O calendário indica que o anose está a esgotar.
A mulher continua a habitar
a casa. A circular por ela.
A limpá-la, a abrir as janelas
para que o ar e o sol
a penetrem.
Senta-se, por vezes, ao sol,
nas varandas da casa.
Pega nos livros e lê.
Às vezes perde-se nos pensamentos.
Esquecidos os livros
nas mãos distraídas.
Descobriu, hoje, que o ano está
a chegar ao fim.
Uma certa estranheza invadiu-a.
Não se lembra do passar dos meses...,
não lembra quando foi à rua
pela última vez....Há já muito
tempo que não sai dos limites
da casa.
Lembrou-se ainda que o telefone
nunca toca. Nunca ninguém
telefona,
a saber dela, para falar com ela....
Em verdade também não
se tem lembrado de ligar
a ninguém....
Persiste-lhe a estranheza. Se
o ano se está a esgotar, se
se levanta, come, bebe, dorme
e habita dentro da casa, como é
possível fazê-lo durante tanto tempo
sem nunca sair à rua?
Sem que os amigos estranhem a sua
ausência e telefonem?
Não sabe explicar a estranha
situação.
Serena levanta-se da cadeira
que ocupa à secretária e vai sentar-se
na varanda, ao sol.
Sente frio.
Só se sente bem ao sol.
Habita a casa onde viveu, a mulher.
Desconhece que morreu.
Por TMara, do livro: FALAR MULHER:48-49