Confesso que sinto saudades de abrir as portadas da casa aos ventos marinhos e deixar rio e mar entrarem pela sala, amigos de família, alagando a casa com os seus perfumes salinos-iodados e os gritos das gaivotas.
Há quem não goste dos gritos das gaivotas. Eu, gosto!
Em cada grito, levanto voo e vejo com elas, lá do alto, o mundo que vemos sempre rasteiro, como pobres terráqueos.
Aqueles agudos gritos, de euforia ou alerta, prenúncios de viajantes de outros mundos, que assim connosco os partilham.
Abro as portadas e já não piso nada sólido. Deslizo à flor das águas, salto nas espumas, sou espuma e gota solta e afoita viajante sem outro destino que o de me misturar nas águas e saltar nos ares, viajando com os ventos.
Do outro lado da casa os pardais fazem a costumeira revolução enquanto os gatos procuram caçá-los.
Há um alvoroço de vida que acorda o dia, a casa, e me desperta para toda a beleza envolvente.
Estranhamente receio a casa. É fácil afeiçoarmo-nos a ela! Pequena jóia incrustada numa outra de inenarrável beleza.
São-me ricos, doces e belos os dias com o mar ali. A minha alma, de ser marinho, canta com as sereias, para Ulisses e os seus marinheiros, segue a espuma deixada pelos barcos e espraia-se na rebentação....
Um dia partimos. Todos. Provavelmente tu antes. Daí esta recusa em afeiçoar-me mais à casa. Nunca mais a poderei viver, sentir barco de onde navego e minha alma se solta correndo veloz à flor das águas, como perdida e esvoaçante pena de gaivota.












