20 fevereiro 2005

Album de família


Porque hoje é domingo dia 20 de Fevereiro de 2005, dia de eleições legislativas, é proibido fazer campanha, mas é um bom dia para a reflexão.
Peguem nos vossos albuns de família, ou discos em vinil, ou memórias de liberdade, igualdade e fraternidade, sentem-se debaixo de uma boa árvore, chamem as vossas crias (quem as tiver), amigos, ou meros passeantes, convidem-nos a rever convosco os sonhos tidos e a fazer um balanço.
Porque vai ser um bom dia para balanços.
Alguns vão "balançar" tanto que até vão entrar em órbita.....!
Esperemos que o país se aguente no....balanço!
Então, até depois ;-)

19 fevereiro 2005

A estranheza dos dias


Escrevo no cinzento dos dias azuis
......ou nos dias cinzentos, já que o SOL brilha, senhor absoluto dos céus intocados pelas nuvens grávidas de chuva.
Então porquê esta alusão ao cinzento perguntar-se-á quem ler?
São os cinzentos dias dos políticos, seus fatos, suas falas, seus discursos, suas propostas, mas, em minha opinião, também dos opinion makers de serviço, dos comentadores, que fazem análises tão absolutas e destrutivas que me parece só potenciarem o absentismo.
A sensação que tenho, ao ouvir estes últimos, é a de que procuram, denodadamente, encontrar novas teorias. Algo que os possa deixar na história dos comentadores. Novas hipóteses, ou novas teses, diferentes das expressas no dia ou na noite anterior. Como não é possível avançar com hipóteses diferentes e credíveis com vinte e quatro horas de diferença, ou menos, é o vale tudo.
Neste vale tudo incluo as pequenas ocorrências das campanhas, as falas menores dos políticos (desabafos), murmuradas entre eles, para o lado.

Depois do debate na RTP 1, um comentador a cujas intervenções reconheço, normalmente, mérito, sintetizava
* o seu pensamento: “um fala demais! De um dia para o outro diz coisas diferentes”; o outro: “fala de menos. Diz sempre a mesma coisa. Percebo que numa campanha é importante repetir ideias para que o eleitorado as retenha...!”
Ora bolas, digo eu!
Se dos discursos dos políticos me recuso a falar, dos jornalistas e comentadores esperava-se mais (pelo menos eu esperava!). Temos que esperar mais uns dos outros. Temos que ser exigentes e creio que a forma como a campanha tem sido vista, divulgada e comentada, na generalidade por todos estes opinion makers, em nada a elevou do nível estagnado e baixo que atingiu na pré-campanha e não tem servido os
interesses do eleitorado, da democracia e da participação a ela inerente.
Destes esperava-se que fossem capazes de fazer subir a fasquia impondo-a aos políticos.

Com esta breve nota começo e encerro as minhas reflexões (abertas) sobre a campanha para as legislativas 2005, pois que mais não merece.
Lá nos encontraremos no domingo! Pelo menos expressando o pensamento de forma cuidada, clara e...racional. Já que o momento não é para emoções.


* Mas a síntese era ela: TODO o pensamento que expusera.

18 fevereiro 2005

Imagens do restolho


When Flowers Return, by Alma-Taddema


Imagens do restolho.



Há um campo, por lavrar,
à minha espera.

Em teu corpo ceifarei
nossa seara.

Com as mãos e com
o húmus dos corpos
amassaremos o pão
que nos alimenta.



(Por TMara, in: O LUAR DA ESPERA)

16 fevereiro 2005

A mulher continua a habitar


O calendário indica que o ano
se está a esgotar.


A mulher continua a habitar

a casa. A circular por ela.

A limpá-la, a abrir as janelas

para que o ar e o sol

a penetrem.

Senta-se, por vezes, ao sol,

nas varandas da casa.

Pega nos livros e lê.

Às vezes perde-se nos pensamentos.

Esquecidos os livros

nas mãos distraídas.

Descobriu, hoje, que o ano está

a chegar ao fim.

Uma certa estranheza invadiu-a.

Não se lembra do passar dos meses...,

não lembra quando foi à rua

pela última vez....Há já muito

tempo que não sai dos limites

da casa.

Lembrou-se ainda que o telefone

nunca toca. Nunca ninguém

telefona,

a saber dela, para falar com ela....

Em verdade também não

se tem lembrado de ligar

a ninguém....

Persiste-lhe a estranheza. Se

o ano se está a esgotar, se

se levanta, come, bebe, dorme

e habita dentro da casa, como é

possível fazê-lo durante tanto tempo

sem nunca sair à rua?

Sem que os amigos estranhem a sua

ausência e telefonem?

Não sabe explicar a estranha

situação.

Serena levanta-se da cadeira

que ocupa à secretária e vai sentar-se

na varanda, ao sol.

Sente frio.

Só se sente bem ao sol.

Habita a casa onde viveu, a mulher.

Desconhece que morreu.

Por TMara, do livro: FALAR MULHER:48-49

15 fevereiro 2005

Que bruxa sou!? E tu?

Water Witch
You are a water witch. Beautiful and intuitive, you
draw your power from the water. You can be
tranquil and terrible at one and the same time
and might be described as "moody."
You appreciate literature and may be a
poet/writer. Graceful and powerful as the water
itself, the rest of us envy your ability to
love and be loved by others.

What kind of 'witch' are you?
brought to you by

13 fevereiro 2005

Sobre a fé


Respiração
Ontem li, no blog da Blue Shell, reflexões a propósito da "FÉ".
Esta tem sido uma questão sempre actual na minha vida. Tentar perceber do que se fala, quando sei que a fé não tem a ver com o racional, e o entendimento...
Reflectindo, a partir do post, cheguei a uma conclusão que partilho hoje convosco:
«Talvez afinal a fé não seja não seja mais do que uma respiração síncrona com a VIDA, ela mesma.»

12 fevereiro 2005

Eu nunca guardei rebanhos


by Iris Hustrioides Major
I - Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores
sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber
que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa
a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos
ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel
que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho
e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias
e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente
como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural
— Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque,
cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
(Alberto Caeiro)

11 fevereiro 2005

QUASE


HelixNebula

QUASE


Um pouco mais de sol e eu era brasa
Um pouco mais e azul e eu era além
Para alcançar faltou-me um golpe de asa,
Se ao menos eu permanecesse aquém....

Assombro ou paz? Em vão, tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma
E o grande sonho a desfazer-se em bruma,
O grande sonho, ó dor, quase vivido.

Quase vivido, sim. Quase o excesso e a chama,
O delírio final, quase a expansão,
Mas na minha alma tudo se derrama,
Entanto nada foi só ilusão.

De tudo houve um princípio e tudo errou.
Oh a dor de ser quase, dor sem fim.
Eu falhei entre os mais, falhei em mim,
Esse que se enlaçou, mas não voou.

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo enlacei e nada possuí,
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei, mas não vivi.

Um pouco mas de sol e eu fora brasa,
Um pouco mais de azul e eu fora além
Para alcançar faltou-me um golpe de asa,
Se ao menos eu permanecesse aquém.....

Mário de Sá-Carneiro


N.B - a vós outras/os que sabeis colocar música nos blogs. Uma alma generosa que coloque este poema cantado (já não lembro por quem, mas sei que vai valer a pena). Desde já o meu muito obrigada.

09 fevereiro 2005

CARNAVAL


MULHER


O Carnaval 2005 visto na 4ª feira de Cinzas

No rescaldo do Carnaval
Reflicto sobre a frase:
“(...)ninguém leva a mal...”!
Mascarei-me e fui foliar.

Foi assim: peguei no “mim”
e de “eu” o travesti.
Resultado, perguntam vocês?
Vos digo: não resultou!

Então, o processo inverti.
Peguei no “eu” e de “mim”
o mascarei! Olhei e tudo igual vi...
Foi uma surpresa total.


Para as ruas assim saí,
umas vezes de: eu!
Outras vezes de.... mim!
Afinal, sempre igual.

O que, nos tempos que correm,
É uma surpresa total!
E como ninguém acredita
Pensaram ser... outra igual!



06 fevereiro 2005

Diluo-me no infinito azul


("Jarro" - Cutileiro. Jardim em Beja)

Diluo-me no infinito azul

Liquefeita

regresso à matriz

que me concebeu

Na alma das folhas o

verde começa a amarelecer

prenunciando a nova estação

No céu, uma enorme

talhada de melancia

branca, deita-se

a fazer de lua.

05 fevereiro 2005

Passo a passo




Passo a passo,
lentamente,
iniciar a caminhada.

Abrir os portões
buscar a estrada.

Linha
tracejada a tinta
da china.

(Que linha tão fina)


Passo a passo
pôr o pé
em cada ponto
em cada traço.

Cuidadosamente
sem vertigens
vencer o espaço.


Do livro: AS TAREFAS TRANSPARENTES:61

03 fevereiro 2005

Estavam queimados os olhos




Estavam queimados os olhos.
Ardiam, como se o fogo junto a eles estivesse. Secando-os.

Destruindo as mucosas e queimando-os de forma irritante e dolorosa.
Estavam ardidos das lágrimas que corriam por dentro dela, não mostrando rasto à superfície, nem qualquer marca visível. Só ela as sentia e, mesmo que as não quisesse sentir, o ardor, queimadura bruta nos olhos, não permitia esquecimento.


Raras vezes chorava, por fora. Quando tal acontecia inchavam-lhe os olhos e, em dois minutos, não mais, ficavam num maceramento confrangedor e constrangedor, tanto mais que inchavam de imediato, ficando soltos, enormes globos doridos salientes, queimados como se por líquido corrosivo.

As lágrimas, de tão concentradas, eram excessivamente salgadas. O sal queimava-lhe a frágil pele ficando então bem visíveis os sinais da queimadura.

Não era como agora. Agora só queimavam por dentro, acentuando-lhe umas escuras olheiras, que vinham não se sabe de onde, o encovado da pálpebra e o emaciamento do olhar. Ficavam-lhe quebrados na cara. Como algo que ali não pertencesse e se admirassem por ali e assim se verem.

Subterrâneos rios de dores antigas corriam-lhe por todo o corpo. Flutuavam no sangue, estremeciam a cada batida do coração, vibravam com os movimentos, brilhando na pele como estranhas gotas nacaradas.

Sentia as águas a crescer dentro de si, a subirem pelo peito ameaçando submergi-la. Afogá-la a partir de dentro.



Dentro dela as águas agitavam-se, aprendera agora a triste palavra TSUNAMI, que, em abstracto, enquanto palavra saboreada, enrolada no modo de dizer, lhe fazia lembrar gelados, mas que infelizmente arrastava consigo imagens de fúria da natureza com a consequente devastação e morte.
E ficou a saber nomear as ondas que lhe estremeciam o ser ameaçando destrui-la. Trazia no corpo, no peito, um tsunami que a iria engolir com toda a fúria de tal fenómeno da natureza. O centro do tsunami, ou do terramoto do qual este emanava, abrigava-se-lhe no peito, bem no centro do peito, sobre o esterno. A pressão que aí sentia, era mortalmente opressiva e destruidora de vida. Da sua vida. Mas isso já pouco lhe interessava.

Aquelas violentas águas que a percorriam, e destruíam por dentro, queimavam-lhe os olhos, parecendo os de um Cristo crucificado.
Tudo o que desejava era poder fechá-los e não mais ser fonte, nascente, nem corrente de águas represadas e em fúria como as que a matavam

Por TMara

02 fevereiro 2005

DOI ! Salvemos Amina!


DOI!


No fim de contas aprovaram a lapidação de Amina



O tribunal Supremo da Nigéria ratificou a sentença de morte por lapidação de AMINA; adiando apenas a lapidação por dois meses para lhe permitir a amamentação da criança .



Terminado este tempo, enterrá -la-ão até ao pescoço e matá-la-ão à pedrada, a não ser que uma avalanche de protestos consiga dissuadir as autoridades nigerianas.



Amnesty International pede o teu apoio através da tua assinatura nas suas páginas web.



Mediante uma campanha como esta, salvou-se no passado uma outra mulher, Safiya, que estava na mesma situação. Parece que para AMINA receberam pouquíssimas assinaturas.



Contacta imediatamente:



http://www.es.amnesty.org/nigeria/index2.php



Não penses que não serve para nada. Salvou a vida de Safiya!



Faz circular esta mensagem entre as pessoas sensíveis a esta horrível ameaça de morte. Fá -lo imediatamente. Eu já o fiz.






Era uma vez uma ilha....

«Era uma vez, uma Ilha onde viviam todos os sentimentos: a Felicidade; a Tristeza: a Sabedoria e todos os outros, incluindo o AMOR.
Um dia, foi anunciado aos Sentimentos, que a ilha ia afundar, pelo que todos prepararam os barcos e partiram. O AMOR foi o único que ficou. O AMOR queria permanecer até ao último possível momento
Quando a Ilha já estava praticamente afundada, o AMOR decidiu-se a pedir ajuda.
A Riqueza estava a passar pelo AMOR, numa grandiosa embarcação. O AMOR disse-lhe: “Riqueza, podes levar-me contigo?”
A Riqueza respondeu: “ Não, não posso. Há uma grande quantidade de prata e ouro no meu barco. Não há lugar para ti.”
O AMOR decidiu pedir à Vaidade, a qual também estava a passar num lindo iate:” Vaidade, por favor ajuda-me!”
“Não posso ajudar-te, AMOR. Estás todo molhado e podes estragar-me o iate”, respondeu a Vaidade. A Tristeza estava perto, pelo que o AMOR lhe pediu ajuda:
“Tristeza, deixa-me ir contigo.” “ Oh....AMOR, estou tão triste que preciso estar sozinha!”
A Felicidade também passou pelo AMOR, mas estava tão feliz que nem sequer ouviu o seu chamamento. Súbito ouviu-se uma voz: “ Anda AMOR, levar-te-ei” Era um velho.
O AMOR sentiu-se tão abençoado e contente que se esqueceu de perguntar o nome ao velho. Quando chegaram a terra o velho seguiu o seu caminho. O AMOR, lembrando-se do que devia ao velho perguntou à Sabedoria, outra velha: “ Quem me ajudou?”
“Foi o Tempo”- respondeu a Sabedoria.
“O Tempo?”, perguntou o AMOR. “Mas porque me ajudou o Tempo?”
A Sabedoria sorriu com profundo conhecimento e respondeu: “Porque só o Tempo é capaz de entender quão grande é o AMOR.”»


Com um carinhoso abraço da


Post scriptum:O texto circula na internet. Autor/a desconhecido/a

01 fevereiro 2005

A demanda


A demanda

Preciso de ser abraçada
com força
para poder desfazer
todas as minhas mágoas.

Chorar até
a alma se rasgar
deixando sair toda a dor
que me está a matar

...... e ter esse alguém
a apertar-me
para não deixar fugir
nenhum pedacinho
e permitir remendar-me.

Por: Lexis, in «http://nolimbo.blogspot.com»
TMara