Povoá-la de pó e estranhos animais.
Deixar a água correr até fazer um rio.
Mergulhar violentamente, para ficar
emudecida e bruta, como pedra,
no fundo. Inútil, como a vida.
Com as unhas rasgar a carne
e puxar as veias, uma a uma.
Compor vermelhas melodias
de um fantástico pôr-do-sol.
Puxar os tendões, os nervos, a força
e atirá-los ao turbilhão do espaço
como molas, ou tensas cordas,
de violino. Esfrangalhar de si,
o vazio corpo e oferecer-se ao cosmo,
num último e inútil abraço.
(por TMara)