17 março 2005

Caminho na "rede" ao vosso encontro....


Caminho na "rede", ao vosso encontro...

Entro em vossas casas e
leio as palavras e os indícios
que semearam
para caminhantes como eu.


Quero deixar o meu "olá"

mas alguém tirou todas

as canetas, lápis e papel.

Tento rabiscar nas paredes,

mas nada fica, de mim

para vós.

Talvez o sopro

da minha presença

permaneça.

N:B -Esta a minha forma de dizer obrigada a todas e todos que por aqui passaram e comentaram deixando uma palavra de carinho, bem como às e aos outro k vieram silenciosos.Como eu nas vossas casas. Não consigo abrir os meus comentários nem os de muitos de vós. Bem Hajam.



A Terra, nosso planeta!


Como é bela a Terra. Cuidemos de não dar cabo dela!

Até na escuridão da noite podemos perceber as assimetrias no desenvolvimento planetário.

Uns (países) parecem uma árvore de Natal, outros ......

Cuidemos deste nosso belo planeta, de todos os seus habitantes (humanos e não humanos) e de o perservar .

A ver se ainda vamos a tempo........

Lembremos que não nos pertence. "Herdámo-lo" dos nossos netos!


16 março 2005

IN MEMORIAM


Para a Alzira

A minha amiga Alzira foi ontem a enterrar depois de violentamente assassinada a tiro.

Para além da dor, a zanga, a fúria por toda esta violência gratuíta apossou-se de mim.

Não vos sei falar dela, não de momento, e gostaria, quereria fazê-lo.

Era uma alma boa, limpída e solidária. Era uma pessoa meiga e doce, mas havia sempre nela uma sombra de tristeza. Lá, ao fundo do olhar.

Deixo este poema em sua memória:

Caminha no vento

a rapariga.

Esguia e breve

metamorfose

do ser.

Caminha no vento e ri.

Soltos os movimentos

tanto

antes contidos.

P.S - ontem não consegui postar, deixei só as flores. Deixo-as hoje para não eliminar a solidariedade lá expressa.Obrigada Eduardo, obrigada Lana. Beijos para vocês.


POR UM VIDA

«POR UMA VIDA

Na Rádio Oásis, ouvi hoje o apelo da Mãe da Beatriz para irmos, no dia 19 de Março, ao
Amial (Torres Vedras) fazer testes para doação de medúla óssea. A pequena Beatriz tem 4 anos e tem leucemia e pode vir a precisar da tua ajuda.Dessa colheita pode, também, sair um doador para alguém que ames.Dia 19 é o Dia do Pai, um lindo dia para salvar uma vida.P.S. Requisitos básicos para ser doador de medúla óssea:- Ter mais de 18 anos e menos de 45.- Pesar mais de 50 Kg- Não sofrer de doenças crónicasEstará presente um médico para esclarecer quaisquer dúvidas.Para mais informações podem consultar tbm este site

Texto retirado do site «http://serhumano.blog.com»


14 março 2005

TOU NA M****




AVISO AOS NAVEGADORES, AOS SURFISTAS E AOS MIRONES, BEM COMO A TODAS AS OUTRAS CATEGORIAS.
(Tou na m****)
Ou estamos! Eu eos PC's.
Há três dias k n/ tenho internet (o post anterior foi colocado sob risco total, num PC com defice de antivírus) e, para além disso outros problemas acoplados.
Resolvi alguns neste, o decano velhinho das barbas brancas, mas continua a não funcionar em pleno.
Há "casas" vossas que visito e onde QUERO deixar comentário. Digo QUERO pois é uma intenção que se não concretiza: ou dá erro ou diz que não encontra a página (depois de estar nela, abrir e escrever o comentário:::!).
Aqui fica o aviso das minhas desgraças informáticas apelando a vossa compreeensão (estou a treinar para umas quaisquer eleições....). venham visitar-me sempre que possam. Sistema doente é sistema...carente.
ADENDA
Depois de uma volta por algumas casa só posso dizer: "tá tudo marado ( na net, entenda-se)!
Numas os comentários não ficam ,outras não os aceitam - invocam duas, que o meu e-mail está errado( não estando, mas mudou). O pior para deixar comentários é mesmo este o do meu "VLOG"!
COMEÇARAM A S VOTAÇÕES
"na Blogosfera". Ainda não entrei, mas chegará a minha vez (salvo seja, a do blog). Os desatentos, que o não sabiam, ficam informados. Vão até lá e façam a vossa escolha. Desde hoje. É uma forma de conhecer muitos outras casas, seus recantos, jardins e lagos,..., enfim tudo o que elas têm.

12 março 2005


Mãe & Criança, by: Bartlett
FRAGMENTOS

Viu a mulher entrar no autocarro, carregada com sacos do supermercado. No rosto, uma tranquilidade, cortada por invisíveis linhas que fremiam, tal ondas residuais.

Eram estranhos os olhos. Olhavam com a abertura e a inocência de uma criança. No entanto uma velada dor coexistia, no mesmo olhar.

Dificilmente, com tantos volumes nas mãos, passou pela coxia e sentou-se.
No banco vazio, ao seu lado, pousou alguns dos embrulhos.

Olhou para o exterior ela janela do lado esquerdo e a sua atenção ficou aí fixada.

Marta, olhava-a Sentia-lhe o total alheamento. Aquela mulher, pensou, parecia mais jovem do que devia, na realidade, ser.
Aquele jogo dos contrários, tão fortes e em simultâneo subtis, era um indicador mais precioso do que a aparência lisa, da superfície.

Marta deixou o pensamento correr solto. Sempre atenta á mulher.

Numa das paragens entraram muitas pessoas. Uma jovem dirigiu-se para o lugar ao lado da mulher. Teve que insistir, três vezes, solicitando-lhe que retirasse os sacos do banco, tão abstraída esta se encontrava.

Sorriu timidamente, pediu desculpa e retirou-os. Aninhou-os, o melhor que pode, no espaço dos pés. Não cabiam. Ficou com dois no colo. Maquinalmente as mãos começaram a trabalhar.

Deu dois nós às orelhas de um dos sacos e os seus dedos começaram suavemente a puxá-las, a dar-lhes forma, movimento e beleza, elaborando um belo laçarote.

Marta olhava fascinada os dedos da mãe a abrirem os laços de seda que lhe prendiam as tranças e depois, o laçarote grande, ornado de renda inglesa, que lhe prendia o bibe atrás, nas costas.

Ah, como Marta se sentia bonita e enfeitada com os laçarotes que a mãe abrira – lindas borboletas nela pousadas.

Olhou-se melhor, no longo espelho do quarto dos pais e viu a mãe, ajoelhada, atenta, a alisar aqui, a encurvar além; enfim, amoldar os laçarotes. A sua mão direita fez um gesto esvoaçante e Marta viu o lindo sorriso da mãe abrir-lhe o rosto, antes tão concentrado, agora totalmente virado para si, enquanto dizia: “já está”.

Marta, que nunca cessara de observar pelo longo espelho, quer os movimentos ágeis e cuidados da mãe, quer a sua própria imagem, branca, alada, virou-se para esta rindo feliz. Estendeu-lhe alegremente a mão e disse: “vamos, mãezinha”.


A mulher levantou-se e saiu do autocarro

By TMara, in: FALAR MULHER (82:84)

10 março 2005


Sou moura. Uma moura, encantada há mais de nove séculos.

Vivo aprisionada no coração da pedra.

Fui enfeitiçada como castigo, por ordem de meu pai, por amar um infiel! Um cristão!
Desde então, encerrado no coração do rochedo pulsa o meu.
Só serei liberta deste cativeiro pela morte, no dia em que o coração da pedra parar de pulsar, a pedra cessar de existir.
Então terminará meu tormento.

O coração da pedra é frio e duro. O meu, de carne e sangue, vive oprimido.

Tal o castigo que meu pai me impôs. Pela eternidade! Por ter amado e fugido com um infiel, o valoroso e meu mui amado Dom Godofredo de Gondar, impiedosamente morto diante de mim.
Provavelmente desconheciam que as pedras têm um coração, pulsátil como o nosso, mas duro como a pedra. Da mesma matéria feito. E quando digo que é duro não pretendo significar impiedoso ou cruel. Nada disso. É da sua própria matéria, a matéria da pedra. No restante até é gentil. Não se guia por normas iguais às humanas. Tem outras regras, outros valores. Parece pairar acima do bem e do mal, tal como os entendemos, conceitos que nem alcança porque a pedra é tão velha como o planeta, mais velha do que qualquer outra coisa conhecida e rege-se por critérios bem acima do dos mortais, para lá do que consideramos bem ou mal, sendo que tais conceitos são relativos, dependendo de cada cultura e mudando com os tempos. Isto já aprendi aqui.

No coração da pedra o meu pulsa e bate. Durante séculos chorei muito. Agora não. Olho os acontecimentos de outra forma. Não sei se estou a deixar de ser humana, se fui contaminada pela natureza da pedra...

As notícias do mundo chegam-me pelos pequenos animais que rastejam e correm pelas frinchas, pelas rachadelas, fissuras que o tempo, as águas infiltradas e estremecimentos vários vão causando ao rochedo.
Falam-me das mudanças dos tempos, dos hábitos, de tudo o que se move à superfície e que tão diverso é do que conheci.

Hoje acordei sentindo um doce estremecimento, um afago.
O coração da pedra vibrando, ou melhor: quase ronronando.

Os nossos pensamentos estão quase fundidos. Basta-me pensar: “rochedo” e sou invadida pelo seu pensamento, pelo seu sentir.
Soube então que o dia tinha amanhecido nublado, mas com um vento morno e afagante que deslizava mansamente à superfície do rochedo fazendo-o arquear o lombo, a superfície exposta, como gato pedindo mais carícias.
Por dentro, uma vibração percorria-o e sentia-se uma brisa morna e perfumada a correr-nos os corpos.

Mentalmente espreguicei-me. Senti a brisa no rosto, a acariciar-me, a brincar com os meus cabelos, levantando-os num bailado e deslizando-me terna pelos ombros. Fez-
-me lembrar as mãos do meu amor.

As fissuras do rochedo enchem-se com esta brisa que o percorre de forma vivificante.
Com ela viajam os ruídos do mundo lá em cima. Ouço o pipilar dos pássaros, vozes, sussurros e cânticos que não entendo, mas que são agradáveis de ouvir.

Se ao menos meu pai nos tivesse castigado de igual forma Dom Godofredo estaria aqui comigo, faria parte das memórias deste local, o seu coração pulsaria a par do meu, inscritos ambos no coração de pedra do rochedo.

Assim, perdido no tempo, só eu e o rochedo, que o conhece através de mim, dele guardamos memórias.


09 março 2005

Se pudesse ser outro animal, para além deste que sou, seria um golfinho.
A miragem: perder-me e achar-me nos vastos oceanos; navegar por eles sem temor, em folguedos solidários .
Lembro os roazes do Sado, em bandos que povoavam a minha infância.
A melhor parte da ida a Lisboa ou a Setúbal era sempre essa.
Os golfinhos, seres marinhos.
Declarações que a carpa, o tubarão e o golfinho fazem para si mesmos:

· "Sou uma carpa na escassez. Em virtude dessa crença, não espero jamais do aprendizado e da responsabilidade permanecendo longe deles, eu geralmente me sacrifico".

· "Sou um tubarão na escassez. Em razão dessa crença, procuro obter o máximo que posso, sem nenhuma consideração pelos outros. Primeiro, tento vence-los; se não consigo procuro juntar-me a eles".

· "Sou um golfinho e acredito na escassez e na abundância potenciais. Assim como acredito que posso ter qualquer uma dessas duas coisas – é esta a nossa escolha – e que podemos aprender a tirar o melhor proveito de nossa força e utilizar nossos recursos de um modo elegante, os elementos fundamentos do modo como crio o meu mundo são flexibilidade e a capacidade de fazer mais com menos recursos".
·
A Metáfora do golfinho, da carpa e do tubarão está descrita no livro: "A Estratégia do Golfinho", de Dudley Lynch e Paul L. Kordis – Ed. Cultrix.


07 março 2005



A MINHA RUA

A MINHA RUA, de facto, não é minha. É de todos e de todas que nela moram, por ela passam ou passaram e com ela criaram laços.
A “minha rua” é a rua onde moro! Mas podia ser outra.

Há três ruas que me pertencem
. Nelas passei partes significativas da vida, nelas deixei partes de mim. Verdade se diga que delas guardo um conjunto de memórias, mais boas que ruins.

Esta minha rua, a de agora, é uma rua aldeã.
Bem no centro da cidade, parece que os ruídos ficam interditados e nela não entram. Ao lado correm ruas de grande trânsito. Esta, recôndita no coração da malha urbana, é uma rua de silêncios, de cantos matinais de galos, de cumprimentos alvoroçados de cães ao romper da alva, para se recolherem depois ao silêncio que a toma, de pipilares de pardais na madrugada.
É uma rua feita de sons onde o silêncio reina.


Nesta rua, por esta rua, as minhas filhas brincaram e cresceram. Aqui moram muitas pessoas, a maior parte das quais já aqui nasceu, e outras já aqui moravam quando cheguei.
É uma rua pacata, de vizinhança, com conta e medida.

As senhoras, como no tempo da minha infância, passam muito tempo nas janelas, tricotando, crochetando, observando, falando com quem lhes dá dois dedos de conversa...
Actualizam o jornal da caserna, mas sem maldade.
Uma pequena curiosidade que lhes ilumina, muitas vezes, o dia.

Nesta rua as minhas filhas brincaram, correram, saltaram, riram - brincaram sem cuidados de maior que o de estarem atentas ao trânsito - viveram os seus primeiros amores, choraram as primeiras lágrimas de desencantos....
É uma rua pacífica e mansa, mas vigilante.

Passo e aceno às senhoras nas janelas.
Recebo de volta outro aceno e outro sorriso :-)

Assim se vão fazendo os dias. Tricotados entre silêncios e pequenas cumplicidades.

As filhas têm agora outras ruas que também são delas, mas esta reconhece-as.
Sempre que a ela voltam!

Das amizades de infância, poucas aqui moram Como elas, partiram para outros voos.
Poucos, mas infelizmente demais, perderam-se nos caminhos da vida e cumpriram a vã glória de morrer belos e jovens.

As minhas três lindas filhas
continuam a crescer e a envelhecer o que me enche de alegria doce e tranquila.
A rua, que, sendo de todas, é tão minha, abre-se aos silêncios que permitem às almas encontrar-se.
Desenrola-se em murmúrios que acompanham o fluir dos dias e dos tempos.
Gosto da minha rua que, sendo uma rua aldeã, é uma rua solidária por onde as memórias ficam inscritas e se renovam a cada manhã.

06 março 2005





CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA

Qué vida la que vivimos
en estos años de muerte!

Nicolás Guillén


1.

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha
Sem medidaMaior
do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores
Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos
Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel
Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo
Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada
inerte desventrada
com música de tiros e chicote
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos
e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor


Daniel Filipe, In: A Invenção do Amor e outros poemas,
Editorial Presença, 8.ª edição, Lisboa, 1994.

05 março 2005



ESTE BALÃOZINHO CONTÉM O DISCURSO DA MAIORIA DOS NOSSOS POLÍTICOS!

Ontem, o Sr. Silva, que nos foi apresentado há semanas, aquando da campanha para as legislativas, pelo Sr. Alberto ( o da Madeira! Como o caruncho) foi entrevistado e inquirido sobre a hipótese de voltar á política activa. Respondeu que só se pudesse "(...)dar alguma coisa ao país...".
Sossegue sr. Silva. Se é por isso pode voltar, ainda que eu não perceba para quê....!!Pode voltar porque se o senhor voltar dá uma coisa má a muita gente neste país.
Satisfeito? Vê que sempre dá alguma coisa ao....país (somos todos, né?)!?

04 março 2005

A velha senhora olha desalentada ao redor.
Vive na casa onde nasceu já lá vão oitenta e seis anos, a caminho dos oitenta e sete, pois já dobrou o meio dos seis, e onde antes já o pai vivera desde criança.
Pensa que a casa terá perto de duzentos anos, isto se ainda os não tiver.
O desalento com que olha a casa não tem a ver com o mau estado da mesma, ou problemas que a construção acarrete. Nada disso. Apesar de muito velha, a casa térrea mantêm-se erecta e em bom estado, exigindo-lhe somente trabalhos de manutenção e bem menos do que muitas casa novas que viu serem orgulhosamente construídas pelos proprietários, com uma certa sobranceria, em que o novo dava lugar ao velho, julgavam eles. A casa, bem caiada, continua a ser um mimo. A atrair olhares, pela singeleza das linhas e aspecto arquitectónico em geral, que anuncia bem alto ser de outro século enquanto as mais novas apresentam rachadelas, estrias, manchas e infiltrações exigindo, aos proprietários, consecutivas obras de reparação e não só de manutenção, sendo que, mesmo assim, o aspecto dessas é mais velho, mais desgastado, do que o daquela que habita.
Não lhe advém daí o desalento que o olhar exprime. Vem-lhe sim de uma certa monotonia que dela se apossou.
Ela e a casa encontram-se em perfeita simbiose. Tudo nesta lhe é conhecido. Desde as cores, aos cheiros, aos ruídos, externos e internos, ao pulsar da própria casa, independente das horas do dia e do movimento da rua. Todas as coisas têm um lugar próprio não podendo ser colocadas em diferente local, nem a ela tal coisa ocorrendo.
É este factor de falta de surpresa que hoje a cansa, que a desalenta.
A rua, outrora muito movimentada, com vizinhança e crianças, tem agora pouquíssimos moradores e, mesmo estes, saem de manhã para os trabalhos e voltam já caída a noite, recolhendo-se de imediato, pelo que a rua parece, normalmente, vazia.

Crianças a correr, a andar de bicicleta ou entretidas noutros jogos, é coisa que não existe mais. Os casais que ali moram não têm filhos pequenos. Mesmo aqueles que para tal teriam idade.
A rua é uma monotonia igual ou pior do que a casa. Da casa entende que seja monótona habitada só por uma mulher de quase oitenta e sete anos.
Mas da rua e do pulsar da cidade, que se estendeu para outros pontos cardeais, apesar
de estar bem no centro da urbe, não se compreende este pulsar lento, desfibrilado de alegrias, sem tons, sem musicalidade. Monótono! Como monótona lhe parece hoje a vida e tudo ao seu redor.
Da janela da cozinha deita o olhar sobre o limoeiro, antigo, tão antigo que não o sabe situar no tempo. Desde que se lembra que ali vê uma arvore de grande porte, para limoeiro, claro. É um imponente limoeiro este que a família plantou há centenas de anos. Sempre carregado de limões. Todo o ano habitado, de forma alternada, por flor e frutos, perfumando o quintal e a casa, quando abre a janela da cozinha por onde ele quase entra. Habitados os troncos e os ramos por ruidosos bandos de pardais em alegres brincadeiras e folguedos próprios de tais aves.
Tudo na casa e nos espaços envolventes é antigo, carrega uma patine de dignidade e altivez que só o passar dos anos confere, tudo se mantém, até ela.
O piano mantém-se no mesmo local desde sempre, diante dos sofás e das poltronas, no canto esquerdo da sala; no lado oposto, junto às escadas que dão acesso ao andar inferior, num recanto de acesso, encontra-se o oratório com o seu marmoreado de jaspe, e os lindos santos que têm passado de geração em geração – a quem os deixará? – (sim, dissemos que a casa era térrea, mas fica entre duas ruas com cotas muito diferenciadas e tem entrada pelas duas ruas, resultando numa habitação de dois pisos), os móveis de família, de boas madeiras sobreviveram ao uso e ali estão. As fotos de família numa mesa de jogo, outras sobre o piano, tudo isto que lhe deu, ao longo dos anos, uma sensação de bem-estar, de vida organizada e controlada, transmite-lhe agora uma sensação de agonia, de opressão.... E porque tudo é inalterado desde as memórias de criança que carrega, hoje a casa pesa-lhe! Tudo nela lhe pesa e lhe parece estático, sendo que estático lhe diz ser claro sinal de paragem, de morte. Tudo pode respirar e estar vivo, mas parece que tudo morreu e se encontra fora do tempo. Até ela. Daí este olhar desalentado que deita ao seu redor na esperança que, de qualquer ponto da casa, do quintal ou da rua, surja, ecluda, aconteça, um qualquer movimento disruptivo capaz de contrariar, anular, esta sentença de morte anunciada que capta nos mais pequenos sinais emitidos por ambas.

03 março 2005


Trago hoje ao nosso convívio o poeta e romancista de 1ª água, António Rebordão Navarro que muito esquecido, por pouco divulgado, anda, sendo que, há dois meses atrás, publicou mais um romance na Campo das Letras: ROMANCE COM O TEU NOME.
Fiquemos pois na sua companhia com o excelente poema:
Sabíamos do mar sem o sabermos

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.
Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.
Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.
Sabíamos do mar em signos,
símbolos,tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar

António Rebordão Navarro
O INVERNO
Poemas:1952-1982
Imprensa Nacional Casa da Moeda

02 março 2005


O Nilson ontem disse: "...só na quinta?", em resposta a uma afirmação minha de que colocaria o restante do poema de Cesário Verde(partes III e IV) na 5ªfeira.
Achei que devia dar tempo para lerem com calma (sei que muitos de nós vêm aqui numa corrida), mas depois de ler o comentário dele ponderei e achei que mais dias só serviam para quem viesse ler o restante se começar a perder no contexto das duas primeiras partes obrigando a reler tudo (e se calhar não teriam tempo - ai esse ingrato nada!). Portanto eis o final do poema: SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL.


SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
(III e IV)

Cesário Verde


III

AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

IV
HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar
!